“Não seremos nós quem contestará o poder do sonambulismo, cujos prodígios presenciamos, estudando-lhe todas as facetas, durante mais de trinta e cinco anos.” Kardec, LE, Introdução.
A relação causa e efeito era entendida como próxima do “materialismo” da física newtoniana, na qual a intensidade dos efeitos seriam proporcionais às suas causas, e mais afastada das diferentes “verdades” sobre um efeito com diferentes causas, uma causa com diferentes efeitos, ou efeitos com intensidades inversas às causas, próprios do que nos revelam as ciências contemporâneas. Muitas vezes, esquecemos que as condições, sob as quais ocorre a relação percebida como sendo de causa e efeito, escondem fatores desconhecidos a desmontar eventual olhar linear e determinístico direcionado para esta relação. A lógica do século XIX desmoronou diante das “descobertas do final do século XX”, seja nas ciências da natureza, seja nas humanas.
De qualquer forma, a ciência contemporânea vem provando, a cada experiência, a cada descoberta, que vivemos sob a égide de interpretações, de teorias, não de verdades absolutas. Fatores causais não percebidos, ou não considerados, imprimem aura de desconhecido às respostas da ciência para fenômenos aparentemente simples. Mesmo em relação à Lei da Atração Universal, hoje, sabe-se ser apenas uma teoria, não uma lei universal como nome indica. Isto quer dizer que pouco se sabe sobre a realidade, na medida em que as teorias são constantemente substituídas por interpretações com poderes de explicação.
Partindo-se do entendimento contemporâneo acerca da realidade que nos cerca, seja com apoio da ciência material, ou da natureza, seja com o da ciência da alma, ou humana, podemos dizer que o Livro dos Espíritos é atualíssimo, mesmo tendo sido produzido no século XIX com seu discurso linear e determinístico. Além de conter teorias ainda sobreviventes no século XXI, nele, não existem o sempre e o nunca, o tudo e o nada, o certo e o errado a limitar um suposto saber da ciência.
O que descobre em suas páginas é que as existências incorpóreas dão sentido à realidade, não o inverso, como se poderia supor. Não é a Física Quântica que explica o espiritual, mas o inverso, isto é, as considerações espirituais explicam o que não se responde na física da partícula. O século XXI trará o entendimento de que o fator espiritual, não material, portador de inteligência, possui os atributos suficientes, para iluminar o vazio desconhecido pela ciência materialista.
De qualquer forma, estaremos distantes da Verdade. Sabemos que os Espíritos, mesmo aqueles banhados pela Luz, não participam dos desígnios de Deus. Assim sendo, caso se considere suas comunicações no O Livro dos Espíritos como teorias, isto é, conteúdos a serem postos à prova e eventualmente atualizados, o que lá existe vem resistindo ao tempo. É verdade que as analogias e comparações existentes em suas páginas estão nos limites da compreensão filosófico-científica da época. Contudo, o sentido que expressam está em comunhão com a complexidade filosófico-científica do pensamento contemporâneo.
Ciência e Religião estão quase sempre em lados opostos, embora ambos possam eventualmente ser determinísticos, um a excluir o outro. Kardec, em suas sínteses, e os Irmãos Espirituais, em suas respostas, parecem ter desmontado esta percepção da realidade. Do ponto de vista da Religião, ao se ler este livro doutrinário, descobre-se, por exemplo, que cada Espírito, cada alma, está onde deveria estar, segundo o que sentem, pensam e são. Passado, presente e futuro, diferentes dimensões do mesmo, entrelaçam-se no Corpo Mental das almas e dos Espíritos, emprestando-lhes a face do que chamamos Karma.
Assim, Karma não se relacionaria com castigos, com pagamentos de dívidas com terceiros, mas com a rede de intenções e sentimentos a constituir os Corpos Mentais de cada Espírito, de cada alma. As penas, aparentes castigos, são pela intenção do que se faz, não pela conseqüência do que se fez. Intenção sempre relacionada ao sentimento impulsionador da ação e ao conhecimento relativo que a alma, ou Espírito, possuam no tempo da ação. São estas condições que determinam o Karma, isto é, a intensidade das provas e das penas de cada um, não castigos, ou “penas infernais”. Sendo, portanto, condições relativas para o Karma, não se pode julgar uma ação desconhecendo-se a intenção, o nível de conhecimento e a situação daquele que age, seja alma, seja Espírito. Nada mais atual!
