CENA
Três amigos de meia idade estão sentados nas cadeiras de num quiosque, na praia de Ipanema. Todos moram nas redondezas e, já há algum tempo, não se encontravam para conversar como faziam no passado.
O sol se põe no horizonte e a temperatura está amena nesta tarde noite de maio, seduzindo para o prazer de um fim de dia relaxante. A conversa gira sobre amenidades até que a curiosidade sobre cada um começa a surgir em cada um...
Personagem 1 - chamaremos de Alonso. Ele é um Psicólogo que, nos últimos anos, vem praticando Terapia de Regressão (TR), ou o que se convencionou até os anos 90 chamar de Terapia de Vidas Passadas (TVP).
De forma não sistemática, freqüenta o mesmo Centro Espírita do Personagem 3.
Demonstra afabilidade no trato e uma atitude bastante pensativa em relação aos assuntos das conversas que participa.
Personagem 2 – chamaremos de Andrade. Ele é Psicólogo e Psicanalista há mais de 25 anos.
Tende a manifestar opiniões fundadas no materialismo e nas convenções científicas.
Tem uma atitude firme e direta ao opinar sobre qualquer assunto, não se importando muito com o efeito de suas palavras.
Personagem 3 – chamaremos de José Siqueira, Zé Siqueira para os amigos. Ele é Médico Homeopata e pertence à Direção de um Centro Espírita bastante conhecido na área. Pertence ao meio espírita desde jovem.
Tem uma posição aparentemente aberta, mas se sente incomodado com as críticas de praticantes de outras religiões e, principalmente, com as da Medicina tradicional em relação à Homeopatia.
Depois de um breve silêncio na conversa sobre amenidades, Andrade dirigiu-se a Alonso.
- Soube que você está trabalhando com regressão de memória.
- É verdade, respondeu Alonso.
- A técnica emprega a hipnose? Insistiu Andrade.
Alonso ficou um pouco pensativo, parecendo esperar pela chegada de um assunto delicado. Com cuidado, respondeu:
- Mais ou menos. Procuramos o que se chama Estado Ampliado de Consciência. Ele acontece, em geral, durante um transe superficial.
Andrade pareceu aguçar sua curiosidade.
- Interessante. Você tem tido bons resultados?
- Alguns pacientes diminuem seu sofrimento durante o processo, mudam até sua perspectiva de vida. Outros, nem tanto.
Andrade sentiu que havia espaço para continuar o assunto e, parecendo provocar o amigo, perguntou:
- Nesse processo de regressão, você considera um tipo de ab-reação, de catarse?
Alonso percebeu que Andrade fazia uma analogia com o universo de seu conhecimento, a Psicanálise.
- Nas recordações traumáticas, sim, respondeu Alonso. Contudo, o desmonte das cadeias associativas, trazendo o paciente para o aqui e o agora de sua vida, a integração da sua identidade, permitindo um novo futuro para este paciente, são aspectos de nosso processo. Aliás, como em todo processo terapêutico.
Zé Siqueira meditava durante o diálogo, imaginando o rumo que a conversa estava tomando na direção da reencarnação e suas divergências com a Psicanálise e com a psicologia tradicional. Seu olhar passeava interrogativamente por Alonso e Andrade.
- Soube também que a regressão considera as recordações... bem, como vidas passadas... Comentou Andrade como que distraidamente.
Alonso percebeu que seria necessário sustentar a conversa, não fugir do assunto delicado, mas, com muito cuidado, para evitar confrontos desnecessários.
- É verdade, admitimos esta possibilidade nas regressões. Respondeu Alonso.
- Alonso, o que faz pensar que as recordações traumáticas podem ser de vidas passadas? Não seriam apenas fantasias, devaneios, sonhos do paciente?
“Bingo”, pensou Zé Siqueira.
Zé Siqueira intervém, tentando mudar o provável rumo de confronto da conversa.
- Alonso, certa vez você comentou que a maioria de seus pacientes acredita em reencarnação. Eles não estariam seduzidos pela Terapia de Regressão por mera curiosidade sobre suas vidas passadas?
Alonso deixou o tempo escoar um pouco antes de responder aos dois amigos. De repente, precisava de todo seu equilíbrio emocional e racional. Pensou nas analogias possíveis; pensou na Psicanálise e nas dificuldades que Freud enfrentou nos primeiros tempos; pensou nos aspectos científicos da Psicologia como ciência humana. Por fim, decidiu dar atenção inicial a Zé Siqueira e ao seu comentário sobre a sedução. Como Zé Siqueira era médico, talvez a analogia fosse favorável.
