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segunda-feira, 15 de abril de 2013

A NATUREZA DA CONSCIÊNCIA

Há dois anos, Eric Kandel, Nobel em 2000, foi perguntado sobre o quanto a neurociência desconhecia sobre a natureza da memória. O neurocientista disse que se conhecia como a memória seria formada, mas, desconhecia-se como certas memórias seriam evocadas e; completando, disse não saber como a memória se modificaria ao longo do tempo. Diante de tantas dúvidas, não seria arriscado dizer-se que se conheceria apenas alguns recortes do que vem a ser a memória. Assim sendo, a ciência desconhece a natureza da memória.

Dando mais um passo, é possível concluir que, desconhecendo-se o “mecanismo” de evocação de certas memórias, ou mesmo como a memória se modificaria ao longo do tempo, a ciência desconheceria a natureza da consciência, palco de lembranças e de interpretações sobre a realidade subjetiva e objetiva do sujeito.

Admitindo-se a consciência de si mesmo como a principal característica humana a diferenciá-la dos demais mamíferos, sendo a própria consciência um depositório de pensamentos e de sentimentos, isto é, de conhecimentos, o universo do não sabido está muito além do que a “vã psicologia” sugere conhecer. Algumas respostas podem parecer esclarecedoras, mas são apenas teorias, isto é, tentativas de “explicar logicamente” o mistério da subjetividade a partir de princípios, os quais, em algum momento, pareceriam factíveis, até que novas descobertas e novos princípios demonstrem ser ilógica a interpretação anterior.

Não se pode esquecer que a estrutura neuronal forma a base orgânica, a partir da qual a consciência se expressa na fala e no movimento. Curiosamente, é a consciência que parece regular a atividade cerebral e a consequente atividade orgânica geral, beneficiando, ou prejudicando a saúde. Como a natureza da consciência é desconhecida, não seria possível ir além de uma teoria aproximada sobre a relação entre a subjetividade, o cérebro e o organismo em geral, abrindo-se inúmeras possibilidades para a interpretação deste “mistério”. Embora a interpretação sobre tais relações ocorra na consciência, que desconhece a si mesma, sua inquietude diante do desconhecido a movimenta permanentemente na busca de respostas sobre sua própria natureza e sobre a relação com a base orgânica que “habita”.

Como um “cachorro correndo atrás do próprio rabo”, a consciência infere sobre si mesma a partir da observação de alguns fenômenos físicos e mentais, tais como as doenças psicossomáticas, os sintomas psicológicos e os comportamentos a refletirem o seu “mistério” interior. São efeitos que provocam outros efeitos em cadeia, eventualmente pondo em risco a sobrevivência do organismo. O stress, por exemplo, surge a dificultar e a corromper situações favoráveis, ou a mortificar o organismo, enfraquecendo-o. A consciência o reconhece originário dela mesma, na medida em que o stress estimula a atividade limítrofe de alguns sistemas do organismo, como a homeostase, levando-a a procurar entender este fenômeno como um todo, a fim de proteger o lugar que “habita”.

Percebendo que sua união com o organismo caracteriza o ser humano, numa tentativa preliminar de esclarecimento, a consciência separa a natureza humana nos seus aspectos físicos, mentais, sociais e espirituais, mesmo correndo o risco de recortar demais a tentativa de interpretação sobre si mesma. Inferindo a partir da evidente cadeia causal, os aspectos físicos sugerem a presença de alguns efeitos decorrentes do estado de stress, como os sintomas psicossomáticos, por exemplo.

Diante disso, há 100 anos, a Psicologia vem teorizando sobre a subjetividade e seus efeitos, isto é, sobre a causa primeira do processo do pensamento, a estrutura do psiquismo e os sintomas psicológicos, não tendo encontrado um discurso comum até agora. Certamente em função do imenso não sabido sobre a memória e a consciência, a permear a neurociência até hoje, como afirmam alguns teóricos. Na verdade, são apenas teorias mais aceitas pelo universo acadêmico, estando muito longe de iluminar a real natureza da consciência.

A partir de algumas consequências do processo psíquico, as teorias psicológicas abordaram os sintomas psicológicos, como aqueles das neuroses e psicoses, sendo alguns responsáveis pelos sintomas psicossomáticos. Ao longo do tempo, desenvolveram métodos e técnicas de tratamento psicoterápico, buscando eliminar ou diminuir a intensidade do sofrimento psíquico, ou orgânico, causado por tais sintomas. A fim de justificar seus métodos e técnicas, as teorias psicológicas elaboraram perfis sobre a estrutura do psiquismo e o processo subjetivo causador dos sintomas. No entanto, este universo teórico e prático só teria sentido se estivesse caracterizado o quê daria partida à subjetividade, causa primeira a ser considerada.

De qualquer forma, a origem da vida e a natureza da consciência continuam incógnitas a serem desvendadas pelas pesquisas acadêmicas realizadas pela própria consciência, que desconhece a si mesma...

Mesmo desconhecendo a origem da vida, ou a natureza de si mesma, a consciência considera o cérebro como um conjunto de neurônios que, para funcionar, depende de reações químicas a produzir cargas elétricas e a polarizar estes neurônios, além de conexões químicas entre estes neurônios a impedir, ou a facilitar os fluxos elétricos, que percorrem o cérebro e o sistema nervoso em geral. Tais fluxos elétricos formam circuitos no cérebro conhecidos como engramas, os quais materializam o efeito do relacionamento entre a consciência e a realidade vivenciada, seja de forma objetiva, seja apenas subjetivamente.

Dependendo de reações químicas a polariza-los e a facilitar ou a impedir o fluxo elétrico, estes circuitos não parecem ser causadores de si próprios. Tudo indica que há algo antes deles a provocar o processo, isto é, a dar partida às reações químicas e aos circuitos elétricos, os quais revelam a presença da consciência sem traduzir seu conteúdo. O vazio a revelar a incompletude da neurociência parece estar no início de tudo, isto é, no silencio sobre a evocação de certas memórias, ou mesmo como a memória se modificaria ao longo do tempo. Portanto, a ciência desconhece o “mecanismo” que põe o cérebro em movimento em algumas situações específicas, sobre as quais as pesquisas continuam em silencio sobre as respostas.

Talvez incomodadas pelo silêncio da neurociência sobre este “mecanismo”, as teorias sobre a natureza da consciência tentaram interpretar o quê iniciava o pensamento em todas as situações conhecidas. Não sendo possível admitir que o cérebro iniciasse a si mesmo, isto é, que o pensamento derivasse do cérebro e, ao mesmo tempo, fosse causa de si mesmo, como já foi explorado neste texto, estas teorias assumiram a perspectiva de que algo aconteceria fora do cérebro, dando início ao pensamento, produzindo a consciência. Algumas seguiram o viés materialista, situando a causa primeira no organismo e no sociocultural, enquanto outras, sem desconhecer estas possíveis causas materiais, pendularam pelo intangível a situar-se além da base orgânica e social.

No início do século XX, numa perspectiva materialista, Freud afirmou que o pensamento iniciava-se, para solucionar uma falta percebida como demanda orgânica a ser satisfeita. Como exigência de funcionamento para o “aparelho psíquico”, a demanda possuiria uma tensão e um objeto de satisfação, imaginário ou não. Chamou a esta demanda de pulsão. Assim, o sujeito agiria no sentido de satisfazer a pulsão via objeto de satisfação, alguns proibidos pela cultura, como é o caso do incesto. Como o organismo não cessa suas demandas enquanto vivo, a satisfação completa não existiria, frustrando permanentemente o sujeito, embora alimentasse a fantasia de saciedade absoluta produzindo sintomas.

A partir das frustrações das demandas pulsionais, Freud arquitetou sua teoria, diferenciando pulsão de instinto, este próprio dos demais mamíferos, cujos objetos de satisfação seriam pré-definidos pela natureza. Por outro lado, com o humano divorciado da natureza e inserido em diferentes culturas, o objeto da pulsão não seria pré-definido, recebendo seu contorno na medida em que houvesse o desenvolvimento do que chamou de libido, energia ligada a certas partes do corpo e à evolução do relacionamento do sujeito com os demais sujeitos. Na cultura, os objetos possíveis de satisfação seriam variados para a mesma demanda, embora sempre incapazes de satisfazer o sujeito completamente, diante da permanente demanda do organismo.

A angústia estrutural provocada pela falta permanente moveria o sujeito a buscar satisfação em objetos inexistentes, fruto das fantasias incapazes de esgotar seu mal estar. Assim sendo, a compulsão à repetição estaria presente, acrescentando doses de angústia diante dos fracassos decorrentes das ações anacrônicas e virtuais, embora com sentido presente na verdade do sujeito, provocando evidentes repercussões orgânicas a simbolizar tais fracassos.

Skinner, por seu lado, teorizou sobre os diferentes estímulos internos e externos a serem gerenciados pela consciência, aos quais ela reagia dando início ao pensamento. A ação seria premiada, positiva ou negativamente, estabelecendo-se o que chamou de condicionamento via aprendizagem, determinando, assim, o comportamento diante de estímulos futuros percebidos como semelhantes. Como a repetição de contextos é pouco provável, ou inexistente, ocorreriam comportamentos anacrônicos, nos quais o sujeito sofreria com fracassos e premiações negativas.

Curiosamente, o comportamento repetitivo e anacrônico dependeria do condicionamento primeiro, não se modificando, em alguns casos, apesar do sofrimento causado pelo anacronismo e fracassos da ação atual. Tal como Freud, sua teoria tinha bases materialistas evidentes, embora conjecturasse a possibilidade de cessação da angústia, o que para Freud seria impossível, por ser estrutural segundo a teoria das pulsões. A abordagem comportamental não considera a possibilidade da causação do pensamento transcender à matéria orgânica, estando fundada em paradigmas científicos materialistas, que governaram o século XX.

Para Freud a subjetividade se qualificaria como consciente e inconsciente, caracterizando o que aqui está sendo chamado de consciência. Para Skinner, não existiria uma subjetividade inconsciente nos moldes freudianos, apenas algo não lembrado, embora subjacente ao comportamento condicionado. Mesmo Jung, com seu inconsciente coletivo, apegava-se ao filogenético, para teorizar sobre o que pairava por toda humanidade. Ao dar cunho materialista à sua abordagem acerca da consciência, parece ter escapado de contradições com a postura científica da época, embora tenha sido acusado por Freud de estar próximo de algo metafísico.