Assim sendo, céu, inferno e purgatório são relativos, isto é, não são determinísticos e iguais para todos segundo os mesmos “pecados”. Kardec nos mostrou em sua Codificação que Deus é justo, jamais punitivo. No entanto, ainda encontramos leitores que a entendem de forma determinística e linear, influenciados que estão por cientistas e filósofos do século XIX, que imaginavam ser a relação causa e efeito determinada, a priori, por leis imutáveis. Estes últimos defendem que o Karma seria uma espécie de condenação, sem direito à “liberdade” até que se pague a “dívida” com sofrimento, a ser vivida durante a encarnação, na qual as faltas cometidas em outras vidas seriam purgadas. Talvez não seja assim...
Do ponto de vista da ciência, desde muito tempo, sabe-se que o sentimento e o pensamento influem no funcionamento do Corpo Físico. Ansiedade, stress, culpa, raiva, parecem estar presentes nas mais variadas doenças do organismo, assim como em atitudes e comportamentos belicosos e agressivos. André Luiz já nos dizia que o Corpo Mental influi no Corpo Espiritual, ou Perispírito, e este, no Corpo Físico. Portanto, em todas as situações, mesmo durante a concepção, o Corpo Mental do Espírito a vivenciar o processo encarnatório estará determinando as condições de funcionamento do Corpo Físico em formação. Assim, sentimentos e intenções são muito mais poderosos como causa de doenças e sofrimentos do que eventuais castigos por “pecados” cometidos em vidas anteriores, ou mesmo mais poderosos do que heranças genéticas a explicar evoluções e deformações do organismo.
A questão kármica vista por esse ângulo sugere a possibilidade de se alterar, durante uma encarnação, o que parecia ser um castigo definitivo por faltas cometidas no passado. Castigo imposto por “alguém” muito poderoso e, talvez, cruel, reproduzindo-se, em pequena escala, o conceito medieval de céu e inferno. Como estamos convencidos sobre a bondade de Deus e sobre o livre arbítrio das almas e Espíritos, podemos dizer que este último, o livre arbítrio, determina o Karma, na medida em que sentimentos e intenções governariam nossas escolhas, o que seremos e faremos. Nada mais atual em termos de ciência humana, seja na Psicologia, seja na Biologia, seja na Medicina, seja no Direito, seja na Filosofia, seja na Religião...
Vejamos o que diz O Livro dos Espíritos sobre este assunto.
Na questão 999, Kardec pergunta se o arrependimento durante a vida seria suficiente para extinguir as faltas. Observem que a pergunta está de acordo com o pensamento do século XIX, no qual as penas estariam relacionadas com as faltas, isto é, com as consequências das ações. O Irmão Espiritual responde que o arrependimento auxilia a melhora do Espírito, mas o passado deve ser expiado. É interessante pensar um pouco no que seria entendido por expiação nesta resposta. Para isso, vejamos a questão 1000, na qual Kardec pergunta se, já nesta vida, podemos resgatar nossas faltas. A resposta vem clara e bastante orientadora, quando o Irmão Espiritual diz que sim, reparando-as, isto é, transformando sentimentos e intenções e agindo de forma reparadora. Esta seria, então, a reparação, não os eventuais sofrimentos do encarnado.
Talvez ainda não esteja muito clara a possibilidade de se transformar o Karma numa encarnação, na medida em que danos físicos, doenças e eventuais sofrimentos decorrentes de relações desastrosas não possam ser recuperados numa única vida, na medida em que seriam consequências de escolhas anteriores regidas por sentimentos e intenções ditas impuras. Contudo, a transformação do Espírito passa pela transformação da alma, sentido de qualquer reencarnação. Ao se transformar, o Corpo Mental influirá na saúde e na paz do encarnado, atenuando-lhe o sofrimento. Além disso, influirá decisivamente na constituição do Corpo Físico da encarnação seguinte e na escolha das provas, base do processo de aperfeiçoamento em direção da Luz.
