sexta-feira, 12 de agosto de 2011

PSICOLOGIA E EMANCIPAÇÃO DA ALMA

“Enquanto o homem se extravia nas sutilezas de uma metafísica abstrata e ininteligível, na busca das causas de nossa existência moral, Deus põe diariamente sob seus olhos e sob suas mãos os meios mais simples e mais patentes para o estudo da psicologia experimental.” Kardec, q 455, LE.
Neste texto, procuramos iluminar a real aproximação entre o pensamento de Kardec sobre Psicologia e o que se pratica em muitos consultórios nos dias de hoje pelo mundo afora. Kardec sinaliza para o fato da alma emancipada recuperar alguns atributos dos espíritos, dentre os quais se encontra a possibilidade de recordação de outras existências físicas, na justa medida em que tal recordação sirva para a evolução desta alma. Como veremos a seguir, ao falarmos de Psicologia, há enorme aproximação entre o hoje e o ontem de Kardec.
Nos últimos trinta anos, vem se disseminando a prática da Psicologia Transpessoal, além de outras como Terapia Regressiva, que admitem a pré-existência da alma. Durante a sua prática, algumas técnicas ajudam o paciente a alcançar uma condição chamada de Estado Ampliado de Consciência, cujo efeito direto está na possibilidade de se lembrar o que a memória normal não permite. Este estado em nada difere do que, em hipnose, é conhecido como Estado de Transe.
No Estado de Transe, o paciente amplia sua percepção e aviva sua memória para fatos do seu passado, criando condições favoráveis para superação de seu sofrimento atual de origem inconsciente. Quando as lembranças são avivadas, muitas vezes, são relatados episódios possivelmente ocorridos em outras vidas. São episódios que, de alguma forma, estão correlacionados com as queixas atuais, na medida em que estão em cadeias associativas carregadas pelo mesmo sentimento.
Ao lembrar-se de outros tempos, o paciente pode estar apenas devaneando sob influências diversas, como histórias contadas, lidas, ou assistidas no cinema e televisão. Contudo, considerando o aspecto simbólico dessas recordações, sendo verdade do passado ou fantasia, o sentido latente sempre terá relação com os fatos atuais, que estimularam esta recordação. Assim funciona na mente o processo associativo, seja no dia-a-dia, seja durante a psicoterapia.
Assim sendo, do ponto de vista psicoterápico, numa sessão conduzida com o paciente sob hipnose, não importa se a história contada é fantasia, devaneio, ou verdade do passado, na medida em que estará falando da verdade daquele sujeito em sua essência mais íntima, revelando aquilo que não consegue dizer no estado natural. Todos os personagens de sua história, além do texto desta história, nasceram de sua criação. Se, de fato, os personagens existiram no passado, no relato aparecem do modo como o paciente os vê, não como verdadeiramente são, ou foram.
De qualquer forma, não seria prudente eliminar a hipótese de recordação de uma pré-existência da alma em outros corpos físicos do passado, já que diferentes psicoterapeutas europeus e americanos a consideram em suas práticas clínicas, sem que haja restrição objetivada pelos órgãos reguladores da profissão em seus países.
A American Psycological Association, em sua Divisão 30 dedicada à Hipnose Clínica (www.apa.org/divisions/div30/), comenta, em sua apresentação (www.apa.org/divisions/div30/powerpoint.html), que o transe hipnótico teria diferentes interpretações, segundo a perspectiva científica do psicoterapeuta. Além da Cognitivo-comportamental e da Psicanálise, dentre outras, esta Associação destaca a Psicologia Transpessoal como linha interpretadora dos fenômenos associados ao transe hipnótico. Argumenta que há milhões de pessoas no mundo, que admitem a pré-existência da alma e não se poderia abandonar tais perspectivas sobre a realidade psíquica do sujeito.
Curiosamente, aqui no Brasil, os órgãos oficiais que regulamentam a Psicologia não admitem a possibilidade da pré-existência da alma, embora, como já dissemos, as demais Instituições reguladoras existentes em importantes países do ponto de vista científico, como os Estado Unidos, a França, a Holanda, a Inglaterra e outros, não estimulem, mas admitem a possibilidade de se considerar a hipótese científica da pré-existência da alma.
