Sempre que se pensa na possibilidade de existência de outras dimensões a conviver com a nossa realidade, fica a dúvida se o contorno das imagens pressupõe algo material, mesmo que etéreo. Esta possibilidade pode ser visualizada por diferentes ângulos, do material e físico, ao religioso e espiritual.
Como não somos cientista, nem Teólogo, tentaremos seguir a palavra posta por Kardec sobre este assunto, a qual oscila entre interpretações pessoais, perguntas aos Espíritos superiores, suas respostas e tentativas de síntese elaboradas pelo codificador da Doutrina Espírita. Não obstante Kardec seja considerado como codificador da religião Espírita, talvez seja possível deslizar sobre seus textos, descobrindo, aqui e ali, uma sugestão de rumo para se pensar na possibilidade de outras dimensões da realidade, sem falarmos em dogmas religiosos.
De qualquer forma, é preciso se considerar a reencarnação como fundamento de toda obra kardequiana, bem como as razões, os motivos, para que tal ocorra. Neste artigo, consideraremos a reencarnação como um princípio, não como dogma, deslocando, assim, o discurso religioso para uma interpretação própria das ciências humanas. Talvez seja possível se pensar Espiritualidade sem relacioná-la a uma religião específica, mesmo seguindo Kardec e seus escritos.
Deixando o dogma religioso afastado dos argumentos, talvez seja mais atual pensar-se a reencarnação como possibilidade, junto a inúmeras outras a pendular diante do sem explicação, do vazio, do sem nome, diante de Seus desígnios.
Como possibilidade, a reencarnação torna-se uma hipótese ainda não negada, nem cientificamente provada, do mesmo modo que outras possibilidades, outras escolhas para a realidade, segundo os paradigmas das ciências humanas contemporâneas. Afinal, nas ciências da natureza, a partícula física é, ao mesmo tempo, onda não física, manifestando ora uma, ora outra natureza, segundo quem a observa. Não seria mais ser ou não ser, mas ser e não ser ao mesmo tempo, com a “essência da coisa” a depender do contexto, no qual se manifesta.
Com tal viés e considerando-se a obra de Kardec, bem como a hipótese da reencarnação, fica a pergunta a indagar sobre o que se passa entre as reencarnações em corpos materiais; ou mesmo se ela acontece também em dimensões diferentes da nossa realidade; ou se o que reencarna é sempre o mesmo em qualquer dimensão física, da mais densa à mais sutil. Numa tentativa de responder, convido aos que me lêem a dar um passeio sobre algumas obras organizadas por Kardec.
No início de O Livro dos Espíritos, Kardec reúne alguns argumentos que, a partir de negações, do contraditório, procura justificar a possibilidade das comunicações dos Espíritos serem realidade. Assim, analisa a palavra dos contraditores e sugere a veracidade da doutrina que iria divulgar naquele livro. Em dado momento, aborda o argumento que nega a possibilidade espiritual, afirmando que tudo seria um efeito “magnético” (nome dado à hipnose em seu tempo). Assim, os médiuns ficariam num estado como um “sonambulismo acordado” (nome dado ao estado hipnótico, ou de transe, em sua época), trazendo de si mesmo o conteúdo do que foi dito e não a reprodução da fala de um Espírito.
Kardec aponta para o fato de que, quando no “estado sonambúlico” (estado hipnótico), o sujeito demonstra expansão de sua consciência, seja no aspecto intelectual, seja no intuitivo, manifestando uma lucidez inexistente no estado dito normal. Para dizer isto com fundamento, afirma ter estudado o sonambulismo (estado hipnótico) por mais de trinta e cinco anos.
No Livro Segundo de O Livro dos Espíritos, Kardec reúne argumentos dos Espíritos sobre a reencarnação, sua necessidade e sentido, bem como diferencia claramente Alma e Espírito. Nele, qualificou a Alma como Espírito Encarnado e Espírito, propriamente dito, ao qual subdividiu em Errante, ainda necessitado de encarnações, e como Puro, inteiramente livre de possíveis ligações com a matéria inerte, sutil ou orgânica.
