sábado, 13 de agosto de 2011

UMA POSSIBILIDADE


"É preciso que as diferenças deslizem umas sobre as outras, para que as essências se misturem..."
Tacarijú


Como se sabe, os paradigmas orientadores das pesquisas em ciências da natureza diferem daqueles relacionados às ciências humanas. Nas primeiras, as hipóteses a serem pesquisadas direcionam-se para explicações matemáticas e previsões estatísticas, enquanto, nas últimas, abrigam-se em interpretações da realidade observada. Interpretações que deslizam sobre as lacunas da linguagem, desembocando em descrições e fundamentações, muitas vezes, contraditórias, dependendo do discurso do pesquisador.

Tal fato, em dado momento, distanciou alma e matéria, inventando um dualismo preocupante, cindindo a realidade em duas faces antagônicas. A ciência da matéria parecia ser a real, na medida em que o objeto de estudo seria descrito com segurança, enquanto, a da alma, da cultura, tendia para o absurdo acientífico, com observações alicerçadas em diferentes verdades, em diferentes imanências. Na alma, na cultura, nada poderia ser estudado com segurança, na medida em que tais imanências eram tratadas como transcendências a se excluirem mutuamente. Talvez este seja um resumo do que se passou nos séculos XVII, XIX e XX com o pensamento Ocidental.

Contudo, algumas surpresas estariam guardadas para o pensamento materialista a excluir a alma de suas observações, bem como para os pensadores da cultura, que fantasiavam “verdades” em seus discursos, numa tentativa infrutífera de “imitar” as explicações das ciências da natureza. A última metade do século XX presenteou-nos com a confirmação das palavras de alguns filósofos, que “afirmavam não poder afirmar”. Neles, a Filosofia não alcançava os fenômenos naturais, ou culturais, apenas recobrindo-os parcialmente, deixando amplo espaço para interpretações, dependendo dos princípios, dos paradigmas, adotados pelo observador.

Entre nós, no início da década de 90, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) publicou, em sua revista Ciência Hoje, um resumo sobre a Teoria do Caos. Naquela época, o assunto estava começando em importância, em função do avanço tecnológico, em especial de softwares e hardwares, e da possibilidade de se comprovar esta teoria.

De fato, hoje, em 2010, sabe-se que o Caos, tal como foi descrito, inicialmente, há 40 anos, pelo matemático Lorenz, é uma realidade científica. Portanto, existe algo incerto além de toda razão filosófica, que, no passado do século XX, apenas, tateava por sobre o tangível imprevizível. Se a realidade se move sem que, com a limitação de nossas representações, possamos descrever sua trajetória, onde estaria, então, a verdade sobre o futuro?

O pensamento analítico, que nos apresentou a filosofia, a ciência e a tecnologia, fracassou diante do dinamismo do real revelado por elas. Este paradoxo nos levou a pensar de modo um tanto diferente daquele dito científico neste passado recente, isto é, pensar de forma sistêmica, que, algumas vezes, também é chamado de pensamento complexo, não complicado, como discursam os filósofos contemporâneos. Curiosamente, tal pensamento reconhece uma lógica interna, uma ordem, nos sstemas ditos caóticos, embora tal racionalidade seja intransferível entre sistemas caóticos.

Como se sabe, um conjunto de objetos, que se inter-relacionem, é chamado de sistema. Nele, analiticamente falando, a estrutura não seria apenas a distribuição espacial de seus elementos, mas o modo de relação existente entre eles. Portanto, seria uma leitura diferente da analítica, que pretende entender o conjunto a partir do estudo de cada elemento da estrutura, reunindo-os a seguir num todo racional. Esta última, tem uma visão mais estática da realidade, enquanto a primeira a percebe em seu dinamismo, sem desconsiderar a natureza dos elementos do sistema e dele próprio.

O pensamento sistêmico descreve a realidade, na medida em que a percebe e a representa em seu dinamismo, nela reconhecendo sistemas lineares e não-lineares.

Desde sempre, o imprevizível esteve diante dos humanos. Contudo, a ciência e a tecnologia resumiam-se a observar e medir, newtoniamente, os sistemas lineares, nos quais a intensidade do efeito seria proporcional à intesidade da causa pertubadora de seu “descanso”, permitindo à ciência visualizar um futuro previzível, mesmo que probabilístico. Assim sendo, o pensamento analítico poderia ser aplicado em tais sistemas, tal como ocorreu na Astronomia até 1980.