- Zé, como você bem sabe, quando um medicamento é testado em pacientes, dois grupos são formados, um dos quais ingere um placebo, enquanto, o outro ingere a substância motivo do teste. O que se observa é que, entre aqueles que ingeriram um placebo, há uma incidência de cura, cuja porcentagem sugere algo além da mera coincidência.
- Você está sugerindo que a eficácia do medicamento depende da auto-sugestão do paciente? Perguntou Zé Siqueira.
Pelo tom de voz, Zé Siqueira pareceu na defensiva para Alonso.
Na verdade, Zé Siqueira estava incomodado lembrando-se das acusações vindas da medicina tradicional, da alopatia, em relação à homeopatia.
- O que estou dizendo é que, provavelmente, há um componente de auto-sugestão em toda cura. Se a auto-sugestão ocorre entre o grupo do placebo, no grupo de controle, é válido admitir-se que também ocorre no outro grupo que tomou a substância avaliada. Quero dizer que, talvez, não seja só a química que interfira na cura.
- Como “sua fé o curou”? Brincou Andrade.
- Mais ou menos isso, respondeu Alonso. Na Psicanálise, a transferência é tratada com grande importância no processo terapêutico. Você se lembra que Lacan sugeriu que os pacientes atribuíam um “suposto saber”[1] ao analista ao procurá-lo para terapia. Toda transferência tem uma porta de entrada que passa por esse “suposto saber”, caso contrário, não se procuraria pelo analista. Acreditar em reencarnação talvez estimule o paciente a supor que o terapeuta sabe como curá-lo dos seus sofrimentos, já que trabalha com vidas passadas. Tanto você, quanto eu, sabemos que o sofrimento começa a ser superado quando o paciente se dá conta de que a solução está em suas mãos, que o terapeuta é um mero facilitador do processo. É um processo que, inicialmente, depende da crença do paciente nos “poderes de cura” do terapeuta. No fim, como dizia Lacan, o paciente descarta-se do analista[2]. Assume a condição de gerente de sua própria vida, não precisando mais de um facilitador. O mesmo ocorre em nosso processo.
Virando-se para Zé Siqueira, Alonso completou:
- Zé, como você está vendo, a psicoterapia depende fundamentalmente do que chamamos de “vínculo terapêutico”, transferência para Psicanálise, e não de uma sedução sobre o paciente... Alonso fez silêncio, deixando a frase incompleta.
Zé Siqueira ficou pensando na questão da auto-sugestão e em como o pensamento influía na realidade material, segundo sua visão espírita. Bem, talvez não fosse só uma visão espírita, na medida em que alguns monges cristãos e budistas também o faziam em suas meditações. Ou será que não?
Quebrando o breve silêncio, Andrade insistiu no assunto da recordação ser uma fantasia.
- Alonso, você deixou minha pergunta no ar. As recordações de seus pacientes não seriam fantasias, devaneios? O que o faz pensar que são recordações de vidas passadas?
A conversa havia chegado a um momento crucial. Era preciso pisar com cuidado neste terreno acidentado.
- Meu amigo, como poderíamos garantir que são fantasias, devaneios? Respondeu Alonso.
- Bem, a Psicologia não considera a possibilidade de vidas passadas. Afirmou Andrade.
“A trilha se dirigia para uma área muito sensível emocionalmente. Seria preciso abordar a questão do ponto de vista científico”. Pensou Alonso.
- Como você bem sabe, Freud teve muita dificuldade ao abordar a sexualidade infantil com a medicina de seu tempo. Mesmo expandindo o conceito de sexualidade além das meras relações sexuais, da genitalidade, não foi fácil falar de sexualidade infantil para as platéias da época[3].
- É verdade Alonso. Mas, hoje, embora alguns psicólogos não concordem, não há dúvidas sobre o que Freud queria dizer. Mesmo sem unanimidade, a Psicologia aceita a abordagem freudiana. Isso não ocorre com a recordação de vidas passadas...
Este comentário de Andrade provocou um silêncio um tanto constrangedor entre os três amigos.
Zé Siqueira pensou em intervir, mas resolveu ficar calado. Dirigiu seu olhar para Alonso e aguardou.
Alonso procurou em sua memória alguns trechos existentes nos escritos de Freud, que pudessem ajudar em suas argumentações. Lembrou-se daqueles, nos quais Freud se dirigia ao público leigo e de suas reflexões em nos “Escritos Autobiográficos”.
“Talvez pudessem ajudar”, pensou.
- Sexualidade e pulsão são dois conceitos que não podem se separar na Psicanálise[4], concorda Andrade?
- É verdade. O conceito de sexualidade em Freud está ancorado no conceito de pulsão, respondeu Andrade. Bem, não só o de sexualidade. Todos os outros conceitos da estrutura teórica da Psicanálise estão ancorados na pulsão. Mas, onde você quer chegar? O que isso tem a ver com a prática clínica?