Se, ainda assim, não estamos convencidos de que o inferno não existe, mesmo aquele reduzido a penas a serem sofridas na encarnação, talvez devamos pesquisar um pouco mais esta obra doutrinária. Mais a frente, na questão 1004, Kardec pergunta sobre o que determina a duração do sofrimento do culpado. O Irmão Espiritual, que se chamou de São Luis, responde:
“O tempo necessário ao seu melhoramento. O estado de sofrimento e de felicidade sendo proporcionais ao grau de pureza do Espírito, a duração e a natureza dos seus sofrimentos dependem do tempo que ele precisa para se melhorar. À medida que ele progride e que seus sentimentos se depuram, seus sofrimentos diminuem e se modificam.” São Luis
Embora Kardec tenha perguntado sobre o sofrimento do culpado, o Irmão Espiritual preferiu dizer que as “penas” são proporcionais ao grau de pureza do Espírito, não castigos proporcionais à culpa. Diante disto, nada mais nos resta do que reconhecer que o livre arbítrio governa provas e penas, que são proporcionais aos sentimentos e intenções da alma, ou do Espírito, não condenações ordenadas por “entidade” superior.
Mais uma vez, diante da bondade de Deus, distanciamo-nos de “penas infernais”, ou de “beatitudes celestiais”, decorrentes do julgamento de alguém poderoso e cruel a nos impor a eternidade de seus desejos. Afinal, somos nós os senhores de nosso destino, ou não teríamos livre arbítrio.
Se nossa interpretação estiver próxima das palavras dos Irmãos Espirituais que produziram O Livro dos Espíritos junto com Kardec, o trabalho realizado nos Centros Espíritas direcionado aos Espíritos sofredores, bem como o desenvolvido nos consultórios de psicoterapia direcionado aos encarnados sofredores, ou seja, o trabalho de transformação do Corpo Mental de Espíritos e almas, responde ao que disse São Luis sobre a modificação e purificação de sentimentos e a proporcionalidade das “penas” no aqui e no agora.
Como se sabe, embora a Psicologia Transpessoal seja reconhecida nos Estados Unidos e na Europa como teoria em Psicologia, no Brasil, a reencarnação não é admitida como possibilidade interpretativa de sintomas. Sabe-se, também, que os sintomas relacionados às neuroses, psicoses e perversões são manifestações da linguagem, isto é, quem os manifesta quer dizer alguma coisa com eles. Portanto, possuem sentido. Assim sendo, em psicoterapia, trata-se o sintoma como se fosse algo dito pelo paciente, incapaz, naquele momento, de fazê-lo pela boca. Culpas e medos incompreensíveis estão relacionados a questões inconscientes, isto é, a situações e papéis desempenhados e de alguma forma esquecidos, nos quais sentimentos e intenções estiveram presentes, por exemplo.
Existem diferentes técnicas psicoterápicas baseadas em teóricos importantes, que abordam a questão do inconsciente de modo particular. A Psicologia Transpessoal admite que o inconsciente faça parte do Corpo Mental, existindo e produzindo sintomas na alma e no Espírito, tal como nos mostra André Luis e Joana de Angelis em seus livros. No entanto, mesmo no Espiritismo, é possível se encontrar espíritas a discordar de qualquer processo de recordação de questões inconscientes com esta amplitude, alegando ser indesejável a lembrança de vidas passadas, tal como consta no O Livro dos Espíritos, afirmam eles. Alguns argumentos parecem sustentar a imutabilidade do Karma e a existência de “penas infernais” no processo reencarnatório, hipótese existente em tempos medievais do cristianismo.
Acreditamos que O Livro dos Espíritos não poderia ser lido ao pé da letra, nem se desconsiderando questões aparentemente contraditórias. Cada resposta dos Irmãos Espirituais está condicionada às circunstâncias específicas que envolvem os argumentos utilizados. Observemos, por exemplo, a questão 308, na qual Kardec indaga se os Espíritos recordam-se de todas as encarnações passadas. A resposta foi simples e direta:
“O passado se desenrola diante dele, como as etapas de um caminho que um viajante percorreu. Mas, como já dissemos, ele não se lembra de maneira absoluta, de todos os atos, recordando-os apenas na razão da influência que tenham sobre seu estado presente. Quanto às primeiras existências, as que se podem considerar como a infância do Espírito, perdem-se no vazio e na noite do esquecimento”.
Assim, as recordações são bastante terapêuticas, na medida em que influem no estado presente, justificando-o. Afinal, para quê recordar se o processo não servir para a transformação de sentimentos e intenções? A indagação mais razoável seria se a alma, aprisionada na encarnação, não estaria impedida de recordar seu passado. Talvez possamos voltar um pouco e buscar a questão 223, na qual Kardec pergunta se a alma reencarna imediatamente após a separação do corpo. A resposta continua simples e direta;
“Às vezes, imediatamente, mas, na maioria das vezes depois de intervalos mais ou menos longos. Nos mundos superiores, a reencarnação é quase sempre imediata. A matéria corpórea sendo menos grosseira, o Espírito encarnado goza de quase todas as faculdades do Espírito. Seu estado normal é o dos seus sonâmbulos lúcidos.”