Há uns 50 anos, no entanto, formou-se um grupo chamado de humanista, o qual considerou que, além da busca pela satisfação pulsional, das respostas condicionadas, ou das determinações do inconsciente coletivo, todos sustentados por teses materialistas, o ser humano seria destinado à autorealização. Com isto, parecia assumir algumas justificativas intangíveis para o despertar do pensamento a dar sentido à consciência, abrindo espaço para a dúvida científica se ela, a consciência, seria, de fato, um epifenômeno do cérebro. Como a autorealização é subjetiva e muito pessoal, este movimento parece ter iniciado um processo de “desmaterialização” das teorias psicológicas anteriores, bordejando numa rota onde as teses materialistas perdiam consistência, embora não fossem descartadas completamente.

Ao se considerar um estágio da consciência, no qual, em algum momento, o mundo material teria pouca influência, ou apenas influência indireta, ficou difícil falar de autorealização circunscrevendo apenas a teoria das pulsões, ou a teoria do comportamento condicionado. Diante desta proposição, Freud diria que ela seria reflexo de fantasia de plena satisfação, tal como, certa vez, criticou o que foi chamado de sentimento oceânico a perceber a união de todas as coisas existentes. Não sendo factível e interpretada como fantasia de completude impossível, a autorealização seria apenas um sintoma a ser superado. Talvez Skinner dissesse que a busca da autorealização seria um comportamento aceitável, se considerado como efeito da superação dos condicionamentos e aprendizagens aprisionadores da criatividade do sujeito.

Como não poderia deixar de acontecer, estando situada além das demandas orgânicas e de suas fantasias de satisfação, ou dos condicionamentos a repetir comportamentos anacrônicos e sem sincronia com a realidade vivenciada, sendo ainda um produto da consciência, a autorealização estaria vagando pelo o reino do quase espiritual, distanciando-se dos discursos materialistas de Freud e de Skinner.

Impulsionada por esta teoria quase espiritual, surge nova teoria fundada na hipótese do início do pensamento situar-se além do organismo e do social, isto é, de estar situada na intangibilidade além das fronteiras do cérebro. Assim, estaria fora das fronteiras materiais, ao mesmo tempo em que estaria operando o cérebro, isto é, atuando no interior das fronteiras materiais. Esta abordagem foi chamada de teoria transpessoal da consciência, inaugurando o discurso não materialista a justificar como se processaria o início do pensamento, nas situações omitidas pela neurociência, e como se descreveria a natureza da consciência situada além das fronteiras materiais.

Abordagem que não seria novidade, na medida em que filósofos do oriente, no interior do budismo ou do hinduísmo, costumam debater o que seja a natureza imaterial da consciência. Tal como ocorre na psicologia ocidental, pendulam entre diferentes teorias, dependendo do pensador e da região onde foi produzido o debate.

Os “universalistas”, curiosamente, afirmam que a consciência individual seria manifestação da consciência cósmica, sendo por ela absorvida após a morte do organismo. Portanto, a consciência não teria existência individual separada da matéria do universo, sendo todos produtos desta consciência cósmica. As experiências ocorridas durante o estado meditativo seriam uma espécie de diálogo entre a consciência cósmica e a individual, num reflexo da relação entre todas as coisas.

Contrariamente, mas sem desmentir a consciência cósmica, outros pensadores afirmam que a consciência é individual e sobrevive à morte do organismo, sem ser absorvida imediatamente pela consciência cósmica. Sua absorção ocorreria depois de um processo de crescimento individual, de desenvolvimento, no qual a compaixão se manifestaria permanentemente no karma, isto é, na ação de cada um. Este crescimento se daria pelas encarnações sucessivas, até que os “maus sentimentos a moverem a ação” fossem superados, ou transformados. Além disso, discutem sobre a natureza da consciência cósmica, deslizando entre os discursos quase materialistas e espiritualistas.

Assim, como diria o teólogo cristão durante o debate, “não somos seres corpóreos com um espírito, mas seres espirituais com um corpo”.

A teoria transpessoal aproxima-se da psicologia budista e de inúmeras passagens dos Vedas hindus, onde a psicologia e a espiritualidade se misturam nas interpretações dos Mestres do oriente. Nestas e na teoria transpessoal, a imaterialidade caracteriza a natureza da consciência, com todas as implicações que isto trás ao que seja memória, sintoma e a transformação do ser.

Na verdade, ao considerar a possibilidade da existência do pensamento e da consciência sem a necessidade da base orgânica, a teoria transpessoal deu uma conotação espiritual à psicologia ocidental. Embora todas as abordagens não passem de hipóteses, de meras teorias sobre a natureza da consciência, este fato levou à intensa reação dos núcleos científicos materialistas, os quais acusam a psicologia transpessoal de cruzar as fronteiras da religião.

Diante do paradoxo da negação da possibilidade da transpessoalidade a partir de um não sabido pela neurociência, os adeptos desta psicologia costumam perguntar se, ao negar outras possibilidades para a natureza da consciência, a posição materialista não seria metafísica, ideológica, quase religiosa. Do ponto de vista científico não metafísico, do mesmo modo que as pulsões e o condicionamento, a consciência transpessoal seria uma hipótese para o início do pensamento, uma hipótese sobre a natureza da consciência, ou mesmo outra interpretação sobre o vazio a pairar sobre o não sabido pela neurociência ocidental.

Todas são apenas teorias a interpretar o vazio de conhecimento, sejam elas sobre a natureza da matéria orgânica, que sustenta a vida, sejam sobre a natureza da consciência e o que determina o início do pensamento. Isoladas, são meras possibilidades, meras escolhas individuais; em conjunto, parecem se aproximar de uma “interpretação realmente possível” para a aparente intangibilidade da consciência.

Alguns pensadores ocidentais, talvez materialistas indecisos, procuram interpretar a posição filosófica oriental sobre a relação entre a consciência individual e a consciência cósmica com ajuda da física quântica, da incerteza, da não localidade, da teoria do campo unificado, além de outras percepções desta ciência quase imaterial, a descrever onda, matéria e energia como faces do mesmo. Neste caso, a consciência e a atividade do cérebro seriam faces da mesma moeda, estando dispersas pelos meandros do tangível e do intangível descritos por esta ciência.

Algumas experiências em Universidades americanas sobre a aparente expansão da consciência durante o estado meditativo, ou estado hipnótico, sugerem que assim pode ser, não obstante seja apenas outra teoria sobre a relação entre a consciência e o cérebro. Tal como as demais, esta teoria desliza sobre as mesmas lacunas existentes na neurociência tradicional, ao interpretar os evidentes fenômenos observados. O seu “calcanhar de Aquiles” parece estar na constatação de resultados objetivos sobre a não localidade do pensamento e a relação com teoria quântica do campo unificado, sem mencionar alguma possibilidade sobre início de tudo, sobre o quê, de fato, inicia o pensamento dando sentido à consciência e, portanto, à subjetividade.

Uma teoria sobre a consciência fundada na física quântica parece sugerir que a consciência sempre esteve onde o universo material está, desde sempre, havendo identidade de natureza entre o tangível e o intangível, entre os circuitos elétricos do cérebro e a consciência, tal como a relação entre o campo elétrico e o campo magnético. Seria afirmar uma eternidade “sem começo”, sem dizer como a consciência percebe a si mesma.

Sem perder de vista que o não sabido sobre a consciência permite a proposição de diferentes hipóteses sobre sua natureza, sendo clara, por exemplo, a perturbação desta consciência provocada pela alteração dos processos químicos a ocorrer no cérebro, é viável dizer que ela dependa, rigorosamente, da base orgânica, para se expressar. Embora verdadeiro, este discurso omite o como se iniciam estes processos químicos, assumindo a trajetória interpretativa já no meio do deslocamento. Além disso, não propõe o modo como, em algumas situações específicas, a consciência altera tais processos químicos, a partir de uma intenção gerada nela própria.

Essas alterações acima mencionadas acontecem nos estados meditativos, ou estados hipnóticos, os quais dependem de uma intenção da consciência, para serem alcançados. Este estado da consciência influi na atividade cerebral, diminuindo-a, bem como no funcionamento do sistema nervoso autônomo, reduzindo o batimento cardíaco e a pressão arterial, acalmando o sistema neuroendócrino, potencializando o sistema imunológico e o combate às enfermidades orgânicas. São situações nas quais colapsa a hipótese de causação química, material, dos processos de pensamento intencional a ocorrer na consciência, que desconhece a si mesma.

Repetindo, a hipótese “materialista” sobre a natureza da consciência exclui a possibilidade de que, em algumas situações, o processo causal, a intenção, esteja além do cérebro, além das reações químicas e dos engramas, isto é, podendo iniciar-se na consciência transpessoal, sendo projetado na base orgânica, não o inverso.

Este é um assunto que merece ser explorado sob outros ângulos, sob outras perspectivas, talvez aumentando as dúvidas de quem ouça e as contradições de quem fala.

 