- Você se recorda quando Freud diz em seus “Escritos autobiográficos” que o conceito de pulsão e de libido eram imprecisos?[5] Lá, ele sustenta que os fundamentos das ciências humanas não podem ser considerados do mesmo modo do que os das ciências físicas. Naquelas, os conceitos fundamentais são imprecisos. Sua comprovação vem da observação. Aceita-se, inicialmente, o fundamento como verdade, até que haja uma evolução nas observações dos fenômenos, que indique a necessidade de mudança. Esses, digamos, fenômenos, ocorrem na prática clínica. A teoria é uma estrutura simbólica que procura explicá-los, concorda?
- Você quer dizer que a estrutura conceitual da Psicanálise é imprecisa? Cortou Andrade.
Alonso percebeu uma ponta de antagonismo no amigo.
Zé Siqueira, desconhecendo a intimidade da Psicanálise, ficou observando o diálogo, até com certa admiração.
- Andrade, nas palavras de Freud, todas as ciências humanas são imprecisas em suas explicações da realidade. Devem estar preparadas para as mudanças, quando a prática comprovar a veracidade provável de outros paradigmas[6]. Ao se afirmar que uma recordação é uma fantasia, um devaneio, do ponto de vista da Psicanálise, é preciso considerar o conceito impreciso de pulsão, o fato de não se ter certeza. É isso que quero dizer.
Andrade ficou em silêncio por alguns instantes sentindo um enorme incômodo. Parecia que Alonso estava querendo desmontar a Psicanálise. Pensou que era preciso colocar a coisa às claras, não podia deixar dúvidas.
- Você não deixa de ter razão, Alonso. Contudo, são mais de cem anos de prática psicanalítica com bons resultados objetivos. É isso que garante a validade da Psicanálise. A sua prática.
- Com certeza, respondeu Alonso. No entanto, não se pode dizer que todos os pacientes tratados por psicanalistas deixaram de sofrer e mudaram seus destinos. Alguns sim, outros não...
Alonso deixou sua a frase no ar. Andrade parecia agitado, mexendo-se na cadeira. Percebeu que Alonso estava lançando um lençol de dúvidas, que colocariam as afirmações científicas completamente desprotegidas.
- É verdade. Os resultados não garantem, com certeza, que a estrutura conceitual esteja correta em suas explicações sobre o que acontece no consultório, sobre os resultados da técnica psicanalítica. Mas, como isso pode ter relação com a possibilidade de vidas passadas? Perguntou Andrade num tom ligeiramente alterado.
Alonso percebeu que Andrade queria se afastar da Psicanálise, onde estava na defensiva. Andrade estava voltando para as vidas passadas, onde a explicação caberia a ele, Alonso.
De forma muito tranqüila, Alonso insistiu na Psicanálise:
- Você se lembra que, numa das “Novas Conferências Introdutórias da Psicanálise”, se não me engano na 32, Freud chegou a dizer que a teoria das pulsões era sua mitologia?[7]
Aquilo foi um impacto na tranqüilidade controlada de Andrade. Muito incomodado, respondeu:
- Você está dizendo que a Psicanálise é uma mitologia?
- Não meu amigo. Eu estou dizendo que Freud chegou a escrever que a teoria das pulsões era a sua mitologia. Penso que ele fez foi criar uma figura literária, para dizer que a teoria das pulsões era uma hipótese, a partir da qual estruturou teoricamente a Psicanálise. Como ele mesmo afirmou, nas ciências humanas, os conceitos fundamentais são imprecisos, estão sujeitos às transformações impostas pela experiência e pelo tempo.
Compreendendo Alonso, Andrade diminuiu o ímpeto de suas palavras.
- Entendi o que você quer dizer sobre as vidas passadas. Para você é apenas uma hipótese. Alfinetou Alonso.
- De fato, Alonso respondeu tranqüilamente . Se não se pode ter certeza de que a recordação é uma fantasia, também não podemos afirmar que é vida passada. Estamos diante de duas hipóteses, que sustentam diferentes interpretações do que acontece no consultório. A escolha de Freud foi pela fantasia. Em nossa escolha, pode ser vida passada em alguns casos e, em outros, pode ser fantasia, depende do que se passa no inconsciente do paciente. O reconhecimento de uma ou de outra dependerá sempre do contexto terapêutico e da experiência do terapeuta.
Neste momento, Zé Siqueira resolveu intervir. Afinal, a reencarnação era algo real para ele.
- Alonso, quando estamos lá no Centro Espírita, eu e você consideramos as vidas passadas, isto é, a reencarnação, como verdade. Você está dizendo que pode não ser espiritual o que ocorre no nosso Centro? Que pode ser fantasia dos médiuns?