Aprofundando a questão, esclarece que a encarnação em corpos cada vez mais intangíveis, ou sutis, dependeria do que chamou de evolução moral do Espírito. De qualquer forma, argumenta que os Espíritos não são entidades materiais, mesmo que sutis, sendo, portanto, de outra ordem.
Na primeira parte de O Livro dos Médiuns, Kardec argumenta que não há céu, nem inferno, lugares circunscritos e reservados aos Espíritos. Se lá não estão, onde estariam afinal? Logo a seguir, mostra que, como entidades não materiais, estariam no espaço infinito, no mundo invisível que nos envolve, sem um lugar definido. Em substituição às penas e recompensas eternas, demonstra que os Espíritos e Almas carregam em seu íntimo a felicidade ou a desgraça segundo ao que chamou de evolução moral.
Não havendo um lugar material e geograficamente definido para a morada dos Espíritos, seria possível dizer-se que, sendo sua natureza de outra ordem, estariam numa dimensão outra diferente da nossa? Talvez... Talvez não, na medida em que Alma e Espírito pertencem à mesma ordem natural, embora existindo em contextos diferentes.
Em cada livro de sua coleção, Kardec reúne argumentos diferentes sobre o mesmo assunto, como que procurando garantir um entendimento sobre a natureza dos Espíritos e das Almas. Assim no O Evangelho Segundo o Espiritismo - capítulo III - Instruções dos Espíritos -, encontramos que, nos mundos com evolução superior a nossa, as condições da vida moral e material são bastante diferentes. Esclarece que o corpo, ou organismo no qual o Espírito encarna, seria muito menos material, menos denso, não estando sujeito às necessidades, às doenças e às deteriorações decorrentes do predomínio da matéria.
Voltando ao Livro dos Espíritos, na questão 23, Espírito é definido como Princípio Inteligente do Universo, aparecendo, em alguns casos, como sinônimos. Nas questões seguintes, percebe-se haver diferença entre Espírito e matéria, além de sugerir a possibilidade de outras dimensões além da material densa, sendo mais sutis do que aquela por nós conhecida, intangíveis, nas quais o Princípio Inteligente pode também encarnar. Portanto, segundo a obra de Kardec e a percepção humana, há, pelo menos, duas dimensões materiais bem definidas, uma tangível, outra intangível.
Como o universo material, seja denso ou sutil, e o Espiritual são de naturezas diferentes, entre os Espíritos e as dimensões materiais acima citadas, há o fluido universal, espécie de matéria etérea, a partir da qual o universo físico foi formado. Deste fluido universal, o Espírito retira o perispírito que o envolve, possibilitando sua atuação sobre a matéria corpórea orgânica mais densa. A natureza do perispírito depende do mundo e da densidade da matéria a ser influenciada (questão 93).
Assim sendo, parece haver duas situações diferentes, isto é, a do Espírito Puro sem qualquer matéria a envolvê-lo e a do Espírito Errante, que se reveste de um perispírito na sua relação com a matéria orgânica mais densa.
Estes são argumentos que sugerem a possibilidade de haver diferentes dimensões materiais além da nossa, todas invisíveis aos nossos olhos?
E se perguntássemos se a encarnação implica na união de duas naturezas diferentes, Espiritual e material, estando além da mera influência de uma sobre a outra? A resposta parece estar na questão 132 de O Livro dos Espíritos e no item 24 e 25 do Evangelho Segundo o Espiritismo, onde o esclarecimento aponta para a necessidade de se criar as condições para evolução moral do Espírito. Quanto mais evoluído moralmente o Espírito, menos denso seria o corpo a ser encarnado, até que, como pura Luz, não mais encarnaria.