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

"DIMENSÕES” DO ESPÍRITO E DA ALMA - PUBLICADO NA E&C 93

Sempre que se pensa na possibilidade de existência de outras dimensões a conviver com a nossa realidade, fica a dúvida se o contorno das imagens pressupõe algo material, mesmo que etéreo. Esta possibilidade pode ser visualizada por diferentes ângulos, do material e físico, ao religioso e espiritual.
Como não somos cientista, nem Teólogo, tentaremos seguir a palavra posta por Kardec sobre este assunto, a qual oscila entre interpretações pessoais, perguntas aos Espíritos superiores, suas respostas e tentativas de síntese elaboradas pelo codificador da Doutrina Espírita. Não obstante Kardec seja considerado como codificador da religião Espírita, talvez seja possível deslizar sobre seus textos, descobrindo, aqui e ali, uma sugestão de rumo para se pensar na possibilidade de outras dimensões da realidade, sem falarmos em dogmas religiosos.
De qualquer forma, é preciso se considerar a reencarnação como fundamento de toda obra kardequiana, bem como as razões, os motivos, para que tal ocorra. Neste artigo, consideraremos a reencarnação como um princípio, não como dogma, deslocando, assim, o discurso religioso para uma interpretação própria das ciências humanas. Talvez seja possível se pensar Espiritualidade sem relacioná-la a uma religião específica, mesmo seguindo Kardec e seus escritos.
Deixando o dogma religioso afastado dos argumentos, talvez seja mais atual pensar-se a reencarnação como possibilidade, junto a inúmeras outras a pendular diante do sem explicação, do vazio, do sem nome, diante de Seus desígnios.
Como possibilidade, a reencarnação torna-se uma hipótese ainda não negada, nem cientificamente provada, do mesmo modo que outras possibilidades, outras escolhas para a realidade, segundo os paradigmas das ciências humanas contemporâneas. Afinal, nas ciências da natureza, a partícula física é, ao mesmo tempo, onda não física, manifestando ora uma, ora outra natureza, segundo quem a observa. Não seria mais ser ou não ser, mas ser e não ser ao mesmo tempo, com a “essência da coisa” a depender do contexto, no qual se manifesta.
Com tal viés e considerando-se a obra de Kardec, bem como a hipótese da reencarnação, fica a pergunta a indagar sobre o que se passa entre as reencarnações em corpos materiais; ou mesmo se ela acontece também em dimensões diferentes da nossa realidade; ou se o que reencarna é sempre o mesmo em qualquer dimensão física, da mais densa à mais sutil. Numa tentativa de responder, convido aos que me lêem a dar um passeio sobre algumas obras organizadas por Kardec.
No início de O Livro dos Espíritos, Kardec reúne alguns argumentos que, a partir de negações, do contraditório, procura justificar a possibilidade das comunicações dos Espíritos serem realidade. Assim, analisa a palavra dos contraditores e sugere a veracidade da doutrina que iria divulgar naquele livro. Em dado momento, aborda o argumento que nega a possibilidade espiritual, afirmando que tudo seria um efeito “magnético” (nome dado à hipnose em seu tempo). Assim, os médiuns ficariam num estado como um “sonambulismo acordado” (nome dado ao estado hipnótico, ou de transe, em sua época), trazendo de si mesmo o conteúdo do que foi dito e não a reprodução da fala de um Espírito.
Kardec aponta para o fato de que, quando no “estado sonambúlico” (estado hipnótico), o sujeito demonstra expansão de sua consciência, seja no aspecto intelectual, seja no intuitivo, manifestando uma lucidez inexistente no estado dito normal. Para dizer isto com fundamento, afirma ter estudado o sonambulismo (estado hipnótico) por mais de trinta e cinco anos.
No Livro Segundo de O Livro dos Espíritos, Kardec reúne argumentos dos Espíritos sobre a reencarnação, sua necessidade e sentido, bem como diferencia claramente Alma e Espírito. Nele, qualificou a Alma como Espírito Encarnado e Espírito, propriamente dito, ao qual subdividiu em Errante, ainda necessitado de encarnações, e como Puro, inteiramente livre de possíveis ligações com a matéria inerte, sutil ou orgânica.
Aprofundando a questão, esclarece que a encarnação em corpos cada vez mais intangíveis, ou sutis, dependeria do que chamou de evolução moral do Espírito. De qualquer forma, argumenta que os Espíritos não são entidades materiais, mesmo que sutis, sendo, portanto, de outra ordem.
Na primeira parte de O Livro dos Médiuns, Kardec argumenta que não há céu, nem inferno, lugares circunscritos e reservados aos Espíritos. Se lá não estão, onde estariam afinal? Logo a seguir, mostra que, como entidades não materiais, estariam no espaço infinito, no mundo invisível que nos envolve, sem um lugar definido. Em substituição às penas e recompensas eternas, demonstra que os Espíritos e Almas carregam em seu íntimo a felicidade ou a desgraça segundo ao que chamou de evolução moral.
Não havendo um lugar material e geograficamente definido para a morada dos Espíritos, seria possível dizer-se que, sendo sua natureza de outra ordem, estariam numa dimensão outra diferente da nossa? Talvez... Talvez não, na medida em que Alma e Espírito pertencem à mesma ordem natural, embora existindo em contextos diferentes.
Em cada livro de sua coleção, Kardec reúne argumentos diferentes sobre o mesmo assunto, como que procurando garantir um entendimento sobre a natureza dos Espíritos e das Almas. Assim no O Evangelho Segundo o Espiritismo - capítulo III - Instruções dos Espíritos -, encontramos que, nos mundos com evolução superior a nossa, as condições da vida moral e material são bastante diferentes. Esclarece que o corpo, ou organismo no qual o Espírito encarna, seria muito menos material, menos denso, não estando sujeito às necessidades, às doenças e às deteriorações decorrentes do predomínio da matéria.
Voltando ao Livro dos Espíritos, na questão 23, Espírito é definido como Princípio Inteligente do Universo, aparecendo, em alguns casos, como sinônimos. Nas questões seguintes, percebe-se haver diferença entre Espírito e matéria, além de sugerir a possibilidade de outras dimensões além da material densa, sendo mais sutis do que aquela por nós conhecida, intangíveis, nas quais o Princípio Inteligente pode também encarnar. Portanto, segundo a obra de Kardec e a percepção humana, há, pelo menos, duas dimensões materiais bem definidas, uma tangível, outra intangível.
Como o universo material, seja denso ou sutil, e o Espiritual são de naturezas diferentes, entre os Espíritos e as dimensões materiais acima citadas, há o fluido universal, espécie de matéria etérea, a partir da qual o universo físico foi formado. Deste fluido universal, o Espírito retira o perispírito que o envolve, possibilitando sua atuação sobre a matéria corpórea orgânica mais densa. A natureza do perispírito depende do mundo e da densidade da matéria a ser influenciada (questão 93).
Assim sendo, parece haver duas situações diferentes, isto é, a do Espírito Puro sem qualquer matéria a envolvê-lo e a do Espírito Errante, que se reveste de um perispírito na sua relação com a matéria orgânica mais densa.
Estes são argumentos que sugerem a possibilidade de haver diferentes dimensões materiais além da nossa, todas invisíveis aos nossos olhos?
E se perguntássemos se a encarnação implica na união de duas naturezas diferentes, Espiritual e material, estando além da mera influência de uma sobre a outra? A resposta parece estar na questão 132 de O Livro dos Espíritos e no item 24 e 25 do Evangelho Segundo o Espiritismo, onde o esclarecimento aponta para a necessidade de se criar as condições para evolução moral do Espírito. Quanto mais evoluído moralmente o Espírito, menos denso seria o corpo a ser encarnado, até que, como pura Luz, não mais encarnaria.
Resta, talvez, uma última pergunta: “Como se daria a comunicação inteligente entre habitantes de dimensões diferentes?” A resposta poderia confundir um pouco, na medida em que, se Alma é um Espírito encarnado, sendo, portanto, de mesma natureza, não haveria comunicação entre dimensões, apenas haveria comunicação entre Princípios Inteligentes. Se assim for, o que dizer da dificuldade para as Almas e os Espíritos se comunicar?
Sobre a dificuldade de comunicação, O Livro dos Médiuns esclarece que uma inteligência envolta em matéria densa precisa de certos artifícios, para se comunicar com as inteligências envoltas em matéria menos densa. Nestes termos, para o Princípio Inteligente, só há uma dimensão, a Espiritual, sendo a dimensão material necessária, embora coadjuvante, para o processo de evolução moral deste Princípio.
Complementando esta última pergunta, resta saber se há necessidade desta comunicação entre Almas e Espíritos. Talvez o encarnado deva saber que existem Princípios Inteligentes encarnados em corpos em processo de desmaterialização, além daqueles em pura Luz e sem corpos, que deixaram as dores, os temores e os rancores num passado, preservando os amores incondicionais.
Finalmente, como se sabe que a Alma seria um Espírito encarnado? Voltando ao Livro dos Espíritos, na questão 223, Kardec pergunta se o Espírito reencarna imediatamente após a separação do corpo. A resposta é interessante na medida em que sugere que as encarnações em corpos pouco densos ocorrem quase sempre de imediato, sendo que o Espírito encarnado (Alma) possui quase todos os atributos dos Espíritos. Complementando a resposta, Kardec recebe a informação de que o estado normal do encarnado em corpos menos densos é o mesmo dos sonâmbulos lúcidos. Como se sabe, o sonambulismo, assim nomeado no tempo de Kardec, tem o mesmo sentido do estado hipnótico atualmente.
Será que a resposta dada a Kardec estaria apontando para a possibilidade de, aqui e agora, “simularmos” uma existência em corpos menos densos, ou mesmo conhecer a existência puramente Espiritual? Talvez se possa extrair algum entendimento da questão 455, na qual Kardec resumiu o que chamou de emancipação da Alma durante o sonambulismo (estado hipnótico).
Assim, no estado hipnótico, ou sonambúlico, ocorre a clarividência, faculdade de todos os seres incorpóreos, bem como a visão de toda parte a qual a Alma possa transportar-se, qualquer que seja a distância. A lucidez sonambúlica é limitada pela união entre o Espírito e o corpo, sendo dependente do grau de evolução moral do Princípio Inteligente encarnado.
Mais à frente, na mesma questão 455, Kardec comenta que, no estado hipnótico, ou sonambúlico, o Espírito do hipnotizado, ou do sonâmbulo, entra em comunicação mais fácil com outros Espíritos, encarnados ou não. A transmissão do pensamento, modo de comunicação entre os Espíritos, ocorre pela via do perispírito, que aproxima os dois Princípios Inteligentes, superando a barreira material.
Contudo, no Livro dos Médiuns, item 172, uma diferença importante é estabelecida entre a mediunidade e a emancipação da Alma durante o estado hipnótico, ou sonambúlico. Embora se comuniquem, neste estado, não ocorre literalmente o que foi chamado de mediunidade automática. O que o sonâmbulo diz procede dele mesmo, de suas interpretações, enquanto o médium é passivo, exprimindo o pensamento de outro. É uma fronteira muito tênue a separar a mediunidade da situação na qual a alma emancipada se comunica com Espíritos e outras Almas emancipadas, na medida em que a mediunidade intuitiva, descrita no item 180, aproxima-se da descrição anterior acerca da interpretação do que foi dito pelo outro.
Este seria um dos muitos e importantes aspectos a serem considerados ao se avaliar a dificuldade da comunicação entre nós e alguém em estado hipnótico com Alma emancipada, ou com um médium intuitivo. Presume-se que haverá dúvidas se estão a falar de suas experiências pessoais, ou se, de outro modo, estão a falar do que ouviram de um Espírito. Embora seja um tanto difícil estabelecer tal diferença, Kardec sugere observar o conteúdo do que foi comunicado, na medida em que há Almas e Espíritos pouco evoluídos a nossa volta. Aparenta sugerir que o conteúdo da mensagem é mais importante do que quem a transmitiu.
No item 284 deste mesmo livro, Kardec pergunta se é possível evocar-se, isto é, comunicar-se com uma Alma, Espírito ainda encarnado. Na resposta, observa-se o mesmo argumento, no qual a encarnação em corpos menos densos facilitaria a projeção da Alma emancipada e a possível comunicação com Almas em corpos mais densos. O mesmo podendo ocorrer com a Alma encarnada em corpos densos e emancipada durante o sono, ou durante o estado sonambúlico, ou hipnótico. Neste caso, Alma emancipada e o Espírito, claramente entidades de mesma natureza, manifestar-se-iam do mesmo modo, isto é, através de um médium.
Assim sendo, talvez seja possível se dizer que a existência de duas ou mais dimensões para o Princípio Inteligente seria uma ilusão contida nos discursos materialistas, ou, talvez, Almas iludidas por estarem encarnadas em corpos densos. Como se viu acima e segundo a obra de Kardec, Alma e Espírito são Princípios Inteligentes e, portanto, de mesma natureza, habitando um mesmo universo não material.
Tudo indica que a percepção da existência de outra dimensão além da nossa, justificar-se-ia pela possibilidade do Princípio Inteligente mais evoluído moralmente ligar-se à matéria menos densa, que, por não ser visível, sua projeção, aproximação e comunicação sugiram que habite universos diferentes do nosso.
Concluindo, do ponto de vista do Princípio Inteligente, há apenas um universo, o Espiritual. No entanto, do ponto de vista material, há universos tangíveis e intangíveis, sugerindo haver dimensões diferentes a unir-se, pela encarnação, ao Princípio Inteligente.
Considerando-se a hipótese de que as Almas podem se projetar fora de seus corpos em situações especiais, Princípios Inteligentes encarnados em corpos menos densos, isto é, sendo mais desenvolvidos moralmente e habitando outra dimensão material, podem nos aparecer envoltos em perispírito adaptado ao nosso mundo, a fim de se comunicar. Como se sabe, a comunicação entre Almas e Espíritos ocorre quando os perispíritos destes Princípios Inteligentes entram em contato, possibilitando a transmissão do pensamento.
Em alguns casos, talvez estejam sendo chamados de extraterrestres, o que na verdade são, na falta da linguagem kardequiana sobre a natureza dos Espíritos e das Almas. Esta hipótese não exclui a possibilidade de Princípios Inteligentes, encarnados em corpos tão densos quanto o nosso e habitando outro planeta, de visitar-nos em sua forma corpórea e material. Neste caso, seus corpos seriam tangíveis e visíveis.
Como se sabe, o conhecimento científico e tecnológico, que possibilitaria a viagem interplanetária, não determina, por si só, a possibilidade do Princípio Inteligente encarnar em corpos sutis. O desenvolvimento moral não seria determinado por leis superiores, ou por julgamento e avaliação de entidades superiores, mas pela transformação dos sentimentos a habitar tais Princípios.
O Bem não se moveria pela moralidade da carne, mas pela intensidade do amor e da compaixão a impulsionar as ações dos Princípios Inteligentes. Sendo não materiais, isto é, podendo existir sem corpos, esta seria a trajetória do desenvolvimento moral dos Espíritos até o amor incondicional e a pura Luz.
Tudo indica que, segundo Kardec, de fato há diferentes dimensões materiais, como sugere a Física, a Química, a Matemática e a Filosofia, embora haja apenas um Princípio Inteligente a encarnar em todas as dimensões, criado à imagem e semelhança Dele.
Não há esperança sem fé.
Não há caridade sem compaixão.
Não há felicidade sem amor.