Alonso sentiu que o amigo estava inseguro em relação a sua lealdade com a Doutrina Espírita. Era preciso sustentar a tranqüilidade da conversa e preservar o ambiente de amizade e compreensão. Alonso percebeu a necessidade de fazer uma analogia com a Doutrina Espírita, a fim de explicar sua posição científica como psicólogo.
- Zé Siqueira, você bem se lembra que Kardec alertou-nos sobre os fenômenos anímicos[8]. Alertou que eles poderiam ser confundidos com os fenômenos espíritas. Dizia para se ter cuidado na identificação de um e de outro.
- Mesmo assim, você continua dizendo que o que estamos fazendo no Centro pode não ser Espírita, ou até que nós não estamos tendo cuidado em nossos trabalhos, disse Zé Siqueira com alguma mágoa na voz.
- Não, meu amigo. O que estou dizendo é que Kardec nos alertou quanto à possibilidade da manifestação não ser mediúnica, mas anímica. Isto é, que ela pode vir do próprio médium, de seu inconsciente, e não de um irmão espiritual. Alertou-nos sobre essa possibilidade, para que fôssemos cuidadosos em nossas práticas espíritas.
Zé Siqueira respondeu:
- É verdade. Muitas vezes trabalhamos considerando que todas as manifestações, como você as chama, são espíritas. Funcionamos como se a mediunidade fosse uma garantia para os fenômenos espíritas. Não é. Precisamos ouvir intimamente as palavras de Kardec. Contudo, entre nós, a reencarnação é considerada como verdade e você a colocou em dúvida no seu trabalho. Como fica isso?
Andrade aproveitou o assunto e fez uma intervenção.
- Alonso, a inclusão da questão espiritual não desvirtua a Psicologia?
“Caramba!”, pensou Alonso.
- Bem, não coloquei a reencarnação em dúvida em meu trabalho. Embora, como Espírita, considere sim a realidade da reencarnação, como profissional da saúde, fiz dela uma hipótese. São áreas com funções diferentes. Como já comentamos, não há um fundamento estável para as ciências humanas, ou para aquelas que tratam do humano. Como afirmar que o pensamento limita-se à base orgânica do cérebro? Os materialistas fazem essa afirmação, enquanto os espiritualistas, de toda ordem, a contradizem. Algumas Universidades espalhadas pelo mundo mantêm laboratórios pesquisando sistematicamente esse assunto. Ora o comprovam, ora o desmentem.
- Alonso, você não acha que admitir a questão espiritual aproxima demais a Psicologia da Religião? Comentou Andrade
- Houve um tempo em que a Medicina não admitia que um sintoma físico fosse fruto do psiquismo do paciente, não de um dano orgânico. Naquele tempo, não se considerava a Psicologia como ciência. Agora, a Psicologia não admite a relação entre o sintoma derivado do psiquismo do paciente e suas vidas passadas. É interessante como o poder do Estado limita as possibilidades para a realidade.
- Não entendi... Resmungou Andrade.
- Repare que isso não é privilégio da Psicologia. Quero dizer, essa diferença entre os caminhos terapêuticos a partir de hipóteses que fundamentem a realidade do consultório. Hoje a Física também se debate entre os paradigmas da Física Newtoniana, os da Física da Relatividade e os da Física Quântica. Nesta última, por exemplo, parece que tudo que considerávamos antes como real se desmorona ao nos deparamos com o fato da partícula e da onda serem manifestações da mesma coisa. Mais complicado fica quando, não se podendo pensar em tais manifestações do mesmo modo, a coisa é e não é ao mesmo tempo. Nesse caso, onde estaria o princípio da não-contradição e a essência do ser, tão caros à ciência ocidental? Nem por isso, a Física não é ciência!
Zé Siqueira ficou algum tempo em silêncio. Parecendo titubear, comentou:
- Não entendi bem a separação que você fez. Como considerar a reencarnação como realidade no Centro Espírita e como hipótese no consultório?
