O objetivo deste texto não se relacioa diretamente com a Religião Espírita. Contudo, sugere que o codificador desta religião teria praticado a hipnose por vários anos, o que poderia ter aberto seu caminho para seus trabalhos posteriores.
Até hoje, dezenas de perguntas não respondidas balizam a pesquiza em hipnose e psicoterapia, sempre pendulando se a mente governa o cérebro, ou é um de seus sub-produtos. Como ainda não se pode conceituar a consciência do ponto de vista científico, na medida em que se sabe que o sujeito está pensando, mas, não se sabe no quê está pensando, talvez seja possível incluir os estudos deste pensador neste universo ainda desconhecido.
Como se sabe, o Capítulo VIII do Livro II do Livro dos Espíritos trata da emancipação da alma. Na verdade, o que é discutido neste capítulo são as diferentes situações, onde ocorrem variações na intensidade e nos limites desta emancipação. Nele, entre as questões 400 e 454, Kardec faz diversas perguntas, em cujas respostas são delineadas tais situações pelo Espírito de Luz, explorando a emancipação da alma durante o sono, durante o sonambulismo (estado de transe), durante o êxtase (transe profundo), na transmissão do pensamento e na dupla vista. São questões que estabelecem um contorno sobre o que se passa na alma durante sua emancipação do corpo físico.
No fim do capítulo, na questão 455, o Codificador da Doutrina faz um Resumo Teórico do Sonambulismo e da Dupla Vista, sintetizando os assuntos tratados nas questões anteriores, sugerindo, ainda, a necessidade do reconhecimento do sonambulismo (estado de transe) pelos doutos das Universidades. Em dado momento, Kardec afirma que “para o Espiritismo, o sonambulismo é mais do que um fenômeno fisiológico, é uma luz projetada sobre a Psicologia. É nele que se pode estudar a alma, porque é nele que ela se mostra a descoberto”. O que mais a Psicologia poderia esperar, para ajudar os pacientes que sofrem por qualquer motivo subjetivo que seja?
Durante o texto, Kardec destaca as aproximações e diferenças existentes entre um Espírito e a Alma Emancipada, facilitando o que poderia aqui chamar-se de Psicologia da Alma. É possível que, em alguns casos, prática semelhante possa ser direcionada a um Espírito, tantos são os pontos de contato entre os Encarnados Emancipados e os Desencarnados apontados pelo Codificador da Doutrina.
Este capítulo poderia passar despercebido no contexto do Livro dos Espíritos não fosse pela afirmação do próprio Kardec, que revelou ter estudado o sonambulismo (estado de transe) por mais de 35 anos, sugerindo vasta experiência nesta prática. A revelação consta da parte XVI da Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita escrita pelo próprio Codificador e existente no início do Livro dos Espíritos. Ali, ao comentar sobre certas críticas à Doutrina, nas quais se afirmava serem as comunicações espirituais oriundas do próprio médium, disse que “não seremos nós quem contestará o poder do sonambulismo, cujos prodígios presenciamos, estudando-lhe todas as facetas, durante mais de trinta e cinco anos”. Do mesmo modo que na questão 455 já referida, Kardec sinaliza nesta Introdução as características do fenômeno anímico e do fenômeno espírita.
Esse fato sugere que Kardec teria real interesse pelo hipnotismo. Ao afirmar que esta prática iria beneficiar a Psicologia, isto é, a Psicologia dos Espíritos Encarnados segundo a Doutrina, expande as possibilidades do Espiritismo como ciência. Curiosamente, a satisfação de seu desejo de que sonambulismo decorrente do magnetismo (como era chamada a hipnose) fosse reconhecido pela ciência ocorreu em 1998 e 2000, na virada do terceiro milênio, quando a American Psycological Association (APA) e o Conselho Federal de Psicologia (CFP) reconheceram respectivamente a hipnose como instrumento psicoterápico. São quase 150 anos entre aquele abril de 1857 e o reconhecimento da hipnose (magnetismo) pela Ciência Médica e pela Psicologia.
Pode ser que estejamos diante de um possível reconhecimento da hipótese da reencarnação, a ser estudada e debatida pelos doutos a partir dos fatos a ocorrerem durante a psicoterapia com o paciente em transe, repetindo, assim, o que Kardec observou no século XIX sobre o sonambulismo e a emancipação da alma.
Finalmente, é preciso enfatizar que, nos últimos 50 anos, no meio Espírita, tem-se discutido a validade psicoterápica das recordações de vidas passadas, chegando-se a dizer que o Livro dos Espíritos não recomenda esta prática. No entanto, Kardec demonstra que a recordação de vidas passadas pode ocorrer durante o sonambulismo, transe em hipnose, sugerindo que a Psicologia poderia se valer deste e de outros fatos relacionados à emancipação da alma.
É possível que haja um resgate da antevisão de Kardec sobre as possibilidades do estado de transe, ou consciência ampliada, como colocou na sua Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita. Lá, o Codificador assim se referiu ao sonambulismo: “Neste estado, as faculdades intelectuais adquirem um desenvolvimento anormal, os círculos da percepção intuitiva se ampliam além dos limites de nossa percepção ordinária.”
Uma leitura apressada sobre o sentido da emancipação da alma pode sugerir que Kardec estaria falando de mediunidade. Não poderia ser assim, na medida em que o Codificador era imensamente cuidadoso em separar o anímico e o Espírita, dando contornos claros ao que seja mediunidade.
Sabendo-se que a alma emancipada penetra o universo dos desencarnados, contatos entre esta alma e os Espíritos são inevitáveis. Contudo, não parece ser ainda mediunidade, tal como é definido no Livro dos Médiuns em seu capítulo XIX. Ao final deste, há uma soberba Dissertação de um Espírito sobre o papel dos médiuns, cujo texto, ao sintetizar as sutilezas da comunicação espiritual, permite ao estudioso de Kardec identificar as peculiaridades da mediunidade e as da emancipação da alma.
Reconhecemos que sempre haverá ponta de dúvida se a comunicação é Espírita, ou anímica. Dúvida que alimenta a pesquisa Espírita em seu prisma científico, não obstante jamais se duvide da realidade da reencarnação, na medida em que ambas as situações a comprovam.
Acreditamos que, a partir da hipótese científica suscitada por este artigo, possamos iniciar discussão profícua sobre uma Psicologia, cuja prática ocorra durante a emancipação da alma, diferenciando-a claramente dos objetivos da mediunidade. Como primeira provocação, diríamos que Kardec sinalizou que, quando a alma está emancipada, recupera alguns atributos próprios dos Espíritos, sendo possível, assim, recordar suas vidas passadas, dentre outras ocorrências importantes num processo psicoterápico.
NÃO HÁ ESPERANÇA SEM FÉ!
Glossário Técnico.
Alma = Espírito encarnado.
Magnetismo = Hipnose
Magnetizador = Hipnólogo
Sonambulismo = Estado de Transe em Hipnose.
Sonambulismo Magnético = Estado de Transe alcançado com ajuda de um Hipnólogo.
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