sábado, 13 de agosto de 2011

UMA POSSIBILIDADE


"É preciso que as diferenças deslizem umas sobre as outras, para que as essências se misturem..."
Tacarijú


Como se sabe, os paradigmas orientadores das pesquisas em ciências da natureza diferem daqueles relacionados às ciências humanas. Nas primeiras, as hipóteses a serem pesquisadas direcionam-se para explicações matemáticas e previsões estatísticas, enquanto, nas últimas, abrigam-se em interpretações da realidade observada. Interpretações que deslizam sobre as lacunas da linguagem, desembocando em descrições e fundamentações, muitas vezes, contraditórias, dependendo do discurso do pesquisador.

Tal fato, em dado momento, distanciou alma e matéria, inventando um dualismo preocupante, cindindo a realidade em duas faces antagônicas. A ciência da matéria parecia ser a real, na medida em que o objeto de estudo seria descrito com segurança, enquanto, a da alma, da cultura, tendia para o absurdo acientífico, com observações alicerçadas em diferentes verdades, em diferentes imanências. Na alma, na cultura, nada poderia ser estudado com segurança, na medida em que tais imanências eram tratadas como transcendências a se excluirem mutuamente. Talvez este seja um resumo do que se passou nos séculos XVII, XIX e XX com o pensamento Ocidental.

Contudo, algumas surpresas estariam guardadas para o pensamento materialista a excluir a alma de suas observações, bem como para os pensadores da cultura, que fantasiavam “verdades” em seus discursos, numa tentativa infrutífera de “imitar” as explicações das ciências da natureza. A última metade do século XX presenteou-nos com a confirmação das palavras de alguns filósofos, que “afirmavam não poder afirmar”. Neles, a Filosofia não alcançava os fenômenos naturais, ou culturais, apenas recobrindo-os parcialmente, deixando amplo espaço para interpretações, dependendo dos princípios, dos paradigmas, adotados pelo observador.

Entre nós, no início da década de 90, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) publicou, em sua revista Ciência Hoje, um resumo sobre a Teoria do Caos. Naquela época, o assunto estava começando em importância, em função do avanço tecnológico, em especial de softwares e hardwares, e da possibilidade de se comprovar esta teoria.

De fato, hoje, em 2010, sabe-se que o Caos, tal como foi descrito, inicialmente, há 40 anos, pelo matemático Lorenz, é uma realidade científica. Portanto, existe algo incerto além de toda razão filosófica, que, no passado do século XX, apenas, tateava por sobre o tangível imprevizível. Se a realidade se move sem que, com a limitação de nossas representações, possamos descrever sua trajetória, onde estaria, então, a verdade sobre o futuro?

O pensamento analítico, que nos apresentou a filosofia, a ciência e a tecnologia, fracassou diante do dinamismo do real revelado por elas. Este paradoxo nos levou a pensar de modo um tanto diferente daquele dito científico neste passado recente, isto é, pensar de forma sistêmica, que, algumas vezes, também é chamado de pensamento complexo, não complicado, como discursam os filósofos contemporâneos. Curiosamente, tal pensamento reconhece uma lógica interna, uma ordem, nos sstemas ditos caóticos, embora tal racionalidade seja intransferível entre sistemas caóticos.

Como se sabe, um conjunto de objetos, que se inter-relacionem, é chamado de sistema. Nele, analiticamente falando, a estrutura não seria apenas a distribuição espacial de seus elementos, mas o modo de relação existente entre eles. Portanto, seria uma leitura diferente da analítica, que pretende entender o conjunto a partir do estudo de cada elemento da estrutura, reunindo-os a seguir num todo racional. Esta última, tem uma visão mais estática da realidade, enquanto a primeira a percebe em seu dinamismo, sem desconsiderar a natureza dos elementos do sistema e dele próprio.

O pensamento sistêmico descreve a realidade, na medida em que a percebe e a representa em seu dinamismo, nela reconhecendo sistemas lineares e não-lineares.

Desde sempre, o imprevizível esteve diante dos humanos. Contudo, a ciência e a tecnologia resumiam-se a observar e medir, newtoniamente, os sistemas lineares, nos quais a intensidade do efeito seria proporcional à intesidade da causa pertubadora de seu “descanso”, permitindo à ciência visualizar um futuro previzível, mesmo que probabilístico. Assim sendo, o pensamento analítico poderia ser aplicado em tais sistemas, tal como ocorreu na Astronomia até 1980.

Diferentemente, nos sistemas não-lineares, a intensidade do efeito não é, necessariamente, proporcional à intensidade da causa perturbadora de seu “descanso”. Não havendo proporcionalidade entre a causa e o efeito, a trajetória do conjunto torna-se mais e mais imprevizível, na medida em que se afasta do ponto de origem da perturbação em seu “descanso”. Em outras palavras, o grau de previzibilidade da trajetória do sistema vai diminuindo, na medida em que o conjunto “viaja” no tempo

O que se pretende dizer é que a Teoria do Caos estuda o comportamento aleatório e imprevisível dos sistemas dinâmicos não lineares, sendo útil para evidenciar realidades, nas quais ocorrem irregularidades na aparente uniformidade da natureza. Repetindo, são irregularidades representadas por pequenas alterações introduzidas num sistema, as quais, aparentemente, não se relacionam com a dimensão do evento futuro. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_do_Caos)

Este fato desmonta toda previsão relacionada ao universo físico, material, que iludiu e encantou o pensamento analítico clássico e cartesiano.

Tal como sinalizado acima, até a década de 1980, os físicos defendiam a tese de que o universo era governado por leis precisas e estáticas e, portanto, os eventos nele ocorridos poderiam ser previstos. Porém, a Teoria do Caos mostrou que, certos eventos universais, podem ter ocorrido de modo aleatório, isto é, sem relação com os demais eventos observados. Do mesmo modo, quando se estuda a Teoria do Caos, os pesquisadores se deparam com o imprevisível em todos os momentos e em todas as partes do desenvolvimento teórico.

A visão determinista direcionada ao Universo, tal como se fazia antes de 1980, perdeu-se no Infinito de Sua sabedoria. Nós, humanos, não alcançamos o Infinito, apenas existimos entre o provável e o desconhecido. Não alcançamos o Mistério de Seus desígnios...

Um exemplo interessante de sistema caótico são as previsões meteorológicas, em especial a formação de tempestades, onde qualquer pequena alteração, direção, velocidade dos ventos, por exemplo, pode provocar grandes mudanças, na medida em que o tempo avança. O matemático Lorenz chamou este fato de Efeito Borboleta, isto é, se uma borboleta batesse asas na Ásia, poderia provocar uma tormenta na América Central em algumas semanas. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_do_Caos)

Esta representação da realidade demonstra a impossibilidade de uma previsão meteorológica perfeita. Neste caso, o determinismo dos sitemas lineares passa a não funcionar, pois, para se ter uma previsão meteorológica precisa, os dados a serem considerados, além de serem infinitos, deveriam possuir precisão infinita, sendo processados em máquinas com memória e capacidade de processamento infinitos. Como o Infinito não nos pertence...

Tal fato sugere a existência de certas singularidades entre os sistemas, cuja lógica interna não pode ser transferida para os demais aparentemente semelhantes, isto é, o modo como os seus elementos se relacionam é único e intransferível, existindo apenas em dado momento e lugar.