- De fato, não é fácil separar, respondeu Alonso. Explicando melhor: por um lado, a Psicologia tem uma função terapêutica, estando sob o controle da ética imposta pelo Estado; por um outro, é uma ciência, estando sob o guarda-chuva dos paradigmas do processo científico. Portanto, na Psicologia, o que temos são hipóteses, como a Pulsão na Psicanálise, o Inconsciente Coletivo em Jung, a Energia Orgone em Reich, o Condicionamento dos Cognitivos Comportamentais, a Compensação da Inferioridade em Adler, o Trauma do Nascimento em Rank, e mais algumas hipóteses que não me lembro agora. Como falei antes, todas elas estão na mesma situação, são hipóteses de trabalho. As vidas passadas entrariam ai também como uma outra hipótese. Infelizmente, a hipótese da reencarnação, que permitiria admitir que a recordação possa ser a de uma vida passada, não é considerada assim pelo Estado brasileiro. Paradoxalmente, na Europa e nos Estados Unidos, não existem restrições a uma hipótese científica, como ocorre por aqui. Lá, o que importa é o uso da ciência, sua função social, os benefícios que trazem para as pessoas. São Pragmáticos, pensam nos resultados. O Brasil é Dogmático, tem uma ingenuidade científica quase juvenil. Nós somos Idealistas, admitimos verdades sacralizadas. Talvez seja essa a razão para aqui a reencarnação ser mais uma questão política do que científica.
Andrade observava os argumentos de Alonso. Considerava cuidadosamente o lado político da questão da reencarnação. Gesticulando levemente com as mãos, perguntou:
- Interrompendo o raciocínio, estou curioso como você percebe o lado político da questão. Gostaria de saber mais sobre isso.
Alonso meditou um pouco na tentativa de se manter nos limites da razão.
Zé Siqueira olhou para Alonso e aguardou sua resposta.
Alonso continuou:
- Bem, suponhamos que um Conselho de Psicologia, dominado por Católicos, ou por Evangélicos, ou por Materialistas de toda ordem, ou por um conjunto com todos eles, dê um veredicto sobre a possibilidade de recordação de vidas passadas. Será muito difícil contrariar as verdades mais íntimas de suas crenças, ou de suas filosofias. Imagine, agora, um Conselho dominado por Psicanalistas. Considerar a reencarnação desarrumaria o conceito de pulsão e de sexualidade, tal com Freud propôs. Aliás, uma das questões centrais da desavença entre Freud e Jung ocorreu quando este afirmou haver algo além da sexualidade, haver algo que impulsionaria o pensamento além das tensões do corpo[9]. Portanto, podemos estar diante daquilo que o próprio Freud chamou de Narcisismo das Pequenas Diferenças[10]. Um pequeno traço de diferença é suficiente para se banir o diferente, imaginando-se a possibilidade de se possuir fundamentos particulares a espelhar verdades absolutas. É o imaginário dominando a razão. O veredicto tende a ser contrário à hipótese da reencarnação. O nosso argumento pretende mostrar que a questão não é tratada racionalmente, ou cientificamente, mas politicamente.
- Alonso, volte um pouco, pediu Zé Siqueira. Não entendi a relação entre a razão e a política. A política não é racional?
- Meu caro amigo, você bem sabe que, na política, a razão tem pouco espaço. Aliás, é o conflito alimentado pelo preconceito o que mais presenciamos nas questões políticas. Quando alguém fala em política social, surgem conteúdos completamente diferentes a se debaterem, acenando cada um com verdades incontestes. O mesmo se dá na política econômica, ou na política internacional. O absoluto não dá espaço para a diferença. Cada um defende seus interesses mascarados de bem comum. Persona como diria Jung[11]. Em qualquer decisão política, o interesse fala mais alto do que o argumento científico. Observe o conflito existente entre os políticos ambientalistas e os desenvolvimentistas. Eles estão no ceio de quase os todos os governos. Leva tempo até que a razão supere o preconceito e inclua o diferente no diálogo. Leva tempo para que a política existente se transforme. Incrível, mas esse processo é uma questão terapêutica...
Andrade considerou o que ouvia e fez uma intervenção.
- Espera um pouco. A reencarnação é uma questão religiosa, não é psicológica. Percebi isso na sua conversa com Zé Siqueira. Está difícil admiti-la como hipótese científica.
Alonso parecia esperar esse corte. Deu um tempo para diminuir a tensão e falou lentamente.
- Quando alguém se recorda de uma cena vivida no século XVII, estamos diante de duas possibilidades: ou é uma fantasia, um devaneio, cujo simbolismo retrata o inconsciente do paciente, ou é a recordação de uma vida passada, cujo simbolismo, do mesmo modo, retrata o inconsciente do paciente. A questão agora é: o que fazer com esse material?; como fazer para, a partir da narração do paciente, ajudá-lo em suas dificuldades, em seu sofrimento atual? Como já comentamos, pode ser uma fantasia, ou pode ser a recordação de uma vida passada. De qualquer forma, estamos diante de hipóteses, não de verdades próprias de uma religião. A partir do fato, isto é, da narração do paciente, aplicaremos uma terapêutica em harmonia com nossa hipótese de trabalho. O sucesso do tratamento psicológico é sempre relativo. No entanto, o materialismo, ou os dogmas religiosos, por exemplo, além dos diferentes interesses de cada um, podem estar inconscientemente impedindo a inclusão da reencarnação como hipótese científica, pressionando sistematicamente, para resumi-la a um conceito religioso. Em nossa Psicologia, não tentamos explicar por quê reencarnamos. Apenas constatamos essa possibilidade.