Diferentemente, nos sistemas não-lineares, a intensidade do efeito não é, necessariamente, proporcional à intensidade da causa perturbadora de seu “descanso”. Não havendo proporcionalidade entre a causa e o efeito, a trajetória do conjunto torna-se mais e mais imprevizível, na medida em que se afasta do ponto de origem da perturbação em seu “descanso”. Em outras palavras, o grau de previzibilidade da trajetória do sistema vai diminuindo, na medida em que o conjunto “viaja” no tempo

O que se pretende dizer é que a Teoria do Caos estuda o comportamento aleatório e imprevisível dos sistemas dinâmicos não lineares, sendo útil para evidenciar realidades, nas quais ocorrem irregularidades na aparente uniformidade da natureza. Repetindo, são irregularidades representadas por pequenas alterações introduzidas num sistema, as quais, aparentemente, não se relacionam com a dimensão do evento futuro. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_do_Caos)

Este fato desmonta toda previsão relacionada ao universo físico, material, que iludiu e encantou o pensamento analítico clássico e cartesiano.

Tal como sinalizado acima, até a década de 1980, os físicos defendiam a tese de que o universo era governado por leis precisas e estáticas e, portanto, os eventos nele ocorridos poderiam ser previstos. Porém, a Teoria do Caos mostrou que, certos eventos universais, podem ter ocorrido de modo aleatório, isto é, sem relação com os demais eventos observados. Do mesmo modo, quando se estuda a Teoria do Caos, os pesquisadores se deparam com o imprevisível em todos os momentos e em todas as partes do desenvolvimento teórico.

A visão determinista direcionada ao Universo, tal como se fazia antes de 1980, perdeu-se no Infinito de Sua sabedoria. Nós, humanos, não alcançamos o Infinito, apenas existimos entre o provável e o desconhecido. Não alcançamos o Mistério de Seus desígnios...

Um exemplo interessante de sistema caótico são as previsões meteorológicas, em especial a formação de tempestades, onde qualquer pequena alteração, direção, velocidade dos ventos, por exemplo, pode provocar grandes mudanças, na medida em que o tempo avança. O matemático Lorenz chamou este fato de Efeito Borboleta, isto é, se uma borboleta batesse asas na Ásia, poderia provocar uma tormenta na América Central em algumas semanas. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_do_Caos)

Esta representação da realidade demonstra a impossibilidade de uma previsão meteorológica perfeita. Neste caso, o determinismo dos sitemas lineares passa a não funcionar, pois, para se ter uma previsão meteorológica precisa, os dados a serem considerados, além de serem infinitos, deveriam possuir precisão infinita, sendo processados em máquinas com memória e capacidade de processamento infinitos. Como o Infinito não nos pertence...

Tal fato sugere a existência de certas singularidades entre os sistemas, cuja lógica interna não pode ser transferida para os demais aparentemente semelhantes, isto é, o modo como os seus elementos se relacionam é único e intransferível, existindo apenas em dado momento e lugar.

Avançando um pouco mais, poder-se-ia dizer que o universo físico é cheio de surpresas a destronar, seguidamente, a ilusão do previsível. Até o momento, os princípios que regem a Física Clássica, a Relatividade Geral e a Física Quântica, não podem ser transferidos de uma para outra. São, portanto, várias e diferentes Físicas, diferentes representações a descrever o real, embora, cada uma, possua lógica interna permitindo que a razão possa falar sobre seus paradigmas. Os fenômenos físicos são claros, existindo ao mesmo tempo em todos os lugares, convivendo na natureza em aparente harmonia, mas, mesmo assim, segundo princípios diferentes.

No universo da alma, da cultura, parece que a ilusão gosta de reduzir diferentes realidades a apenas um aspecto da verdade, eliminando as interpretações que a contradizem. Observa-se este fato, seja na Filosofia, seja na Antropologia, seja na Psicologia, seja onde houver o pensamento a interpretar realidades, a construir teorias.