Avançando um pouco mais, poder-se-ia dizer que o universo físico é cheio de surpresas a destronar, seguidamente, a ilusão do previsível. Até o momento, os princípios que regem a Física Clássica, a Relatividade Geral e a Física Quântica, não podem ser transferidos de uma para outra. São, portanto, várias e diferentes Físicas, diferentes representações a descrever o real, embora, cada uma, possua lógica interna permitindo que a razão possa falar sobre seus paradigmas. Os fenômenos físicos são claros, existindo ao mesmo tempo em todos os lugares, convivendo na natureza em aparente harmonia, mas, mesmo assim, segundo princípios diferentes.

No universo da alma, da cultura, parece que a ilusão gosta de reduzir diferentes realidades a apenas um aspecto da verdade, eliminando as interpretações que a contradizem. Observa-se este fato, seja na Filosofia, seja na Antropologia, seja na Psicologia, seja onde houver o pensamento a interpretar realidades, a construir teorias.

Freud talvez seja um bom exemplo de contradição interna a existir em sua obra. Depois de se ler os seus 23 volumes, de se folhear seus comentadores, de se seguir as reflexões que o próprio Freud fez de sua construção teórico-clínica, fica-se diante de, pelo menos, três Freud diferentes na lógica de suas interpretações sobre as questões da alma, da mente humana.

Claramente, a racionalidade de cada Freud não pode ser transferida para os outros dois, se o foco da observação for direcionado para a relação entre os elementos a organizar a estrutura da teoria. Elementos que recebem o mesmo nome ao longo da obra, tal como, pulsão, angústia e recalque, cuja relação é alterada em cada teoria, bem como a descrição do que seja inconsciente, que desliza entre substantivo e adjetivo no seu significado.

Feud alterou diversas vezes o arranjo entre os conceitos de sua teoria. Em ocasiões diferentes, ora afirmou que o pensamento superaria a emoção, no caso a angústia, ora dependeria da intensidade desta. Em dado momento, refez a interpretação de seus casos clínicos, adaptando-os à sua mais recente "possibilidade". Dizer que Freud disse algo, seria preciso, antes, localizar a que princípios teóricos o dado Freud estaria fundamentado, seria preciso contextualizar a palavra freudiana no interior da possibilidade por ele escolhida. 

Na verdade, o fenômeno da neurose sempre esteve diante de Freud do mesmo modo em seus sintomas. O que mudou foi o arranjo teórico, isto é, mudando os princípios, a lógica de cada arranjo tornou-se diferente. Ao interpretar o que via em seus pacientes, alterou o significado de inconsciente, pulsão, recalque e angústia, na medida em que percebia relações diferentes entre estes significantes. Além disso, noção de cura é diferente em cada Freud, cujo conceito escorrega entre a possibilidade e a impossibilidade.

Portanto, na tentativa de interpretar a realidade psíquica do sujeito, a teoria freudiana percorreu um caminho interessante, transitando pelo pensamento analítico e na previsibilidade dos sistemas lineares e, finalmente, aportando no pensamento estrutural e na incerteza dos sistemas não lineares. São modos bastante diferentes de se pensar o real, de simbolizá-lo, de teorizá-lo.

Se acrescentarmos outros psicoterapeutas, como Jung, Adler, Reich, Maslow, Rogers, Skinner, Moreno, além de outros gênios, estaremos diante de diferentes faces da mesma neurose, na medida em que, cada um deles, enfatizou um aspecto diferente, ou a interpretou de modo diferente, resultando em processos de tratamento diferentes. De qualquer forma, todos afirmam que a relação terapêutica, isto é, o que se passa entre o paciente e o psicoterapeuta, é o fundamento principal de suas técnicas.

É provável que a relação terapêutica seja o fundamento de todo e qualquer tratamento psicoterápico, independentemente das técnicas adotadas. Se assim for, as técnicas descritas por tais gênios são muito pessoais, dificultando a transmissão do conhecimento e da experiência.

A afirmação de que uma técnica psicoterápica é mais efetiva do que outra faz parte do universo do pensamento linear reducionista, que exclui o contraditório, o diferente, na medida em que, reduzindo as possibilidades de percepção da realidade, generaliza o que vê. Como o nome diz, a relação terapêutica parece ser, estruturalmente falando, o centro de gravidade de todo e qualquer tratamento psicoterápico, não a técnica propriamente dita.

Se existem muitas relações com a verdade, ou interpretações do real, uma para cada sujeito; se cada “olhar” altera a experiência, tal como na física quântica, na qual a existência de onda, ou de partícula, depende do olhar do observador; se não alcançamos a Sua lógica; talvez seja prudente não se afirmar possuir a resposta final.

No universo não linear, são inúmeras singularidades que se inter-relacionam. Se não podemos entender cada elemento do sistema e cartesianamente deduzir o todo; se o olhar precisa deslocar-se para as interações entre estes elementos, para as interações entre o observador e o observado, que se alternam e se modificam a cada instante; se, ao se considerar tais relações, o todo é, ao mesmo tempo, maior e menor que a soma de suas partes; se isto acontece no universo físico e no da cultura, paraíso da linguagem e da fantasia; o que dizer do real, da realidade percebida, das teorias sobre o que está diante de nós?

Kandel, neuro-cientista de renome premiado com o Nobel, comenta que se sabe quase tudo sobre a memória, exceto como ocorre o processo de sua evocação. Para ele, a consciência ainda não pode ser teorizada pela ciência, na medida em que seus processos ainda não estão claros. Sugere que, com o tempo, as resposta ocorrerão certamente. No entanto, esta última afirmação pode estar imersa no seu desejo de cientista, na sua crença no poder da ciência, no ancorar-se no imaginário poder da razão, que tudo explica. Freud também sugeriu tal possibilidade ao tropeçar em momentos de recaída platônico-cartesiana.

Assim, diante de tal incerteza, a Psicologia não pode afirmar o que sabe sobre a mente humana, apenas podendo teorizá-la e se arriscar a sugerir alguns caminhos para o tratamento psicoterápico.

No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) associa-se à tese de Kandel, eliminando toda e qualquer possibilidade de se atribuir uma condição de intangibilidade à mente. Assim sendo, todas as teorias aceitas pela ciência psicológica brasileira afirmam que a mente depende do cérebro, isto é, a mente não existiria sem tal base orgânica. O curioso é que a neuro-ciência ainda não tem resposta para o que seja a consciência, portanto, nada sabe sobre a mente além do que vê em seus laboratórios. Tudo indica que esta percepção materialista sobre a mente tende a se modificar, a se libertar das amarras racionalistas, que se ancoram em um “talvez”, que elimina os demais “talvez”.

Em 2000, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) reconheceu a Hipnose como ferramenta possível para o processo psicoterápico. Como se sabe, a Hipnose transita por universos situados além da razão, nos quais o sujeito submetido a este processo supera esquecimentos, dores crônicas, medos irracionais, além de controlar, objetivamente, o funcionamento do organismo, como a temperatura do corpo, o batimento cardíaco e a atividade cerebral. Diante disso, cabe a pergunta linear acerca do que vem primeiro, se o corpo, ou se a mente.

A American Psycological Association (APA) superou esse impasse ao admitir a intangibilidade da mente, em sua Seção 30, que trata da Hipnose e de sua prática clínica. Lá, descobre-se que este processo pode ser interpretado por diferentes Teorias Psicológicas, inclusive pela Psicologia Transpessoal, que admite a anterioridade da mente em relação ao cérebro, isto é, admite que a mente sobreviva à morte física e se encarne, a seguir, em outro corpo físico.

Assim, as angústias, culpas, medos e traumas do paciente poderiam ter origem em outras vidas além da atual. Este não seria um fato religioso, na medida em que não se pretende justificar tal fenômeno, mas considerá-lo no processo de tratamento psicoterápico como mais um “talvez”.

Diante da impossibilidade da ciência materialista explicar a consciência, explicar como se evoca a memória, além de curiosidades, como explicar o controle da mente sobre o sistema nervoso autônomo, a “muralha racionalista” parece ceder e duvidar ao admitir a Hipnose como fato científico ainda não explicado.

A Universidade Stanford (USA) estudou a Hipnose entre 1959 e 1979, aplicando os conceitos de ciência ao pesquisá-la, não chegando, como seria de se esperar, a qualquer conclusão objetiva. Apenas sistematizou alguns aspectos sobre a sensibilidade natural das pessoas ao serem submetidas ao processo, deixando larga passagem para inúmeros “talvez”.

Aplicando-se a Hipnose no processo psicoterápico, percebe-se que a memória parece não ser linear, isto é, o que lembramos não seria, de fato, o que aconteceu, embora esteja relacionado com o sofrimento presente. O processo de rememoração funcionaria como se diferentes episódios se condensassem numa mesma imagem, todas regidas pelo mesmo sentimento (intangível), pela mesma sensação (tangível) e mesma representação simbólica existentes no presente da mente.

Ao se lembrar, a expectativa de futuro e as experiências presentes do paciente transformam o seu passado, isto é, o significado deste passado, mesmo que lembrado em imagens condensadas. Assim, a mente ressignifica o passado, altera o presente e abre as possibilidades sobre o futuro, num vai-e-vem interminável.

Ocorre que, durante o processo psicoterápico com Hipnose, alguns pacientes lembram-se de cenas típicas de séculos passados, sentindo como se lá estivessem. Aquela poderia ser uma imagem condensada de vários acontecimentos semelhantes, em várias vidas, nos quais o mesmo sentimento predominava. A Psicologia Transpessoal escolheu esta interpretação possível, não descartando a possibilidade de um leque de opções interpretativas, dentre as quais estariam a lembrança de vidas passadas condensadas ou não, fantasias e sonhos condensados ou não, mentiras intencionais, etc. De qualquer forma, cada interpretação estaria regida por princípios e lógicas diferentes a tratar o mesmo fenômeno clínico observado, isto é, alguém se lembrando de outras vidas.

Assim, quando se afirma que não há reencarnação é preciso dizer que princípios fundamentam tal afirmação. Do mesmo modo, o inverso precisa ser tratado, isto é, que haveria reencarnação. São planos de imanência diferentes, humanos, não havendo Transcendência que resolva a contradição.