Andrade pensou: “O espiritismo explica os motivos da reencarnação, quase todos de ordem religiosa. Por outro lado, considerar a reencarnação como hipótese científica não parecia uma tentativa de explicar os motivos de sua existência. Para a Psicologia, não interessaria diretamente as causas, os motivos, da reencarnação, mas, suas conseqüências na vida atual do paciente.”
Zé Siqueira ficou surpreendido com a possibilidade da reencarnação funcionar como uma hipótese de trabalho para a Psicologia.
Andrade perguntou sinceramente:
- Alonso, você está dizendo que parti de um preconceito, para duvidar da possibilidade de que uma recordação do século XVII possa ser de uma vida passada?
- Meu amigo, o que disse é que o inconsciente nos prega peças a toda hora. No chamado primeiro mundo, não se discute a veracidade das vidas passadas, estuda-se esta possibilidade nas Universidades. Se um Psiquiatra trabalha com essa hipótese, haverá sempre alguém contra, alguém a favor. Contudo, o Estado matem sua neutralidade, apostando naqueles que fiscalizam a ética dos profissionais, protegendo os pacientes. A hipótese de vidas passadas não garante que o profissional seja ético, nem mesmo a sua negação. A ética está na relação com o paciente, na admissão primária da função da Psicologia. Ciência e religião não possuem os argumentos para afirmar, ou contrariar, uma a outra, na medida em que a primeira é pragmática, enquanto que a segunda é dogmática, idealista. Partem de pressupostos diferentes, que se complementam, que se atenuam, que, juntas, fazem do humano mais humano.
- Você quer dizer que o meu inconsciente me traiu? Perguntou Andrade.
- Talvez não o tenha traído na negação das vidas passadas, mas, na afirmação de que a recordação é uma fantasia, ou devaneio, sendo formações inconscientes provocadas pelas pulsões. Bem, é complicado afirmar, ou negar, alguma coisa diante de uma hipótese...
Alonso deixou a frase em suspenso.
Andrade ficou em silêncio pensando no que havia dito Alonso: “Parece que Alonso está afirmando a possibilidade de diferentes verdades, de diferentes possibilidades, tal como ocorre na Física Quântica. A verdade de uma delas seria uma questão de escolha.”
Parecendo estar numa ligação mental com Andrade, assim falou Zé Siqueira:
- Acabo de me lembrar do DVD “What the Bleep: Down de Rabbit Hole”[12], que em português saiu como “Quem somos nós?”, ou algo assim. Acho que comecei a entender o sentido que você deu aqui. Você quer dizer que existem diferentes possibilidades para a realidade e nós, ao estarmos face a face com ela, escolhemos uma de suas possibilidades?
Satisfeito por ter superado a situação difícil, Alonso comentou:
- Mais ou menos isso. Esse é um conceito da Física Quântica. Uma ciência como a Psicologia pode se aproveitar disso e reconhecer suas diferentes possibilidades a partir das diferentes hipóteses, que fundamentam suas práticas clínicas. Reduzir a realidade a uma de suas possibilidades, não parece ser muito racional, falou sorrindo.
Andrade observava a conversa em profunda meditação. Sentia, de verdade, que havia sido preconceituoso, que havia misturado a prática religiosa com a prática clínica. Pensou seriamente no fato de, no Brasil, o Estado desconsiderar a hipótese de vidas passadas de forma arbitrária. Imaginou-se decidindo num Conselho de Psicologia se isso seria uma hipótese, ou pura fantasia. Reconheceu que não estava preparado para aceitar a possibilidade da reencarnação. Contudo, não precisava acreditar em reencarnação, bastava admiti-la como hipótese, admiti-la como outra possibilidade, e aceitar que se considerasse uma recordação do século XVII como se fosse de uma vida passada. A questão preconceituosa não estava na hipótese contrária, mas no fato de se afirmar que isso, que vidas passadas, iludia o paciente. Será que iludia de forma especial, de forma diferente das outras mitologias, como diria Freud?
Andrade pensou: “Alonso não estava excluindo outras hipóteses, apenas dizia que a dele era uma hipótese como todas as outras. Que coisa! Como o preconceito fundamenta o egoísmo!”
Andrade foi voltando aos poucos para a conversa quando ouviu o nome de Freud mais uma vez falado por Alonso.