Resta, talvez, uma última pergunta: “Como se daria a comunicação inteligente entre habitantes de dimensões diferentes?” A resposta poderia confundir um pouco, na medida em que, se Alma é um Espírito encarnado, sendo, portanto, de mesma natureza, não haveria comunicação entre dimensões, apenas haveria comunicação entre Princípios Inteligentes. Se assim for, o que dizer da dificuldade para as Almas e os Espíritos se comunicar?
Sobre a dificuldade de comunicação, O Livro dos Médiuns esclarece que uma inteligência envolta em matéria densa precisa de certos artifícios, para se comunicar com as inteligências envoltas em matéria menos densa. Nestes termos, para o Princípio Inteligente, só há uma dimensão, a Espiritual, sendo a dimensão material necessária, embora coadjuvante, para o processo de evolução moral deste Princípio.
Complementando esta última pergunta, resta saber se há necessidade desta comunicação entre Almas e Espíritos. Talvez o encarnado deva saber que existem Princípios Inteligentes encarnados em corpos em processo de desmaterialização, além daqueles em pura Luz e sem corpos, que deixaram as dores, os temores e os rancores num passado, preservando os amores incondicionais.
Finalmente, como se sabe que a Alma seria um Espírito encarnado? Voltando ao Livro dos Espíritos, na questão 223, Kardec pergunta se o Espírito reencarna imediatamente após a separação do corpo. A resposta é interessante na medida em que sugere que as encarnações em corpos pouco densos ocorrem quase sempre de imediato, sendo que o Espírito encarnado (Alma) possui quase todos os atributos dos Espíritos. Complementando a resposta, Kardec recebe a informação de que o estado normal do encarnado em corpos menos densos é o mesmo dos sonâmbulos lúcidos. Como se sabe, o sonambulismo, assim nomeado no tempo de Kardec, tem o mesmo sentido do estado hipnótico atualmente.
Será que a resposta dada a Kardec estaria apontando para a possibilidade de, aqui e agora, “simularmos” uma existência em corpos menos densos, ou mesmo conhecer a existência puramente Espiritual? Talvez se possa extrair algum entendimento da questão 455, na qual Kardec resumiu o que chamou de emancipação da Alma durante o sonambulismo (estado hipnótico).
Assim, no estado hipnótico, ou sonambúlico, ocorre a clarividência, faculdade de todos os seres incorpóreos, bem como a visão de toda parte a qual a Alma possa transportar-se, qualquer que seja a distância. A lucidez sonambúlica é limitada pela união entre o Espírito e o corpo, sendo dependente do grau de evolução moral do Princípio Inteligente encarnado.
Mais à frente, na mesma questão 455, Kardec comenta que, no estado hipnótico, ou sonambúlico, o Espírito do hipnotizado, ou do sonâmbulo, entra em comunicação mais fácil com outros Espíritos, encarnados ou não. A transmissão do pensamento, modo de comunicação entre os Espíritos, ocorre pela via do perispírito, que aproxima os dois Princípios Inteligentes, superando a barreira material.
Contudo, no Livro dos Médiuns, item 172, uma diferença importante é estabelecida entre a mediunidade e a emancipação da Alma durante o estado hipnótico, ou sonambúlico. Embora se comuniquem, neste estado, não ocorre literalmente o que foi chamado de mediunidade automática. O que o sonâmbulo diz procede dele mesmo, de suas interpretações, enquanto o médium é passivo, exprimindo o pensamento de outro. É uma fronteira muito tênue a separar a mediunidade da situação na qual a alma emancipada se comunica com Espíritos e outras Almas emancipadas, na medida em que a mediunidade intuitiva, descrita no item 180, aproxima-se da descrição anterior acerca da interpretação do que foi dito pelo outro.
Este seria um dos muitos e importantes aspectos a serem considerados ao se avaliar a dificuldade da comunicação entre nós e alguém em estado hipnótico com Alma emancipada, ou com um médium intuitivo. Presume-se que haverá dúvidas se estão a falar de suas experiências pessoais, ou se, de outro modo, estão a falar do que ouviram de um Espírito. Embora seja um tanto difícil estabelecer tal diferença, Kardec sugere observar o conteúdo do que foi comunicado, na medida em que há Almas e Espíritos pouco evoluídos a nossa volta. Aparenta sugerir que o conteúdo da mensagem é mais importante do que quem a transmitiu.