Do ponto de vista da psicoterapia, a lembrança funciona do mesmo modo, isto é, descreve uma possível origem para os males presentes, atribuindo-lhes um sentido, uma explicação. Ao elaborar tal lembrança e ressignificar a explicação para o presente, a cadeia associativa se altera e muda este presente, abrindo diferentes possibilidades para o futuro. Portanto, não se trata de crença religiosa a assolar a alma do psicoterapeuta, mas do reconhecimento de que diferentes pacientes acreditam na reencarnação, mesmo que não haja fundo religioso nesta interpretação da natureza da mente.
Finalmente, afirmar a impossibilidade da Mente existir além do cérebro seria aprisionar-se no materialismo do século XIX, que desconhecia a possibilidade de algo ser e não ser ao mesmo tempo, tal como ocorre com a partícula, que ora parece onda, ora parece matéria. Portanto, tal como o fenômeno observado na Física Quântica, ser a Mente um subproduto do cérebro, ou ser algo além, que o controla, depende de quem "observa", isto é, ora pode ser um, ora pode ser outro.
Como já foi largamente debatido, não se pode eliminar uma das faces da mesma moeda, sob pena de mergulharmos no preconceito e na exclusão do diferente. Melhor seria aceitar que a possibilidade depende da escolha do observador, que lhe dá brilho, cor, calor e sabor.
Se um avião voa, ou se uma ponte não cai, não é que tenhamos "escolhido" esta possibilidade, foram os cálculos de engenharia, que possibilitaram o fenômeno. Mas, se um paciente sofre, não há cálculo matemático que explique o fenômeno. É preciso "escolher" uma possibilidade e "descobrir" a causa, talvez escondida em outras possibilidades. São as incertezas das Ciências Humanas.
Penso ser mais inteligente cuidar da ética e deixar a "estética" do tratamento seguir a possibilidade percebida pelo psicoterapeuta e pelo paciente.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

KARDEC E A HIPNOSE

O objetivo deste texto não se relacioa diretamente com a Religião Espírita. Contudo, sugere que o codificador desta religião teria praticado a hipnose por vários anos, o que poderia ter aberto seu caminho para seus trabalhos posteriores.
Até hoje, dezenas de perguntas não respondidas balizam a pesquiza em hipnose e psicoterapia, sempre pendulando se a mente governa o cérebro, ou é um de seus sub-produtos. Como ainda não se pode conceituar a consciência do ponto de vista científico, na medida em que se sabe que o sujeito está pensando, mas, não se sabe no quê está pensando, talvez seja possível incluir os estudos deste pensador neste universo ainda desconhecido.

 Como se sabe, o Capítulo VIII do Livro II do Livro dos Espíritos trata da emancipação da alma. Na verdade, o que é discutido neste capítulo são as diferentes situações, onde ocorrem variações na intensidade e nos limites desta emancipação. Nele, entre as questões 400 e 454, Kardec faz diversas perguntas, em cujas respostas são delineadas tais situações pelo Espírito de Luz, explorando a emancipação da alma durante o sono, durante o sonambulismo (estado de transe), durante o êxtase (transe profundo), na transmissão do pensamento e na dupla vista. São questões que estabelecem um contorno sobre o que se passa na alma durante sua emancipação do corpo físico.
No fim do capítulo, na questão 455, o Codificador da Doutrina faz um Resumo Teórico do Sonambulismo e da Dupla Vista, sintetizando os assuntos tratados nas questões anteriores, sugerindo, ainda, a necessidade do reconhecimento do sonambulismo (estado de transe) pelos doutos das Universidades. Em dado momento, Kardec afirma que “para o Espiritismo, o sonambulismo é mais do que um fenômeno fisiológico, é uma luz projetada sobre a Psicologia. É nele que se pode estudar a alma, porque é nele que ela se mostra a descoberto”. O que mais a Psicologia poderia esperar, para ajudar os pacientes que sofrem por qualquer motivo subjetivo que seja?
Durante o texto, Kardec destaca as aproximações e diferenças existentes entre um Espírito e a Alma Emancipada, facilitando o que poderia aqui chamar-se de Psicologia da Alma. É possível que, em alguns casos, prática semelhante possa ser direcionada a um Espírito, tantos são os pontos de contato entre os Encarnados Emancipados e os Desencarnados apontados pelo Codificador da Doutrina.
Este capítulo poderia passar despercebido no contexto do Livro dos Espíritos não fosse pela afirmação do próprio Kardec, que revelou ter estudado o sonambulismo (estado de transe) por mais de 35 anos, sugerindo vasta experiência nesta prática. A revelação consta da parte XVI da Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita escrita pelo próprio Codificador e existente no início do Livro dos Espíritos. Ali, ao comentar sobre certas críticas à Doutrina, nas quais se afirmava serem as comunicações espirituais oriundas do próprio médium, disse que “não seremos nós quem contestará o poder do sonambulismo, cujos prodígios presenciamos, estudando-lhe todas as facetas, durante mais de trinta e cinco anos”. Do mesmo modo que na questão 455 já referida, Kardec sinaliza nesta Introdução as características do fenômeno anímico e do fenômeno espírita.
Esse fato sugere que Kardec teria real interesse pelo hipnotismo. Ao afirmar que esta prática iria beneficiar a Psicologia, isto é, a Psicologia dos Espíritos Encarnados segundo a Doutrina, expande as possibilidades do Espiritismo como ciência. Curiosamente, a satisfação de seu desejo de que sonambulismo decorrente do magnetismo (como era chamada a hipnose) fosse reconhecido pela ciência ocorreu em 1998 e 2000, na virada do terceiro milênio, quando a American Psycological Association (APA) e o Conselho Federal de Psicologia (CFP) reconheceram respectivamente a hipnose como instrumento psicoterápico. São quase 150 anos entre aquele abril de 1857 e o reconhecimento da hipnose (magnetismo) pela Ciência Médica e pela Psicologia.
Pode ser que estejamos diante de um possível reconhecimento da hipótese da reencarnação, a ser estudada e debatida pelos doutos a partir dos fatos a ocorrerem durante a psicoterapia com o paciente em transe, repetindo, assim, o que Kardec observou no século XIX sobre o sonambulismo e a emancipação da alma.
Finalmente, é preciso enfatizar que, nos últimos 50 anos, no meio Espírita, tem-se discutido a validade psicoterápica das recordações de vidas passadas, chegando-se a dizer que o Livro dos Espíritos não recomenda esta prática. No entanto, Kardec demonstra que a recordação de vidas passadas pode ocorrer durante o sonambulismo, transe em hipnose, sugerindo que a Psicologia poderia se valer deste e de outros fatos relacionados à emancipação da alma.
É possível que haja um resgate da antevisão de Kardec sobre as possibilidades do estado de transe, ou consciência ampliada, como colocou na sua Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita. Lá, o Codificador assim se referiu ao sonambulismo: “Neste estado, as faculdades intelectuais adquirem um desenvolvimento anormal, os círculos da percepção intuitiva se ampliam além dos limites de nossa percepção ordinária.”
Uma leitura apressada sobre o sentido da emancipação da alma pode sugerir que Kardec estaria falando de mediunidade. Não poderia ser assim, na medida em que o Codificador era imensamente cuidadoso em separar o anímico e o Espírita, dando contornos claros ao que seja mediunidade.
Sabendo-se que a alma emancipada penetra o universo dos desencarnados, contatos entre esta alma e os Espíritos são inevitáveis. Contudo, não parece ser ainda mediunidade, tal como é definido no Livro dos Médiuns em seu capítulo XIX. Ao final deste, há uma soberba Dissertação de um Espírito sobre o papel dos médiuns, cujo texto, ao sintetizar as sutilezas da comunicação espiritual, permite ao estudioso de Kardec identificar as peculiaridades da mediunidade e as da emancipação da alma.
Reconhecemos que sempre haverá ponta de dúvida se a comunicação é Espírita, ou anímica. Dúvida que alimenta a pesquisa Espírita em seu prisma científico, não obstante jamais se duvide da realidade da reencarnação, na medida em que ambas as situações a comprovam.
Acreditamos que, a partir da hipótese científica suscitada por este artigo, possamos iniciar discussão profícua sobre uma Psicologia, cuja prática ocorra durante a emancipação da alma, diferenciando-a claramente dos objetivos da mediunidade. Como primeira provocação, diríamos que Kardec sinalizou que, quando a alma está emancipada, recupera alguns atributos próprios dos Espíritos, sendo possível, assim, recordar suas vidas passadas, dentre outras ocorrências importantes num processo psicoterápico.
NÃO HÁ ESPERANÇA SEM FÉ!
Glossário Técnico.
Alma = Espírito encarnado.
Magnetismo = Hipnose
Magnetizador = Hipnólogo
Sonambulismo = Estado de Transe em Hipnose.
Sonambulismo Magnético = Estado de Transe alcançado com ajuda de um Hipnólogo.

Sonambulismo Natural = Estado de Transe alcançado sem ajuda de um Hipnólogo (Auto-hipnose).


TRÊS HISTÓRIAS

História 1

A manhã começava lentamente, como tudo naquele lugar, onde a natureza escolhera o branco para adornar. O monge sentiu o frio penetrando em sua túnica e pensou no exame daquele dia. Comeu algo estranho que lhe aqueceu o corpo e manteve sua alma alerta. Com o sol ainda pela metade no horizonte montanhoso, o monge caminhou devagar pela neve que unia o prédio onde vivia àquele onde seria examinado em seu conhecimento. A cada passo gelado, imaginava de onde o seu conhecimento brotara. Sentia em seu íntimo que o saber que levava consigo era diferente daquele que aprendera com seus examinadores. Um rasgo de temor cruzou seu coração. Contudo, seguiu sua intuição e, frente a frente aos "velhos" examinadores, falou-lhes sobre o novo, o que trazia dentro de si, o conhecimento que "inventara" . Os "velhos" lhe perguntaram, ao final, o que faria quando estivesse ali sentado diante do novo trazido pelo "neófito". O monge ficou sem saber se era uma crítica ao seu "novo", ou se estavam dizendo sobre sua arrogância. Permaneceu em silêncio algum tempo sentindo o incômodo da insegurança. Imaginou-se "velho" e sentado diante do neófito a lhe falar do "novo". Pensou no que seria o "novo" e sentiu surpresa ao descobrir que este era apenas o desenrolar do "velho", que já foi "novo" um dia. Percebeu que o que ali trazia era apenas um momento diante do que se seguiria a ele e o que se deu antes dele. Invadido pela paz de sua insignificância, abriu os olhos e encontrou os "olhares velhos" a esperar sua resposta. De sua boca saiu apenas: "perguntaria o que ele faria se estivesse aqui sentado diante do neófito a falar do novo".