- (...) como bem disse Freud acerca das críticas que o acusavam de induzir sonhos nos pacientes. O processo de indução que usamos como técnica não impõe recordações específicas ao paciente. Tal como na Interpretação dos Sonhos de Freud, a indução provoca o inconsciente do paciente, levando-o a “imaginar” cenas relacionadas ao sofrimento que o paciente carrega. Digo “imaginar”, para não provocar desconforto no nosso amigo Andrade, disse Alonso em tom de brincadeira.
- O que você disse sobre a Interpretação dos Sonhos? Perguntou Andrade.
- Comentei com Zé Siqueira sobre a Conferência Introdutória da Psicanálise, se não me engano a 15ª, onde, em seu final, Freud fala da posição do analista como resto diurno.[13]
- De fato, disse Andrade. Sempre houve uma crítica acerca das intervenções em Psicanálise. De um modo geral, nos acusam de racionalizar o afeto do paciente, tentando interpretar, ou explicar, suas origens. Nos acusam de uma neutralidade afetiva. Nada mais falso. Nossas intervenções são provocações ao inconsciente do paciente, que toma sempre o rumo de seu próprio controle. Como um resto diurno, que fica incomodando o paciente e o faz sonhar um sonho que fala de seu inconsciente, não do resto diurno, o analista serve como tal e provoca suas associações livres. A nossa neutralidade é moral; de não julgar o paciente; de não colocar na boca do paciente conclusões que são nossas e não dele.
- Andrade, você está parecendo com Alonso ao defender a reencarnação, brincou Zé Siqueira.
- Às vezes, esquecemos como foi difícil nosso caminho diante do preconceito. Acho que ficamos endurecidos na defesa de nossas idéias e esquecemos outras possibilidades. Zé Siqueira, na Psicologia, não julgar o paciente é um paradigma extremamente importante. Outro é não concluir o que o paciente não disse. Na verdade, conclui o que Alonso não disse.
- Andrade, quando nos defendemos, o preconceito dói bastante. Mas, ao conquistar posição na sociedade, muitas vezes, esquecemos o passado e passamos a julgar o diferente. Ser conservador não é um “pecado”, é um sintoma. Se fosse um “pecado”, iríamos para o inferno. Como é um sintoma, tem cura. Disse Alonso rindo bastante.
- Valeu a gozação, disse Andrade.
Zé Siqueira agora estava pensativo. Ele mesmo tinha sofrido o preconceito com sua Homeopatia e tinha esquecido como doía. Olhava para Alonso e pensava de que tamanho seria sua dor ao ter sua prática negada pelo Estado, ou até pelas religiões que não consideravam a reencarnação.
Zé Siqueira pensou: “Onde estaria a compaixão nessas religiões? Onde ela havia se perdido? Seria sempre tão difícil calçar as sandálias do outro? Seria sempre fácil atirar a primeira pedra? Afinal, onde estaria a verdade?”
Alonso falou:
- Acho que chegamos a um finalmente. O que temos são diferentes positividades e nenhuma delas é absolutamente positiva antes de nossa escolha. A verdade está nos desígnios de Deus. Tais desígnios nos são inteiramente desconhecidos. Se os conhecêssemos, diante da certeza, perderíamos a fé.
Os três amigos se entreolharam e perceberam o que os unia: a diferença!
Despediram-se e, rindo, juraram se encontrar de novo, nesta, ou em outra vida...
Saboreando os ecos de sua conversa a rodopiar em seus pensamentos, Alonso caminhou devagar sentindo profundamente aquele momento de sossego de sua alma. Enquanto sentia a suave brisa de maio em sua pele, pensava na mensagem que iria enviar aos outros amigos, que lutavam pelo reconhecimento formal da TR. Alonso bem sabe que o grupo que estuda como abordar a questão da TR diante dos Conselhos de Psicologia está anos luz na sua frente.
Contudo, pensou em arriscar alguns palpites.
“Sim, seriam uns poucos palpites, mas, simbolicamente, diriam que estou presente. Acho que vou escrever o seguinte:
- Do mesmo modo que os psicanalistas não provam a existência das pulsões (e os outros também com suas hipóteses), não provaremos a existência de vidas passadas;
- A Psicologia está lutando contra o ato médico e não "quer" parecer "bruxaria";
- A Hipnose foi reconhecida como procedimento terapêutico, portanto, devemos insistir nesta técnica e não no argumento do estado ampliado de consciência. As máquinas não revelam o conteúdo do pensamento, não poderemos provar o que o paciente está pensando, apenas que está pensando;
- Sabemos que não é terapêutico atribuir valor ao conteúdo das recordações do paciente;
- O foco das discussões deve ser pragmático, isto é, o que acontece de benéfico com o paciente quando "diz" recordar-se de uma vida passada e correlações;
- Não importa se o terapeuta acredita em vidas passadas, a força "curativa" está no que o paciente acredita;
- Se um paciente se diz Espírita, ou Budista, ou de alguma região da Índia, diremos a ele que estão equivocados, que suas lembranças são meras fantasias e não vidas passadas? Será isso terapêutico?