Como se sabe, uma hipótese científica passa pelo processo de negação durante as pesquisas direcionadas a sua eventual comprovação. Ao se poder negá-la, durante o processo científico, a hipótese é descartada. Até onde se pode entender, a hipótese da pré-existência da alma, isto é, da reencarnação, ainda não foi cientificamente negada nas pesquisas universitárias, nem nos diferentes laboratórios de psicologia independentes espalhados pelo mundo. Portanto, aqui no Brasil, estaríamos diante de uma negação da realidade científica ao desconsiderar a hipótese da reencarnação, mesmo antes da ciência fazê-lo.
O interessante é que as ciências humanas, diferentemente das ciências da natureza, sustentam-se em inúmeras interpretações da realidade que, muitas vezes, excluem-se mutuamente, por reducionismo científico ou preconceito. As ciências da natureza, por seu lado, apóiam-se em explicações, as quais dificilmente podem ser contrariadas com os recursos científicos ora existentes. São universos bastante diferentes no que se refere aos paradigmas adotados durante o processo científico.
Portanto, a reencarnação poderia ser uma hipótese a ser estudada em Psicologia, a qual, com os conhecimentos e instrumentos científicos atuais, provavelmente, não poderia ser peremptoriamente negada. Assim sendo, falar em pré-existência da alma não seria um absurdo científico, embora o seja proibido pelos órgãos reguladores da Psicologia, que a entendem como dogma religioso, não estando sua discussão, portanto, no campo da ciência, isto é, nos limites da percepção científica da realidade.
Situando-se a reencarnação na mesma perspectiva dos dogmas religiosos, a hipótese da reencarnação deixa de ser algo a ser oficialmente estudado em nossas Universidades. A causa provável seria o materialismo científico, ou o positivismo, que ainda dominam a mente científica dos brasileiros, mesmo diante do talvez sim, talvez não, da física quântica. Ou, quem sabe, seja um receio relacionado aos charlatães de plantão, que se aproveitariam da abertura, para seduzir seus pacientes.
Ao se impedir o estudo científico de diferentes possibilidades, ou de hipóteses, penetra-se em universos alheios à ciência e muito próximos de decisões políticas restritivas. O reducionismo da visão linear entre o fenômeno e sua causa, tende a excluir inúmeras possibilidades, as quais estariam presentes na mente arejada pela dúvida. Se houvesse a certeza, não haveria ciência; se soubéssemos os desígnios de Deus, perderíamos a fé.
Não se poderia afirmar que, ao admitir a pré-existência da alma, a Psicologia estaria se transformando numa Psicologia Espírita, ou que seria eventualmente absorvida por alguma outra religião. No contexto religioso, a reencarnação pode ser uma crença; no contexto científico, pode ser uma hipótese. De qualquer forma, não poderia ser explicada, na medida em que podem existir diferentes significados para sua realidade fenomênica, isto é, diferentes interpretações.
Em Psicologia, considerar-se a hipótese da reencarnação não significa a adoção imediata das interpretações espíritas, ou das budistas, ou do hinduísmo, ou as de outra religião, para justificar o fenômeno observado. Nas observações clínicas, inicialmente, constata-se a possibilidade e avalia-se consequências. Em algum momento, elabora-se uma teoria, a fim de produzir um sentido, que permita a contextualização do fenômeno observado. Em psicanálise, por exemplo, Freud chegou a dizer que a teoria das pulsões seria sua mitologia, na medida em que servia para dar sentido à origem dos fenômenos psicológicos por ele observados.
Do mesmo modo, diante das peculiares recordações do paciente, a Psicologia Transpessoal sustenta a possibilidade de alguns sintomas se originarem em vidas passadas, sem excluir o devaneio, a mistificação, ou a psicose, como alternativas reais para o observado.
Comparando-se o Espiritismo de Kardec com as religiões cristãs tradicionais, percebe-se que ele se supera ao sustentar o viés científico de suas colocações. De fato, as religiões tradicionais fundam-se em dogmas e afirmações, que estão além da possibilidade de investigação e discussão científica. Em oposição, a fé raciocinada do Espiritismo incentiva a pesquisa científica, estimulando o aprofundamento da dúvida e do debate, sem temer se a possibilidade da negação da reencarnação possa vir, um dia, a desestabilizar a arquitetura do Livro dos Espíritos. A verdadeira fé não teme a palavra do homem.