O que ressalta nesta questão é a afirmação de que os sonâmbulos lúcidos gozam de quase todas as faculdades do Espírito, podendo recordar-se daquilo que seja importante ao seu crescimento. De qualquer forma, ainda assim, pode-se afirmar que não estaria clara tal analogia. Vejamos um trecho da questão 455, na qual Kardec elabora um resumo teórico sobre o sonambulismo:
“A causa da clarividência do sonambulismo magnético e do sonambulismo natural são a mesma: um atributo da alma, uma faculdade inerente a todas as partes do ser incorpóreo que existe em nós, e que não tem limites além dos que são assinalados à própria alma. O sonâmbulo vê em toda parte a que sua alma possa transportar-se, qualquer que seja a distância.”
Portanto, no sonambulismo, com sua emancipação, a alma recupera alguns atributos inerentes aos Espíritos. Kardec pergunta na questão 434 se as faculdades que o sonâmbulo desfruta são as mesmas do Espírito após a morte. Como sempre, a resposta é simples e direta:
“Até certo ponto, pois é necessário ter em conta a influência da matéria, a que ele ainda se acha ligado.”
Observemos que sonambulismo é sinônimo de transe em hipnose, e que magnetismo também o é do processo hipnose completo. Observemos, ainda, que a Psicologia Transpessoal e a Terapia Regressiva (TR) se valem do transe hipnótico superficial, sonambulismo na linguagem de Kardec, para ajudar na transformação do Corpo Mental do paciente nos termos acima descritos, na medida em que, neste estado, eventuais recordações, inexistentes no estado dito normal, contribuem para esclarecer o sentido de seu Karma. Diante deste sentido a reverberar nos sofrimentos atuais, o paciente eventualmente descobre um atalho para sua transformação. Eventualidade a depender de sua força interior, daquilo que os Irmãos Espirituais chamaram no O Livro dos Espíritos de merecimento.
Ao nivelar almas e Espíritos, O Livro dos Espíritos sugere que os Irmãos Espirituais são conselheiros das almas e Espíritos ainda em desenvolvimento, não entidades poderosas a nos proteger do mal. O mal é escolha livre de cada um, assim como o poder de evitá-lo em seus sentimentos e intenções. As forças da natureza e os acidentes não são um mal, assim como as obsessões; são apenas acontecimentos, provas a serem superadas pelos encarnados. Até mesmo a intuição de tragédias futuras é parte das escolhas e das provas de cada um.
Assim, entendemos que não há qualquer impedimento para se transformar o próprio Karma, a não ser o livre arbítrio a governar caminhos de felicidade e sofrimento. Isto não significa que os Espíritos perderam sua função na arquitetura do Universo, mas, como os encarnados, exercitam a caridade e a compaixão em suas trajetórias em direção à Luz. Como Irmãos mais experientes, sugerem, apontam caminhos, orientam, ajudam nossa tarefa de curar corpos e mentes, alertam-nos sobre eventuais tropeços. Segui-los, aceitar suas orientações, é escolha de cada um. Almas e Espíritos são o mesmo a existir em dimensões diferentes.
Finalmente, talvez seja possível afirmar que o “inferno” é criação do nosso Corpo Mental, deste princípio inteligente que tenta justificar os sofrimentos do Corpo Físico causados por ele mesmo, sugerindo castigos e “penas infernais” impostos, não consequências de si mesmo. Tudo indica que o tratamento psicoterápico com base na hipnose pode ajudar a transformar o Karma de encarnados sofredores, na medida em que a alma emancipada do Corpo Físico recupera alguns atributos dos Espíritos, dentre os quais está a capacidade de recordar-se do passado, nos limites esclarecidos no O Livro dos Espíritos.
Felizmente, mesmo que aconselhados pelos Irmãos Espirituais, para o bem ou para o mal, estamos sós em nossas escolhas. É o que nos garante a liberdade para amar, vivenciar a compaixão e a caridade e, finalmente, encontrar a felicidade.
Não há esperança sem fé!
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