- Será que a terapia é apenas para os materialistas, ou para os católicos, ou para... Bem, se for assim estamos diante do preconceito, tal como foi o não às raças e às religiões diferentes no passado;
- Mesmo que o paciente acredite em vidas passadas, ou não, o que importa são os benefícios que as recordações transferem para o aqui e o agora deste paciente;
- Quando uma partícula se comporta, ora como onda, ora como matéria, em função da observação do experimentador, um “religioso” pode dizer que a partícula “pensa”, que tem “alma”, já que decide como se manifestar diante do cientista. Um cientista reagiria de forma diferente diante do mesmo fenômeno, criando hipóteses para responder: Por que onda? Por que matéria? Por que o “olhar” do cientista muda a manifestação da partícula?;
- O fato da religião tratar a reencarnação como crença, ou como “bruxaria”, não impede da ciência tratá-la como uma possibilidade para a realidade das recordações do paciente;
- Os "Inquisidores" acreditam muitas vezes no condenado, mas têm medo de perder o poder, ou o lugar que ocupam na sociedade. Têm medo da “fogueira”...;
- Quando abrirmos as primeiras defesas dos "Inquisidores", ampliaremos pouco a pouco o argumento sobre a fundamentação teórica da TR. Por enquanto, é melhor dizer que nossa técnica é a hipnose e a regressão de memória à origem da neurose.
- Afinal, as lembranças são do paciente, não são do terapeuta;
“Neste momento, se insistirmos que a Terra gira em torno do Sol...” Meditou enquanto seguia para sua casa situada a poucos quarteirões dali.
Ao chegar, Alonso ligou o computador, para enviar sua mensagem. Enquanto esperava a inicialização, pensou em como é complicado admitir como hipótese científica um “mistério” que contraria a crença dos juízes.
“Mal comparando, Galileu e Darwin devem estar incomodados com a compulsão à repetição dos “Inquisidores”, sejam cientistas, sejam religiosos, sejam...
Começou a escrever, desejando que suas palavras chegassem aos ouvidos dos que gostariam de ouvi-las, que dissessem o que os corações entendem, que dissessem o que os cientistas pudessem traduzir...
[1] KAUFMANN, P. (Org.). Dicionário Enciclopédico de Psicanálise. Tradução de Vera Ribeiro e Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996. p 548.
[2] ibid. p 556.
[3] FREUD, S. Três ensayos de teoria sexual (1905). In: Sigmund Freud Obras Completas v. VII. Tradução de José L. Etcheverry. Buenos Aires; Amorrortu, 1990, 24v.
[4] ibid, S. Pulsiones y destinos de pulsión (1914). In: Sigmund Freud Obras Completas v. XIV. Tradução de José L. Etcheverry. Buenos Aires: Amorrortu, 1990, 24v.
[5] ibid. Presentación autobiográfica (1925 [1924]). In: Sigmund Freud Obras Completas v. XX. Tradução de José L. Etcheverry. Buenos Aires: Amorrortu, 1990, 24v. p.53 e 54.
[6] ibid.
[7] ibid. Nuevas conferencias de introducción al psicoanálisis (1933 [1932]). In: Sigmund Freud Obras Completas v XXII. Tradução de José L. Etcheverry. Buenos Aires: Amorrortu, 1990, 24v. p 88.
[8] KARDEC. A. O livro dos médiuns. Tradução de J. Herculano Pires. São Paulo: LAKE, p 238 a 240.
[9] FREUD, S. Contribuición a la historia del movimiento psicoanalítico (1914). In: Sigmund Freud Obras Completas v XIV. Tradução de José L. Etcheverry. Buenos Aires: Amorrortu, 1990, 24v. p 60 a 64.
[10] ibid. El malestar en la cultura (1930 [1931]). In: Sigmund Freud Obras Completas v XXI. Tradução de José L. Etcheverry. Buenos Aires: Amorrortu, 1990, 24v. p 111.
[11] SILVEIRA, N. Jung: vida e obra. 7ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981. p 90.
[12] www.whatthebleep.com .Este site faz a divulgação do DVD mencionado, apresentando algumas informações adicionais, como o curriculum de cada apresentador.
[13] FREUD, S. Conferencias de introducción al psicoanálisis Parte I. In: Sigmund Freud Obras Completas v XV. Tradução de José L. Etcheverry. Buenos Aires: Amorrortu, 1990, 24v. p 217 a 219.
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