História 2

Há muito tempo, um sacerdote sentou-se diante da grande pirâmide e se perguntou o que faria com seu conhecimento. Diante do silêncio de pedra a erguer-se 100 metros acima dele, fechou os olhos, tentou meditar e cochilou. Em seu sonho, uma ave imensa pousou diante dele e disse-lhe com voz feminina: “O saber lhe foi concedido para construir a obra de Deus”. A grande ave repetia e repetia a mesma frase, enquanto o sacerdote sofria sua ignorância sobre as intenções Divinas. As horas se passaram e chegou a brisa fria que acompanha a noite no deserto. No primeiro sopro gelado, o sacerdote abriu os olhos e deparou-se com a escuridão estrelada do firmamento; à sua frente, a grande pirâmide delineava uma sombra apontando o Infinito acima dele. De repente, arrepiou-se todo e entendeu seu sonho: tudo o que ele fizesse deveria apontar para o Infinito. Levantou-se vagarosamente e respirou felicidade ao saber que não era o tamanho da pirâmide e o conhecimento para erguê-la, que constroem a obra de Deus, mas a intenção dos homens ao fazê-la. Deus estava nele...

História 3

Há muito tempo, um Mestre se perguntava a que círculo pertencia. Sentia-se só, embora convivesse com outros Mestres e alunos. Muitas vezes, não entendia o que os outros Mestres falavam. Um dia, sentado sob a frondosa árvore que o protegia do calor, não da angústia do não saber, experimentou o êxtase que acompanha o desprendimento da alma. Lá, encontrou o Espírito de seu avô a sorrir-lhe o sorriso da compreensão. Diante da saudosa figura, o nosso Mestre perguntou: "Velho avô, a que círculo pertencemos?" O Espírito do avô respondeu calmamente:"A nenhum e a todos." O nosso Mestre não entendeu a contradição e insistiu: "Velho avô, não se pode ser e não ser ao mesmo tempo." Diante da questão colocada pelo nosso Mestre, o seu velho avô sorriu o sorriso da compreensão e disse: "Os círculos não têm nome e não existem em si mesmo." De repente, o nosso Mestre voltou de seu êxtase e assustou-se com a visão de onde estava. Sentiu o calor em sua pele e descobriu o que não sabia: O velho avô pareceu dizer: "Não sei o que os outros sabem; e o que sei não existe em si". O nosso Mestre levantou-se lentamente e caminhou em direção aos outros Mestres, que estavam abrigados em outra árvore. Lá, ouviu alguém dizer o que ele não sabia e respondeu o que sabia e o outro não. Ambos ficaram arrepiados naquele encontro com o não saber. Eles estavam sós, não pertenciam a um círculo isolado, não conheciam as coisas do mundo, embora fossem chamados de Mestres. Assim, o nosso Mestre descobriu que o conhecimento habitava cada alma, cada Espírito, sem estar em todos e estando em todos ao mesmo tempo. Não havia um pertencimento isolado; não havia um todo; não havia um círculo; o um era o todo e o todo era o um ao mesmo tempo. Depois daquele dia, o nosso Mestre não mais se perguntou a que círculo pertencia. Ao pertencer a todos e a nenhum, restava-lhe ouvir o que não sabia e dizer o que sabia, sem nunca alcançar o todo, embora sendo um... Algum tempo depois, perguntaram o nome do nosso Mestre. Ele, tal como seu avô com o sorriso da compreensão, respondeu: "Não tenho nome, não sou ninguém sem você".