Freud talvez seja um bom exemplo de contradição interna a existir em sua obra. Depois de se ler os seus 23 volumes, de se folhear seus comentadores, de se seguir as reflexões que o próprio Freud fez de sua construção teórico-clínica, fica-se diante de, pelo menos, três Freud diferentes na lógica de suas interpretações sobre as questões da alma, da mente humana.

Claramente, a racionalidade de cada Freud não pode ser transferida para os outros dois, se o foco da observação for direcionado para a relação entre os elementos a organizar a estrutura da teoria. Elementos que recebem o mesmo nome ao longo da obra, tal como, pulsão, angústia e recalque, cuja relação é alterada em cada teoria, bem como a descrição do que seja inconsciente, que desliza entre substantivo e adjetivo no seu significado.

Feud alterou diversas vezes o arranjo entre os conceitos de sua teoria. Em ocasiões diferentes, ora afirmou que o pensamento superaria a emoção, no caso a angústia, ora dependeria da intensidade desta. Em dado momento, refez a interpretação de seus casos clínicos, adaptando-os à sua mais recente "possibilidade". Dizer que Freud disse algo, seria preciso, antes, localizar a que princípios teóricos o dado Freud estaria fundamentado, seria preciso contextualizar a palavra freudiana no interior da possibilidade por ele escolhida. 

Na verdade, o fenômeno da neurose sempre esteve diante de Freud do mesmo modo em seus sintomas. O que mudou foi o arranjo teórico, isto é, mudando os princípios, a lógica de cada arranjo tornou-se diferente. Ao interpretar o que via em seus pacientes, alterou o significado de inconsciente, pulsão, recalque e angústia, na medida em que percebia relações diferentes entre estes significantes. Além disso, noção de cura é diferente em cada Freud, cujo conceito escorrega entre a possibilidade e a impossibilidade.

Portanto, na tentativa de interpretar a realidade psíquica do sujeito, a teoria freudiana percorreu um caminho interessante, transitando pelo pensamento analítico e na previsibilidade dos sistemas lineares e, finalmente, aportando no pensamento estrutural e na incerteza dos sistemas não lineares. São modos bastante diferentes de se pensar o real, de simbolizá-lo, de teorizá-lo.

Se acrescentarmos outros psicoterapeutas, como Jung, Adler, Reich, Maslow, Rogers, Skinner, Moreno, além de outros gênios, estaremos diante de diferentes faces da mesma neurose, na medida em que, cada um deles, enfatizou um aspecto diferente, ou a interpretou de modo diferente, resultando em processos de tratamento diferentes. De qualquer forma, todos afirmam que a relação terapêutica, isto é, o que se passa entre o paciente e o psicoterapeuta, é o fundamento principal de suas técnicas.

É provável que a relação terapêutica seja o fundamento de todo e qualquer tratamento psicoterápico, independentemente das técnicas adotadas. Se assim for, as técnicas descritas por tais gênios são muito pessoais, dificultando a transmissão do conhecimento e da experiência.

A afirmação de que uma técnica psicoterápica é mais efetiva do que outra faz parte do universo do pensamento linear reducionista, que exclui o contraditório, o diferente, na medida em que, reduzindo as possibilidades de percepção da realidade, generaliza o que vê. Como o nome diz, a relação terapêutica parece ser, estruturalmente falando, o centro de gravidade de todo e qualquer tratamento psicoterápico, não a técnica propriamente dita.

Se existem muitas relações com a verdade, ou interpretações do real, uma para cada sujeito; se cada “olhar” altera a experiência, tal como na física quântica, na qual a existência de onda, ou de partícula, depende do olhar do observador; se não alcançamos a Sua lógica; talvez seja prudente não se afirmar possuir a resposta final.

No universo não linear, são inúmeras singularidades que se inter-relacionam. Se não podemos entender cada elemento do sistema e cartesianamente deduzir o todo; se o olhar precisa deslocar-se para as interações entre estes elementos, para as interações entre o observador e o observado, que se alternam e se modificam a cada instante; se, ao se considerar tais relações, o todo é, ao mesmo tempo, maior e menor que a soma de suas partes; se isto acontece no universo físico e no da cultura, paraíso da linguagem e da fantasia; o que dizer do real, da realidade percebida, das teorias sobre o que está diante de nós?