Diante disto, o Espiritismo estruturou-se na articulação entre a religião, a ciência e a filosofia, sem deixar-se dominar pela exclusividade de uma delas.
Com a tranqüilidade proporcionada pela fé raciocinada, talvez mais intuída, é possível encontrar em Kardec a antevisão dos tempos atuais. Lá, ele não estaria adivinhando o nosso presente, mas encontrando, no seu tempo, o germem que iria florescer 150 anos depois na Psicologia Transpessoal. Outras abordagens psicológicas seguiram o mesmo caminho desta, disseminando a hipótese da reencarnação pelos corredores da Psicologia. Mesmo tendo superado o preconceito no resto do mundo ocidental, a teoria da reencarnação permanece “exilada” do contexto científico brasileiro.
Diante do exposto até aqui, proponho não se pensar em Kardec como codificador de uma Doutrina Religiosa, mas como pesquisador da mente, ou do Corpo Mental, como se referia André Luiz. Naquele distante meado do século XIX, ele deu início ao que seria considerado como novidade no final do século XX, isto é, a finalidade terapêutica das recordações de vidas passadas.
Proponho, também, deixar um pouco de lado as eventuais impossibilidades de se recordar vidas passadas, todas elas bastante conhecidas e exploradas no O Livro dos Espíritos. Assim, poder-se-ia transitar pelas palavras de Kardec, sem temer a contradição entre as recordações terapêuticas e àquelas indesejadas e reveladas pelo Espírito da Verdade.
Estabelecendo um paralelo entre a moderna Psicologia e aquela descrita por Kardec, é preciso esclarecer que magnetismo, no texto de Kardec, é sinônimo de hipnose, enquanto que, sonambulismo, o é de estado de transe. Assim posto, ao ler a parte XVI de sua Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita, é possível se identificar o quanto Kardec conhecia sobre o processo da hipnose. Lá, argumentando acerca das objeções ao Espiritismo, fala da teoria magnética (hipnose) como abordagem racional, embora esta desconsidere a existência dos espíritos, isto é, da reencarnação.
Neste mesmo texto, Kardec descreve o sonambulismo tal como hoje se faz com o estado de transe, isto é, “neste estado, as faculdades intelectuais adquirem um desenvolvimento anormal, os círculos da percepção se ampliam além dos limites de nossa percepção ordinária” (Kardec, LE, pag 55). Mais a frente, sinaliza para o fato de ter estudado o sonambulismo (estado de transe) por mais de trinta e cinco anos, não podendo negar seus prodígios.
Com sua mente realmente científica, Kardec pode explorar diferentes possibilidades para o fenômeno observado, isto é, o sonambulismo, ou estado de transe. Curiosamente, a Psicologia Transpessoal nomeia este estado como Estado Ampliado de Consciência, praticamente repetindo Kardec.
Em cada possibilidade, Kardec estudou seu contexto, suas causas e consequências, desenvolvendo questões a serem respondidas pelo Espírito da Verdade. Assim parece ter surgido o Capítulo VIII do Livro Segundo de O Livro dos Espíritos, A Emancipação da Alma.
Em artigo anterior, sugeri que Kardec havia demonstrado a diferença entre mediunidade e emancipação da alma, não obstante os dois fenômenos dependessem, em certa medida, do que chamou de sonambulismo acordado, ou estado de transe superficial. Kardec disse ainda que a psicografia aconteceria com o médium no seu estado natural, permitindo, assim, identificar-se, com certa confiança, o que seria do médium e o que seria transmissão dos espíritos. Já no sonambulismo (estado de transe), poderia haver dificuldades em se identificar se houve comunicação espiritual, ou se foi manifestação da alma de quem estivesse neste estado.
De qualquer forma, em Psicologia, interessaria o que Kardec sintetizou no capítulo sobre a Emancipação da Alma, deixando-se a mediunidade para ser estudada no lugar apropriado. Aqui, serão apenas sinalizados os pontos de contato entre a comunicação espiritual e a emancipação da alma.