No item 284 deste mesmo livro, Kardec pergunta se é possível evocar-se, isto é, comunicar-se com uma Alma, Espírito ainda encarnado. Na resposta, observa-se o mesmo argumento, no qual a encarnação em corpos menos densos facilitaria a projeção da Alma emancipada e a possível comunicação com Almas em corpos mais densos. O mesmo podendo ocorrer com a Alma encarnada em corpos densos e emancipada durante o sono, ou durante o estado sonambúlico, ou hipnótico. Neste caso, Alma emancipada e o Espírito, claramente entidades de mesma natureza, manifestar-se-iam do mesmo modo, isto é, através de um médium.
Assim sendo, talvez seja possível se dizer que a existência de duas ou mais dimensões para o Princípio Inteligente seria uma ilusão contida nos discursos materialistas, ou, talvez, Almas iludidas por estarem encarnadas em corpos densos. Como se viu acima e segundo a obra de Kardec, Alma e Espírito são Princípios Inteligentes e, portanto, de mesma natureza, habitando um mesmo universo não material.
Tudo indica que a percepção da existência de outra dimensão além da nossa, justificar-se-ia pela possibilidade do Princípio Inteligente mais evoluído moralmente ligar-se à matéria menos densa, que, por não ser visível, sua projeção, aproximação e comunicação sugiram que habite universos diferentes do nosso.
Concluindo, do ponto de vista do Princípio Inteligente, há apenas um universo, o Espiritual. No entanto, do ponto de vista material, há universos tangíveis e intangíveis, sugerindo haver dimensões diferentes a unir-se, pela encarnação, ao Princípio Inteligente.
Considerando-se a hipótese de que as Almas podem se projetar fora de seus corpos em situações especiais, Princípios Inteligentes encarnados em corpos menos densos, isto é, sendo mais desenvolvidos moralmente e habitando outra dimensão material, podem nos aparecer envoltos em perispírito adaptado ao nosso mundo, a fim de se comunicar. Como se sabe, a comunicação entre Almas e Espíritos ocorre quando os perispíritos destes Princípios Inteligentes entram em contato, possibilitando a transmissão do pensamento.
Em alguns casos, talvez estejam sendo chamados de extraterrestres, o que na verdade são, na falta da linguagem kardequiana sobre a natureza dos Espíritos e das Almas. Esta hipótese não exclui a possibilidade de Princípios Inteligentes, encarnados em corpos tão densos quanto o nosso e habitando outro planeta, de visitar-nos em sua forma corpórea e material. Neste caso, seus corpos seriam tangíveis e visíveis.
Como se sabe, o conhecimento científico e tecnológico, que possibilitaria a viagem interplanetária, não determina, por si só, a possibilidade do Princípio Inteligente encarnar em corpos sutis. O desenvolvimento moral não seria determinado por leis superiores, ou por julgamento e avaliação de entidades superiores, mas pela transformação dos sentimentos a habitar tais Princípios.
O Bem não se moveria pela moralidade da carne, mas pela intensidade do amor e da compaixão a impulsionar as ações dos Princípios Inteligentes. Sendo não materiais, isto é, podendo existir sem corpos, esta seria a trajetória do desenvolvimento moral dos Espíritos até o amor incondicional e a pura Luz.
Tudo indica que, segundo Kardec, de fato há diferentes dimensões materiais, como sugere a Física, a Química, a Matemática e a Filosofia, embora haja apenas um Princípio Inteligente a encarnar em todas as dimensões, criado à imagem e semelhança Dele.
Não há esperança sem fé.
Não há caridade sem compaixão.
Não há felicidade sem amor.
Nenhum comentário:
Postar um comentário