Kandel, neuro-cientista de renome premiado com o Nobel, comenta que se sabe quase tudo sobre a memória, exceto como ocorre o processo de sua evocação. Para ele, a consciência ainda não pode ser teorizada pela ciência, na medida em que seus processos ainda não estão claros. Sugere que, com o tempo, as resposta ocorrerão certamente. No entanto, esta última afirmação pode estar imersa no seu desejo de cientista, na sua crença no poder da ciência, no ancorar-se no imaginário poder da razão, que tudo explica. Freud também sugeriu tal possibilidade ao tropeçar em momentos de recaída platônico-cartesiana.

Assim, diante de tal incerteza, a Psicologia não pode afirmar o que sabe sobre a mente humana, apenas podendo teorizá-la e se arriscar a sugerir alguns caminhos para o tratamento psicoterápico.

No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) associa-se à tese de Kandel, eliminando toda e qualquer possibilidade de se atribuir uma condição de intangibilidade à mente. Assim sendo, todas as teorias aceitas pela ciência psicológica brasileira afirmam que a mente depende do cérebro, isto é, a mente não existiria sem tal base orgânica. O curioso é que a neuro-ciência ainda não tem resposta para o que seja a consciência, portanto, nada sabe sobre a mente além do que vê em seus laboratórios. Tudo indica que esta percepção materialista sobre a mente tende a se modificar, a se libertar das amarras racionalistas, que se ancoram em um “talvez”, que elimina os demais “talvez”.

Em 2000, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) reconheceu a Hipnose como ferramenta possível para o processo psicoterápico. Como se sabe, a Hipnose transita por universos situados além da razão, nos quais o sujeito submetido a este processo supera esquecimentos, dores crônicas, medos irracionais, além de controlar, objetivamente, o funcionamento do organismo, como a temperatura do corpo, o batimento cardíaco e a atividade cerebral. Diante disso, cabe a pergunta linear acerca do que vem primeiro, se o corpo, ou se a mente.

A American Psycological Association (APA) superou esse impasse ao admitir a intangibilidade da mente, em sua Seção 30, que trata da Hipnose e de sua prática clínica. Lá, descobre-se que este processo pode ser interpretado por diferentes Teorias Psicológicas, inclusive pela Psicologia Transpessoal, que admite a anterioridade da mente em relação ao cérebro, isto é, admite que a mente sobreviva à morte física e se encarne, a seguir, em outro corpo físico.

Assim, as angústias, culpas, medos e traumas do paciente poderiam ter origem em outras vidas além da atual. Este não seria um fato religioso, na medida em que não se pretende justificar tal fenômeno, mas considerá-lo no processo de tratamento psicoterápico como mais um “talvez”.

Diante da impossibilidade da ciência materialista explicar a consciência, explicar como se evoca a memória, além de curiosidades, como explicar o controle da mente sobre o sistema nervoso autônomo, a “muralha racionalista” parece ceder e duvidar ao admitir a Hipnose como fato científico ainda não explicado.

A Universidade Stanford (USA) estudou a Hipnose entre 1959 e 1979, aplicando os conceitos de ciência ao pesquisá-la, não chegando, como seria de se esperar, a qualquer conclusão objetiva. Apenas sistematizou alguns aspectos sobre a sensibilidade natural das pessoas ao serem submetidas ao processo, deixando larga passagem para inúmeros “talvez”.

Aplicando-se a Hipnose no processo psicoterápico, percebe-se que a memória parece não ser linear, isto é, o que lembramos não seria, de fato, o que aconteceu, embora esteja relacionado com o sofrimento presente. O processo de rememoração funcionaria como se diferentes episódios se condensassem numa mesma imagem, todas regidas pelo mesmo sentimento (intangível), pela mesma sensação (tangível) e mesma representação simbólica existentes no presente da mente.

Ao se lembrar, a expectativa de futuro e as experiências presentes do paciente transformam o seu passado, isto é, o significado deste passado, mesmo que lembrado em imagens condensadas. Assim, a mente ressignifica o passado, altera o presente e abre as possibilidades sobre o futuro, num vai-e-vem interminável.

