A manhã começava lentamente, como tudo naquele lugar, onde a natureza escolhera o branco para adornar. O monge sentiu o frio penetrando em sua túnica e pensou no exame daquele dia. Comeu algo estranho que lhe aqueceu o corpo e manteve sua alma alerta. Com o sol ainda pela metade no horizonte montanhoso, o monge caminhou devagar pela neve que unia o prédio onde vivia àquele onde seria examinado em seu conhecimento. A cada passo gelado, imaginava de onde o seu conhecimento brotara. Sentia em seu íntimo que o saber que levava consigo era diferente daquele que aprendera com seus examinadores. Um rasgo de temor cruzou seu coração. Contudo, seguiu sua intuição e, frente a frente aos "velhos" examinadores, falou-lhes sobre o novo, o que trazia dentro de si, o conhecimento que "inventara" . Os "velhos" lhe perguntaram, ao final, o que faria quando estivesse ali sentado diante do novo trazido pelo "neófito". O monge ficou sem saber se era uma crítica ao seu "novo", ou se estavam dizendo sobre sua arrogância. Permaneceu em silêncio algum tempo sentindo o incômodo da insegurança. Imaginou-se "velho" e sentado diante do neófito a lhe falar do "novo". Pensou no que seria o "novo" e sentiu surpresa ao descobrir que este era apenas o desenrolar do "velho", que já foi "novo" um dia. Percebeu que o que ali trazia era apenas um momento diante do que se seguiria a ele e o que se deu antes dele. Invadido pela paz de sua insignificância, abriu os olhos e encontrou os "olhares velhos" a esperar sua resposta. De sua boca saiu apenas: "perguntaria o que ele faria se estivesse aqui sentado diante do neófito a falar do novo".
História 2
Há muito tempo, um sacerdote sentou-se diante da grande pirâmide e se perguntou o que faria com seu conhecimento. Diante do silêncio de pedra a erguer-se 100 metros acima dele, fechou os olhos, tentou meditar e cochilou. Em seu sonho, uma ave imensa pousou diante dele e disse-lhe com voz feminina: “O saber lhe foi concedido para construir a obra de Deus”. A grande ave repetia e repetia a mesma frase, enquanto o sacerdote sofria sua ignorância sobre as intenções Divinas. As horas se passaram e chegou a brisa fria que acompanha a noite no deserto. No primeiro sopro gelado, o sacerdote abriu os olhos e deparou-se com a escuridão estrelada do firmamento; à sua frente, a grande pirâmide delineava uma sombra apontando o Infinito acima dele. De repente, arrepiou-se todo e entendeu seu sonho: tudo o que ele fizesse deveria apontar para o Infinito. Levantou-se vagarosamente e respirou felicidade ao saber que não era o tamanho da pirâmide e o conhecimento para erguê-la, que constroem a obra de Deus, mas a intenção dos homens ao fazê-la. Deus estava nele...
História 3
Há muito tempo, um Mestre se perguntava a que círculo pertencia. Sentia-se só, embora convivesse com outros Mestres e alunos. Muitas vezes, não entendia o que os outros Mestres falavam. Um dia, sentado sob a frondosa árvore que o protegia do calor, não da angústia do não saber, experimentou o êxtase que acompanha o desprendimento da alma. Lá, encontrou o Espírito de seu avô a sorrir-lhe o sorriso da compreensão. Diante da saudosa figura, o nosso Mestre perguntou: "Velho avô, a que círculo pertencemos?" O Espírito do avô respondeu calmamente:"A nenhum e a todos." O nosso Mestre não entendeu a contradição e insistiu: "Velho avô, não se pode ser e não ser ao mesmo tempo." Diante da questão colocada pelo nosso Mestre, o seu velho avô sorriu o sorriso da compreensão e disse: "Os círculos não têm nome e não existem em si mesmo." De repente, o nosso Mestre voltou de seu êxtase e assustou-se com a visão de onde estava. Sentiu o calor em sua pele e descobriu o que não sabia: O velho avô pareceu dizer: "Não sei o que os outros sabem; e o que sei não existe em si". O nosso Mestre levantou-se lentamente e caminhou em direção aos outros Mestres, que estavam abrigados em outra árvore. Lá, ouviu alguém dizer o que ele não sabia e respondeu o que sabia e o outro não. Ambos ficaram arrepiados naquele encontro com o não saber. Eles estavam sós, não pertenciam a um círculo isolado, não conheciam as coisas do mundo, embora fossem chamados de Mestres. Assim, o nosso Mestre descobriu que o conhecimento habitava cada alma, cada Espírito, sem estar em todos e estando em todos ao mesmo tempo. Não havia um pertencimento isolado; não havia um todo; não havia um círculo; o um era o todo e o todo era o um ao mesmo tempo. Depois daquele dia, o nosso Mestre não mais se perguntou a que círculo pertencia. Ao pertencer a todos e a nenhum, restava-lhe ouvir o que não sabia e dizer o que sabia, sem nunca alcançar o todo, embora sendo um... Algum tempo depois, perguntaram o nome do nosso Mestre. Ele, tal como seu avô com o sorriso da compreensão, respondeu: "Não tenho nome, não sou ninguém sem você".
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