KARMA, CÉU E INFERNO

“Não seremos nós quem contestará o poder do sonambulismo, cujos prodígios presenciamos, estudando-lhe todas as facetas, durante mais de trinta e cinco anos.” Kardec, LE, Introdução.
Os Irmãos Espirituais tem insistido que as suas palavras se adéquam ao momento histórico de quem as ouve, enquanto o sentido da comunicação perdura no tempo. Assim, é preciso realizar verdadeira “arqueologia” da linguagem, para desvelar o sentido do que foi dito por eles no passado. O século XIX foi o tempo do iluminismo, do despertar do processo científico, da tecnologia da máquina a vapor, do conceito de verdade a partir da objetividade do real. Naquela época, as ciências humanas tropeçavam nos primeiros passos.
A relação causa e efeito era entendida como próxima do “materialismo” da física newtoniana, na qual a intensidade dos efeitos seriam proporcionais às suas causas, e mais afastada das diferentes “verdades” sobre um efeito com diferentes causas, uma causa com diferentes efeitos, ou efeitos com intensidades inversas às causas, próprios do que nos revelam as ciências contemporâneas. Muitas vezes, esquecemos que as condições, sob as quais ocorre a relação percebida como sendo de causa e efeito, escondem fatores desconhecidos a desmontar eventual olhar linear e determinístico direcionado para esta relação. A lógica do século XIX desmoronou diante das “descobertas do final do século XX”, seja nas ciências da natureza, seja nas humanas.
De qualquer forma, a ciência contemporânea vem provando, a cada experiência, a cada descoberta, que vivemos sob a égide de interpretações, de teorias, não de verdades absolutas. Fatores causais não percebidos, ou não considerados, imprimem aura de desconhecido às respostas da ciência para fenômenos aparentemente simples. Mesmo em relação à Lei da Atração Universal, hoje, sabe-se ser apenas uma teoria, não uma lei universal como nome indica. Isto quer dizer que pouco se sabe sobre a realidade, na medida em que as teorias são constantemente substituídas por interpretações com poderes de explicação.
Partindo-se do entendimento contemporâneo acerca da realidade que nos cerca, seja com apoio da ciência material, ou da natureza, seja com o da ciência da alma, ou humana, podemos dizer que o Livro dos Espíritos é atualíssimo, mesmo tendo sido produzido no século XIX com seu discurso linear e determinístico. Além de conter teorias ainda sobreviventes no século XXI, nele, não existem o sempre e o nunca, o tudo e o nada, o certo e o errado a limitar um suposto saber da ciência.
O que descobre em suas páginas é que as existências incorpóreas dão sentido à realidade, não o inverso, como se poderia supor. Não é a Física Quântica que explica o espiritual, mas o inverso, isto é, as considerações espirituais explicam o que não se responde na física da partícula. O século XXI trará o entendimento de que o fator espiritual, não material, portador de inteligência, possui os atributos suficientes, para iluminar o vazio desconhecido pela ciência materialista.
De qualquer forma, estaremos distantes da Verdade. Sabemos que os Espíritos, mesmo aqueles banhados pela Luz, não participam dos desígnios de Deus. Assim sendo, caso se considere suas comunicações no O Livro dos Espíritos como teorias, isto é, conteúdos a serem postos à prova e eventualmente atualizados, o que lá existe vem resistindo ao tempo. É verdade que as analogias e comparações existentes em suas páginas estão nos limites da compreensão filosófico-científica da época. Contudo, o sentido que expressam está em comunhão com a complexidade filosófico-científica do pensamento contemporâneo.
Ciência e Religião estão quase sempre em lados opostos, embora ambos possam eventualmente ser determinísticos, um a excluir o outro. Kardec, em suas sínteses, e os Irmãos Espirituais, em suas respostas, parecem ter desmontado esta percepção da realidade. Do ponto de vista da Religião, ao se ler este livro doutrinário, descobre-se, por exemplo, que cada Espírito, cada alma, está onde deveria estar, segundo o que sentem, pensam e são. Passado, presente e futuro, diferentes dimensões do mesmo, entrelaçam-se no Corpo Mental das almas e dos Espíritos, emprestando-lhes a face do que chamamos Karma.
Assim, Karma não se relacionaria com castigos, com pagamentos de dívidas com terceiros, mas com a rede de intenções e sentimentos a constituir os Corpos Mentais de cada Espírito, de cada alma. As penas, aparentes castigos, são pela intenção do que se faz, não pela conseqüência do que se fez. Intenção sempre relacionada ao sentimento impulsionador da ação e ao conhecimento relativo que a alma, ou Espírito, possuam no tempo da ação. São estas condições que determinam o Karma, isto é, a intensidade das provas e das penas de cada um, não castigos, ou “penas infernais”. Sendo, portanto, condições relativas para o Karma, não se pode julgar uma ação desconhecendo-se a intenção, o nível de conhecimento e a situação daquele que age, seja alma, seja Espírito. Nada mais atual!
Assim sendo, céu, inferno e purgatório são relativos, isto é, não são determinísticos e iguais para todos segundo os mesmos “pecados”. Kardec nos mostrou em sua Codificação que Deus é justo, jamais punitivo. No entanto, ainda encontramos leitores que a entendem de forma determinística e linear, influenciados que estão por cientistas e filósofos do século XIX, que imaginavam ser a relação causa e efeito determinada, a priori, por leis imutáveis. Estes últimos defendem que o Karma seria uma espécie de condenação, sem direito à “liberdade” até que se pague a “dívida” com sofrimento, a ser vivida durante a encarnação, na qual as faltas cometidas em outras vidas seriam purgadas. Talvez não seja assim...
Do ponto de vista da ciência, desde muito tempo, sabe-se que o sentimento e o pensamento influem no funcionamento do Corpo Físico. Ansiedade, stress, culpa, raiva, parecem estar presentes nas mais variadas doenças do organismo, assim como em atitudes e comportamentos belicosos e agressivos. André Luiz já nos dizia que o Corpo Mental influi no Corpo Espiritual, ou Perispírito, e este, no Corpo Físico. Portanto, em todas as situações, mesmo durante a concepção, o Corpo Mental do Espírito a vivenciar o processo encarnatório estará determinando as condições de funcionamento do Corpo Físico em formação. Assim, sentimentos e intenções são muito mais poderosos como causa de doenças e sofrimentos do que eventuais castigos por “pecados” cometidos em vidas anteriores, ou mesmo mais poderosos do que heranças genéticas a explicar evoluções e deformações do organismo.
A questão kármica vista por esse ângulo sugere a possibilidade de se alterar, durante uma encarnação, o que parecia ser um castigo definitivo por faltas cometidas no passado. Castigo imposto por “alguém” muito poderoso e, talvez, cruel, reproduzindo-se, em pequena escala, o conceito medieval de céu e inferno. Como estamos convencidos sobre a bondade de Deus e sobre o livre arbítrio das almas e Espíritos, podemos dizer que este último, o livre arbítrio, determina o Karma, na medida em que sentimentos e intenções governariam nossas escolhas, o que seremos e faremos. Nada mais atual em termos de ciência humana, seja na Psicologia, seja na Biologia, seja na Medicina, seja no Direito, seja na Filosofia, seja na Religião...
Vejamos o que diz O Livro dos Espíritos sobre este assunto.
Na questão 999, Kardec pergunta se o arrependimento durante a vida seria suficiente para extinguir as faltas. Observem que a pergunta está de acordo com o pensamento do século XIX, no qual as penas estariam relacionadas com as faltas, isto é, com as consequências das ações. O Irmão Espiritual responde que o arrependimento auxilia a melhora do Espírito, mas o passado deve ser expiado. É interessante pensar um pouco no que seria entendido por expiação nesta resposta. Para isso, vejamos a questão 1000, na qual Kardec pergunta se, já nesta vida, podemos resgatar nossas faltas. A resposta vem clara e bastante orientadora, quando o Irmão Espiritual diz que sim, reparando-as, isto é, transformando sentimentos e intenções e agindo de forma reparadora. Esta seria, então, a reparação, não os eventuais sofrimentos do encarnado.
Talvez ainda não esteja muito clara a possibilidade de se transformar o Karma numa encarnação, na medida em que danos físicos, doenças e eventuais sofrimentos decorrentes de relações desastrosas não possam ser recuperados numa única vida, na medida em que seriam consequências de escolhas anteriores regidas por sentimentos e intenções ditas impuras. Contudo, a transformação do Espírito passa pela transformação da alma, sentido de qualquer reencarnação. Ao se transformar, o Corpo Mental influirá na saúde e na paz do encarnado, atenuando-lhe o sofrimento. Além disso, influirá decisivamente na constituição do Corpo Físico da encarnação seguinte e na escolha das provas, base do processo de aperfeiçoamento em direção da Luz.
Se, ainda assim, não estamos convencidos de que o inferno não existe, mesmo aquele reduzido a penas a serem sofridas na encarnação, talvez devamos pesquisar um pouco mais esta obra doutrinária. Mais a frente, na questão 1004, Kardec pergunta sobre o que determina a duração do sofrimento do culpado. O Irmão Espiritual, que se chamou de São Luis, responde:
O tempo necessário ao seu melhoramento. O estado de sofrimento e de felicidade sendo proporcionais ao grau de pureza do Espírito, a duração e a natureza dos seus sofrimentos dependem do tempo que ele precisa para se melhorar. À medida que ele progride e que seus sentimentos se depuram, seus sofrimentos diminuem e se modificam.” São Luis
Embora Kardec tenha perguntado sobre o sofrimento do culpado, o Irmão Espiritual preferiu dizer que as “penas” são proporcionais ao grau de pureza do Espírito, não castigos proporcionais à culpa. Diante disto, nada mais nos resta do que reconhecer que o livre arbítrio governa provas e penas, que são proporcionais aos sentimentos e intenções da alma, ou do Espírito, não condenações ordenadas por “entidade” superior.
Mais uma vez, diante da bondade de Deus, distanciamo-nos de “penas infernais”, ou de “beatitudes celestiais”, decorrentes do julgamento de alguém poderoso e cruel a nos impor a eternidade de seus desejos. Afinal, somos nós os senhores de nosso destino, ou não teríamos livre arbítrio.
Se nossa interpretação estiver próxima das palavras dos Irmãos Espirituais que produziram O Livro dos Espíritos junto com Kardec, o trabalho realizado nos Centros Espíritas direcionado aos Espíritos sofredores, bem como o desenvolvido nos consultórios de psicoterapia direcionado aos encarnados sofredores, ou seja, o trabalho de transformação do Corpo Mental de Espíritos e almas, responde ao que disse São Luis sobre a modificação e purificação de sentimentos e a proporcionalidade das “penas” no aqui e no agora.
Como se sabe, embora a Psicologia Transpessoal seja reconhecida nos Estados Unidos e na Europa como teoria em Psicologia, no Brasil, a reencarnação não é admitida como possibilidade interpretativa de sintomas. Sabe-se, também, que os sintomas relacionados às neuroses, psicoses e perversões são manifestações da linguagem, isto é, quem os manifesta quer dizer alguma coisa com eles. Portanto, possuem sentido. Assim sendo, em psicoterapia, trata-se o sintoma como se fosse algo dito pelo paciente, incapaz, naquele momento, de fazê-lo pela boca. Culpas e medos incompreensíveis estão relacionados a questões inconscientes, isto é, a situações e papéis desempenhados e de alguma forma esquecidos, nos quais sentimentos e intenções estiveram presentes, por exemplo.
Existem diferentes técnicas psicoterápicas baseadas em teóricos importantes, que abordam a questão do inconsciente de modo particular. A Psicologia Transpessoal admite que o inconsciente faça parte do Corpo Mental, existindo e produzindo sintomas na alma e no Espírito, tal como nos mostra André Luis e Joana de Angelis em seus livros. No entanto, mesmo no Espiritismo, é possível se encontrar espíritas a discordar de qualquer processo de recordação de questões inconscientes com esta amplitude, alegando ser indesejável a lembrança de vidas passadas, tal como consta no O Livro dos Espíritos, afirmam eles. Alguns argumentos parecem sustentar a imutabilidade do Karma e a existência de “penas infernais” no processo reencarnatório, hipótese existente em tempos medievais do cristianismo.
Acreditamos que O Livro dos Espíritos não poderia ser lido ao pé da letra, nem se desconsiderando questões aparentemente contraditórias. Cada resposta dos Irmãos Espirituais está condicionada às circunstâncias específicas que envolvem os argumentos utilizados. Observemos, por exemplo, a questão 308, na qual Kardec indaga se os Espíritos recordam-se de todas as encarnações passadas. A resposta foi simples e direta:
“O passado se desenrola diante dele, como as etapas de um caminho que um viajante percorreu. Mas, como já dissemos, ele não se lembra de maneira absoluta, de todos os atos, recordando-os apenas na razão da influência que tenham sobre seu estado presente. Quanto às primeiras existências, as que se podem considerar como a infância do Espírito, perdem-se no vazio e na noite do esquecimento”.
Assim, as recordações são bastante terapêuticas, na medida em que influem no estado presente, justificando-o. Afinal, para quê recordar se o processo não servir para a transformação de sentimentos e intenções? A indagação mais razoável seria se a alma, aprisionada na encarnação, não estaria impedida de recordar seu passado. Talvez possamos voltar um pouco e buscar a questão 223, na qual Kardec pergunta se a alma reencarna imediatamente após a separação do corpo. A resposta continua simples e direta;
“Às vezes, imediatamente, mas, na maioria das vezes depois de intervalos mais ou menos longos. Nos mundos superiores, a reencarnação é quase sempre imediata. A matéria corpórea sendo menos grosseira, o Espírito encarnado goza de quase todas as faculdades do Espírito. Seu estado normal é o dos seus sonâmbulos lúcidos.”
O que ressalta nesta questão é a afirmação de que os sonâmbulos lúcidos gozam de quase todas as faculdades do Espírito, podendo recordar-se daquilo que seja importante ao seu crescimento. De qualquer forma, ainda assim, pode-se afirmar que não estaria clara tal analogia. Vejamos um trecho da questão 455, na qual Kardec elabora um resumo teórico sobre o sonambulismo:
“A causa da clarividência do sonambulismo magnético e do sonambulismo natural são a mesma: um atributo da alma, uma faculdade inerente a todas as partes do ser incorpóreo que existe em nós, e que não tem limites além dos que são assinalados à própria alma. O sonâmbulo vê em toda parte a que sua alma possa transportar-se, qualquer que seja a distância.”
Portanto, no sonambulismo, com sua emancipação, a alma recupera alguns atributos inerentes aos Espíritos. Kardec pergunta na questão 434 se as faculdades que o sonâmbulo desfruta são as mesmas do Espírito após a morte. Como sempre, a resposta é simples e direta:
“Até certo ponto, pois é necessário ter em conta a influência da matéria, a que ele ainda se acha ligado.”
Observemos que sonambulismo é sinônimo de transe em hipnose, e que magnetismo também o é do processo hipnose completo. Observemos, ainda, que a Psicologia Transpessoal e a Terapia Regressiva (TR) se valem do transe hipnótico superficial, sonambulismo na linguagem de Kardec, para ajudar na transformação do Corpo Mental do paciente nos termos acima descritos, na medida em que, neste estado, eventuais recordações, inexistentes no estado dito normal, contribuem para esclarecer o sentido de seu Karma. Diante deste sentido a reverberar nos sofrimentos atuais, o paciente eventualmente descobre um atalho para sua transformação. Eventualidade a depender de sua força interior, daquilo que os Irmãos Espirituais chamaram no O Livro dos Espíritos de merecimento.
Ao nivelar almas e Espíritos, O Livro dos Espíritos sugere que os Irmãos Espirituais são conselheiros das almas e Espíritos ainda em desenvolvimento, não entidades poderosas a nos proteger do mal. O mal é escolha livre de cada um, assim como o poder de evitá-lo em seus sentimentos e intenções. As forças da natureza e os acidentes não são um mal, assim como as obsessões; são apenas acontecimentos, provas a serem superadas pelos encarnados. Até mesmo a intuição de tragédias futuras é parte das escolhas e das provas de cada um.
Assim, entendemos que não há qualquer impedimento para se transformar o próprio Karma, a não ser o livre arbítrio a governar caminhos de felicidade e sofrimento. Isto não significa que os Espíritos perderam sua função na arquitetura do Universo, mas, como os encarnados, exercitam a caridade e a compaixão em suas trajetórias em direção à Luz. Como Irmãos mais experientes, sugerem, apontam caminhos, orientam, ajudam nossa tarefa de curar corpos e mentes, alertam-nos sobre eventuais tropeços. Segui-los, aceitar suas orientações, é escolha de cada um. Almas e Espíritos são o mesmo a existir em dimensões diferentes.
Finalmente, talvez seja possível afirmar que o “inferno” é criação do nosso Corpo Mental, deste princípio inteligente que tenta justificar os sofrimentos do Corpo Físico causados por ele mesmo, sugerindo castigos e “penas infernais” impostos, não consequências de si mesmo. Tudo indica que o tratamento psicoterápico com base na hipnose pode ajudar a transformar o Karma de encarnados sofredores, na medida em que a alma emancipada do Corpo Físico recupera alguns atributos dos Espíritos, dentre os quais está a capacidade de recordar-se do passado, nos limites esclarecidos no O Livro dos Espíritos.
Felizmente, mesmo que aconselhados pelos Irmãos Espirituais, para o bem ou para o mal, estamos sós em nossas escolhas. É o que nos garante a liberdade para amar, vivenciar a compaixão e a caridade e, finalmente, encontrar a felicidade.
Não há esperança sem fé!