Ocorre que, durante o processo psicoterápico com Hipnose, alguns pacientes lembram-se de cenas típicas de séculos passados, sentindo como se lá estivessem. Aquela poderia ser uma imagem condensada de vários acontecimentos semelhantes, em várias vidas, nos quais o mesmo sentimento predominava. A Psicologia Transpessoal escolheu esta interpretação possível, não descartando a possibilidade de um leque de opções interpretativas, dentre as quais estariam a lembrança de vidas passadas condensadas ou não, fantasias e sonhos condensados ou não, mentiras intencionais, etc. De qualquer forma, cada interpretação estaria regida por princípios e lógicas diferentes a tratar o mesmo fenômeno clínico observado, isto é, alguém se lembrando de outras vidas.

Assim, quando se afirma que não há reencarnação é preciso dizer que princípios fundamentam tal afirmação. Do mesmo modo, o inverso precisa ser tratado, isto é, que haveria reencarnação. São planos de imanência diferentes, humanos, não havendo Transcendência que resolva a contradição.

Do ponto de vista da psicoterapia, a lembrança funciona do mesmo modo, isto é, descreve uma possível origem para os males presentes, atribuindo-lhes um sentido, uma explicação. Ao elaborar tal lembrança e ressignificar a explicação para o presente, a cadeia associativa se altera e muda este presente, abrindo diferentes possibilidades para o futuro. Portanto, não se trata de crença religiosa a assolar a alma do psicoterapeuta, mas do reconhecimento de que diferentes pacientes acreditam na reencarnação, mesmo que não haja fundo religioso nesta interpretação da natureza da mente.
Finalmente, afirmar a impossibilidade da Mente existir além do cérebro seria aprisionar-se no materialismo do século XIX, que desconhecia a possibilidade de algo ser e não ser ao mesmo tempo, tal como ocorre com a partícula, que ora parece onda, ora parece matéria. Portanto, tal como o fenômeno observado na Física Quântica, ser a Mente um subproduto do cérebro, ou ser algo além, que o controla, depende de quem "observa", isto é, ora pode ser um, ora pode ser outro.
Como já foi largamente debatido, não se pode eliminar uma das faces da mesma moeda, sob pena de mergulharmos no preconceito e na exclusão do diferente. Melhor seria aceitar que a possibilidade depende da escolha do observador, que lhe dá brilho, cor, calor e sabor.
Se um avião voa, ou se uma ponte não cai, não é que tenhamos "escolhido" esta possibilidade, foram os cálculos de engenharia, que possibilitaram o fenômeno. Mas, se um paciente sofre, não há cálculo matemático que explique o fenômeno. É preciso "escolher" uma possibilidade e "descobrir" a causa, talvez escondida em outras possibilidades. São as incertezas das Ciências Humanas.
Penso ser mais inteligente cuidar da ética e deixar a "estética" do tratamento seguir a possibilidade percebida pelo psicoterapeuta e pelo paciente.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

KARDEC E A HIPNOSE

O objetivo deste texto não se relacioa diretamente com a Religião Espírita. Contudo, sugere que o codificador desta religião teria praticado a hipnose por vários anos, o que poderia ter aberto seu caminho para seus trabalhos posteriores.
Até hoje, dezenas de perguntas não respondidas balizam a pesquiza em hipnose e psicoterapia, sempre pendulando se a mente governa o cérebro, ou é um de seus sub-produtos. Como ainda não se pode conceituar a consciência do ponto de vista científico, na medida em que se sabe que o sujeito está pensando, mas, não se sabe no quê está pensando, talvez seja possível incluir os estudos deste pensador neste universo ainda desconhecido.