Ao sintetizar as respostas do Espírito da Verdade, Kardec elabora um texto extraordinário (questão 455), no qual se descobre sua vasta experiência e conhecimento sobre magnetismo (hipnose) e sonambulismo (estado de transe, ou estado ampliado de consciência). Ali, Kardec revela o porquê, o como e em que limites a alma emancipada recorda suas vidas passadas.
Se admitirmos que a Psicologia Transpessoal, bem como todas aquelas que consideram a hipótese de vidas passadas, trabalha com hipnose e estado de transe em diferentes profundidades, aplicando técnicas específicas para cada caso, entende-se a razão de sugerirmos ser Kardec, com sua emancipação da alma, um desbravador deste desconhecido.
Lendo o referido texto, percebe-se que a alma emancipada adquire certas características dos Espíritos, penetrando em seu mundo, tanto mais profundamente, quanto mais profundo for o transe, ou êxtase, como chamou Kardec. Do ponto de vista terapêutico, é preciso evitar-se um transe profundo, no qual a apatia física e a dificuldade de recordação a posteriori estarão presentes.
Embora cada sujeito tenha o seu próprio contexto de recordação, genericamente, busca-se mantê-lo num estado, no qual vivencie suas recordações, isto é, que possa manifestar os sentimentos vividos na ocasião do fato recordado. O fato, nem sempre, é recordado com clareza, podendo haver a mistura de várias situações semelhantes numa espécie de condensação. Esta limitação não impede que se faça uma ponte entre passado e presente, a fim de resignificar o aqui e o agora, superando-se sofrimentos desnecessários.
Alguns clínicos, dentre os quais me situo, chamam a essa resignificação de Transformação do Carma. Como se sabe, o Carma pode ser lido de diferentes maneiras, todas sugerindo razões para o sofrimento do sujeito. Mesmo em Kardec, algumas vezes o entendemos como pagamento de uma dívida, uma espécie de castigo, outras vezes, o entendemos como o resultado de como o sujeito verdadeiramente é e sente. Tudo indica que esta última seja a versão mais aproximada se a compararmos com os efeitos do tratamento em Psicologia.
Na medida em que o sujeito se transforma, o sofrimento escoa de sua mente e ele se aproxima mais um pouco da felicidade. Se for assim, o sofrimento não é pelo que se fez, mas pelo que se é. Ou seja, sofre-se pelas consequências dos atos impulsionados pelos sentimentos dominantes na alma desde sempre. Portanto, o carma não seria um castigo, mas a conseqüência do que verdadeiramente somos. A dívida não seria com o passado, mas com o futuro, na medida em que não se escaparia do mesmo.
Como Kardec sintetizou, com a sua emancipação do corpo físico, a alma pode entrar em contato com o mundo espiritual que, na maioria das vezes, encontra-se no mesmo nível, ou abaixo, do desenvolvimento desta alma. Quase sempre, são espíritos ligados, de alguma forma, a alma emancipada, diria Kardec. Faz parte do tratamento da alma descobrir as razões da aproximação espiritual e superar, pela transformação, a causa do sofrimento de ambos.
Naqueles primórdios, Kardec resumiu a evolução espiritual no desenvolvimento do conhecimento e da moralidade. Hoje, em Psicologia, poderíamos dizer que a evolução está na transformação dos sentimentos, a partir da qual se alargam a moralidade e o conhecimento. No lugar do arrependimento, descobre-se o amor e a compaixão, lugar onde está a real libertação do carma.
Finalizando, esperamos que o texto tenha sido suficientemente interessante, para estimular a leitura do capítulo sobre a Emancipação da Alma e tenha evidenciado a possibilidade de transformação do carma durante a psicoterapia, isto é, pelo encontro do sujeito alma com os sentimentos guardados no interior da mente e pela revelação da dimensão do amor e da compaixão ali escondidos.
Quanto aos aspectos científicos a serem estudados sobre a emancipação da alma, falta à Pátria do Evangelho seguir o posicionamento das nações “irreverentes” e pesquisadoras. Se soubessem, para quê pesquisar?
Não há esperança sem fé!

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