sexta-feira, 12 de agosto de 2011

PSICOTERAPIA DA ALMA

Para o Espiritismo, o sonambulismo é mais que um fenômeno fisiológico, é uma luz lançada sobre a psicologia; é aí que se pode estudar a alma, porque ela se mostra descoberta. (Kardec, L.E., q 455)
Em artigos anteriores, sinalizamos para o fato de Kardec ter tido muita experiência com hipnose, que, na época, chamava de magnetismo. Como se sabe, a hipnose é um processo, no qual algumas técnicas são empregadas, a fim de facilitar o transe hipnótico, no qual ocorre o que se convencionou chamar de Estado Ampliado de Consciência. Ampliado na medida em que possui algumas características peculiares à consciência dos Espíritos. Kardec chamava a este Estado de sonambulismo, no qual a alma se emanciparia do corpo físico.
Kardec dividia o sonambulismo em natural e magnético. O primeiro aconteceria de forma espontânea, enquanto, o segundo, seria provocado por um magnetizador, hoje, chamado de hipnólogo.
Nada disso teria importância para a psicoterapia não fora os fenômenos que acontecem no transe hipnótico, ou como dizia o codificador, no sonambulismo. Neste Estado, a alma se emancipa do corpo físico, adquirindo alguns atributos do Espírito, dentre os quais estão a clarividência e a recordação de vidas passadas.
Kardec assim se expressou sobre a clarividência:
A causa da clarividência tanto no sonambulismo magnético quanto no natural é a mesma: é um atributo da alma, uma faculdade inerente a todas as partes do ser incorpóreo que está em nós e cujos limites são os mesmos da própria alma. O sonâmbulo vê todos os lugares aonde sua alma possa se transportar, seja qual for a distância. (Kardec, L.E., q 455)
Nesta citação, o importante parece ser a relação estabelecida entre os atributos do Espírito, ser incorpóreo, e os da alma, Espírito encarnado, como a definiu Kardec. Tais atributos permitem-nos dizer que as recordações de vidas anteriores da alma ocorrem tal como nos Espíritos, isto é, segundo as necessidades para o seu próprio desenvolvimento, guardando-se os limites e impedimentos causados pela ligação da alma com o corpo físico.
De qualquer forma, tomando-se O Livro dos Espíritos como referência, em especial o capítulo sete do Livro Segundo – A emancipação da alma - as recordações ocorrem na medida em que a alma se emancipa do corpo físico, não em função de algum estado alterado e referido ao corpo físico. Contudo, cabe esclarecer, como a alma está ligada ao corpo físico, este sinaliza em seu funcionamento, tal como no batimento cardíaco, na cor da pele, na sudorese, nas ondas cerebrais e alguns outros sinais, que a alma estaria em processo de emancipação deste corpo físico.
Assim sendo, presumimos que seja adequado chamarmos ao processo psicoterapêutico que ocorre com o paciente em transe hipnótico, ou em estado sonambúlico, como diria Kardec, de Psicoterapia da Alma.
Diante de tais fatos, parece claro que, nem o paciente, nem o psicoterapeuta, teriam domínio sobre o processo terapêutico de recordação de vidas passadas. Este processo obedeceria a diferentes fatores relacionados ao funcionamento da memória, bem como a sua relação direta com as dores, rancores e amores do paciente, bem como o peso de sua culpa inconsciente.
O curioso é que a culpa inconsciente está sempre encoberta pelos episódios traumáticos desta e de outras vidas. Como as dores, o abandono e o desamparo parecem justificar todo sofrimento atual, suas intensidades como que silenciam as situações, nas quais o paciente foi o agente do sofrimento alheio. Estas últimas são mais difíceis de serem lembradas, fazendo com que a culpa se enraíze no inconsciente, causando, com seu quase silêncio, mais sofrimento do que o alarido das situações traumáticas.
É verdade que alguns sintomas estão diretamente relacionados com situações traumáticas. Livros e mais livros sobre Terapia de Vidas Passadas relatam inúmeros casos de ocorrência de cura de sintomas físicos depois de significativas lembranças de traumas vivenciados nesta, ou em outras vidas. Contudo, curiosamente, o desaparecimento do sintoma físico não resolve o sofrimento, que a alma carrega de forma crônica e contínua. Depois de um alívio momentâneo com o desaparecimento do sintoma físico, um mal estar indefinido quase sempre reocupa seu lugar na alma do paciente.
Do ponto de vista ético, não se pode contrariar o desejo de um paciente, que procura a psicoterapia para se livrar de algum mal físico. Embora se saiba que a transformação interna a iluminar o caminho da felicidade não está no sofrimento do corpo físico, mas nos sentimentos que a alma carrega, é preciso atender, primeiro, à demanda do paciente. Em alguns casos, o próprio paciente solicita um aprofundamento do processo psicoterápico; em outros, aceitam as sugestões do psicoterapeuta, no sentido de libertar a alma da insistência da culpa, a fim recuperar o livre fluxo do desenvolvimento.
Quando sentimentos aprisionam a alma, as encarnações se repetem plenas do mesmo sofrimento, mudando apenas de corpos e de situações. O caracteriza o Karma é o sentimento que a alma carrega, não sendo diretamente decorrente das situações eventualmente vividas em diferentes corpos. O que move a ação é o sentimento, não o inverso, como faz parecer supor as situações traumáticas, nas quais se sofre a ação.
A alma é movida por sentimentos e intenções, dentre os quais estão a culpa e o desejo de fazer sofrer, a si e ao outro. Culpa pelo que já se fez de mal a alguém e pelo desejo de fazê-lo novamente, ai está o nó a ser desatado para livrar a alma do sofrimento e para recuperar o fluxo reencarnatório em direção à felicidade.
Ao acompanharmos o trabalho com Espíritos obsessores nos Centros Espíritas, evidencia-se, em tais Espíritos, o desejo de fazer o mal, bem como a dificuldade em fazê-los descobrir que são estes sentimentos que o fazem sofrer, não mais o que se passou em épocas anteriores quando encarnado. Por seu lado, estando encarnada, a alma passa primeiro por lembrar-se do sofrimento dos seus diferentes corpos físico, para, depois, descobrir que provocou traumas e sofrimentos em outros corpos físicos, hoje Espíritos obsessores a dificultar-lhe a existência.
Tanto no trauma, quanto na culpa, o sentimento predominante talvez tenha sido o desejo de fazer o outro sofrer. No primeiro caso, como reação ao sofrimento imposto pelo outro e, no segundo, como sentimento sem causa definida além do preconceito. Não estamos afirmando que todos os pacientes sofrem por tais razões, embora o fato de estarmos num planeta de provas e penas possa sugerir que tal aconteça no ciclo das reencarnações.
Superar este circuito parece ser a chave que liberta almas e Espíritos de seus sentimentos destruidores, permitindo que retornem ao fluxo do desenvolvimento em busca da felicidade. É preciso redescobrir o amor e a compaixão, sem o quê, não é possível perdoar e praticar a caridade. Esta seria a função da Psicoterapia da Alma, que, transformando sentimentos aqui e agora, modifica o Karma. Isto é, a mudança de perspectiva sobre o passado, permite que se espere um novo futuro, diria Chico.
Não há esperança sem fé.

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