 Como se sabe, o Capítulo VIII do Livro II do Livro dos Espíritos trata da emancipação da alma. Na verdade, o que é discutido neste capítulo são as diferentes situações, onde ocorrem variações na intensidade e nos limites desta emancipação. Nele, entre as questões 400 e 454, Kardec faz diversas perguntas, em cujas respostas são delineadas tais situações pelo Espírito de Luz, explorando a emancipação da alma durante o sono, durante o sonambulismo (estado de transe), durante o êxtase (transe profundo), na transmissão do pensamento e na dupla vista. São questões que estabelecem um contorno sobre o que se passa na alma durante sua emancipação do corpo físico.
No fim do capítulo, na questão 455, o Codificador da Doutrina faz um Resumo Teórico do Sonambulismo e da Dupla Vista, sintetizando os assuntos tratados nas questões anteriores, sugerindo, ainda, a necessidade do reconhecimento do sonambulismo (estado de transe) pelos doutos das Universidades. Em dado momento, Kardec afirma que “para o Espiritismo, o sonambulismo é mais do que um fenômeno fisiológico, é uma luz projetada sobre a Psicologia. É nele que se pode estudar a alma, porque é nele que ela se mostra a descoberto”. O que mais a Psicologia poderia esperar, para ajudar os pacientes que sofrem por qualquer motivo subjetivo que seja?
Durante o texto, Kardec destaca as aproximações e diferenças existentes entre um Espírito e a Alma Emancipada, facilitando o que poderia aqui chamar-se de Psicologia da Alma. É possível que, em alguns casos, prática semelhante possa ser direcionada a um Espírito, tantos são os pontos de contato entre os Encarnados Emancipados e os Desencarnados apontados pelo Codificador da Doutrina.
Este capítulo poderia passar despercebido no contexto do Livro dos Espíritos não fosse pela afirmação do próprio Kardec, que revelou ter estudado o sonambulismo (estado de transe) por mais de 35 anos, sugerindo vasta experiência nesta prática. A revelação consta da parte XVI da Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita escrita pelo próprio Codificador e existente no início do Livro dos Espíritos. Ali, ao comentar sobre certas críticas à Doutrina, nas quais se afirmava serem as comunicações espirituais oriundas do próprio médium, disse que “não seremos nós quem contestará o poder do sonambulismo, cujos prodígios presenciamos, estudando-lhe todas as facetas, durante mais de trinta e cinco anos”. Do mesmo modo que na questão 455 já referida, Kardec sinaliza nesta Introdução as características do fenômeno anímico e do fenômeno espírita.
Esse fato sugere que Kardec teria real interesse pelo hipnotismo. Ao afirmar que esta prática iria beneficiar a Psicologia, isto é, a Psicologia dos Espíritos Encarnados segundo a Doutrina, expande as possibilidades do Espiritismo como ciência. Curiosamente, a satisfação de seu desejo de que sonambulismo decorrente do magnetismo (como era chamada a hipnose) fosse reconhecido pela ciência ocorreu em 1998 e 2000, na virada do terceiro milênio, quando a American Psycological Association (APA) e o Conselho Federal de Psicologia (CFP) reconheceram respectivamente a hipnose como instrumento psicoterápico. São quase 150 anos entre aquele abril de 1857 e o reconhecimento da hipnose (magnetismo) pela Ciência Médica e pela Psicologia.
Pode ser que estejamos diante de um possível reconhecimento da hipótese da reencarnação, a ser estudada e debatida pelos doutos a partir dos fatos a ocorrerem durante a psicoterapia com o paciente em transe, repetindo, assim, o que Kardec observou no século XIX sobre o sonambulismo e a emancipação da alma.
Finalmente, é preciso enfatizar que, nos últimos 50 anos, no meio Espírita, tem-se discutido a validade psicoterápica das recordações de vidas passadas, chegando-se a dizer que o Livro dos Espíritos não recomenda esta prática. No entanto, Kardec demonstra que a recordação de vidas passadas pode ocorrer durante o sonambulismo, transe em hipnose, sugerindo que a Psicologia poderia se valer deste e de outros fatos relacionados à emancipação da alma.
É possível que haja um resgate da antevisão de Kardec sobre as possibilidades do estado de transe, ou consciência ampliada, como colocou na sua Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita. Lá, o Codificador assim se referiu ao sonambulismo: “Neste estado, as faculdades intelectuais adquirem um desenvolvimento anormal, os círculos da percepção intuitiva se ampliam além dos limites de nossa percepção ordinária.”
Uma leitura apressada sobre o sentido da emancipação da alma pode sugerir que Kardec estaria falando de mediunidade. Não poderia ser assim, na medida em que o Codificador era imensamente cuidadoso em separar o anímico e o Espírita, dando contornos claros ao que seja mediunidade.
Sabendo-se que a alma emancipada penetra o universo dos desencarnados, contatos entre esta alma e os Espíritos são inevitáveis. Contudo, não parece ser ainda mediunidade, tal como é definido no Livro dos Médiuns em seu capítulo XIX. Ao final deste, há uma soberba Dissertação de um Espírito sobre o papel dos médiuns, cujo texto, ao sintetizar as sutilezas da comunicação espiritual, permite ao estudioso de Kardec identificar as peculiaridades da mediunidade e as da emancipação da alma.
Reconhecemos que sempre haverá ponta de dúvida se a comunicação é Espírita, ou anímica. Dúvida que alimenta a pesquisa Espírita em seu prisma científico, não obstante jamais se duvide da realidade da reencarnação, na medida em que ambas as situações a comprovam.
Acreditamos que, a partir da hipótese científica suscitada por este artigo, possamos iniciar discussão profícua sobre uma Psicologia, cuja prática ocorra durante a emancipação da alma, diferenciando-a claramente dos objetivos da mediunidade. Como primeira provocação, diríamos que Kardec sinalizou que, quando a alma está emancipada, recupera alguns atributos próprios dos Espíritos, sendo possível, assim, recordar suas vidas passadas, dentre outras ocorrências importantes num processo psicoterápico.
NÃO HÁ ESPERANÇA SEM FÉ!
Glossário Técnico.
Alma = Espírito encarnado.
Magnetismo = Hipnose
Magnetizador = Hipnólogo
Sonambulismo = Estado de Transe em Hipnose.
Sonambulismo Magnético = Estado de Transe alcançado com ajuda de um Hipnólogo.

Sonambulismo Natural = Estado de Transe alcançado sem ajuda de um Hipnólogo (Auto-hipnose).


TRÊS HISTÓRIAS

História 1

A manhã começava lentamente, como tudo naquele lugar, onde a natureza escolhera o branco para adornar. O monge sentiu o frio penetrando em sua túnica e pensou no exame daquele dia. Comeu algo estranho que lhe aqueceu o corpo e manteve sua alma alerta. Com o sol ainda pela metade no horizonte montanhoso, o monge caminhou devagar pela neve que unia o prédio onde vivia àquele onde seria examinado em seu conhecimento. A cada passo gelado, imaginava de onde o seu conhecimento brotara. Sentia em seu íntimo que o saber que levava consigo era diferente daquele que aprendera com seus examinadores. Um rasgo de temor cruzou seu coração. Contudo, seguiu sua intuição e, frente a frente aos "velhos" examinadores, falou-lhes sobre o novo, o que trazia dentro de si, o conhecimento que "inventara" . Os "velhos" lhe perguntaram, ao final, o que faria quando estivesse ali sentado diante do novo trazido pelo "neófito". O monge ficou sem saber se era uma crítica ao seu "novo", ou se estavam dizendo sobre sua arrogância. Permaneceu em silêncio algum tempo sentindo o incômodo da insegurança. Imaginou-se "velho" e sentado diante do neófito a lhe falar do "novo". Pensou no que seria o "novo" e sentiu surpresa ao descobrir que este era apenas o desenrolar do "velho", que já foi "novo" um dia. Percebeu que o que ali trazia era apenas um momento diante do que se seguiria a ele e o que se deu antes dele. Invadido pela paz de sua insignificância, abriu os olhos e encontrou os "olhares velhos" a esperar sua resposta. De sua boca saiu apenas: "perguntaria o que ele faria se estivesse aqui sentado diante do neófito a falar do novo".

História 2

Há muito tempo, um sacerdote sentou-se diante da grande pirâmide e se perguntou o que faria com seu conhecimento. Diante do silêncio de pedra a erguer-se 100 metros acima dele, fechou os olhos, tentou meditar e cochilou. Em seu sonho, uma ave imensa pousou diante dele e disse-lhe com voz feminina: “O saber lhe foi concedido para construir a obra de Deus”. A grande ave repetia e repetia a mesma frase, enquanto o sacerdote sofria sua ignorância sobre as intenções Divinas. As horas se passaram e chegou a brisa fria que acompanha a noite no deserto. No primeiro sopro gelado, o sacerdote abriu os olhos e deparou-se com a escuridão estrelada do firmamento; à sua frente, a grande pirâmide delineava uma sombra apontando o Infinito acima dele. De repente, arrepiou-se todo e entendeu seu sonho: tudo o que ele fizesse deveria apontar para o Infinito. Levantou-se vagarosamente e respirou felicidade ao saber que não era o tamanho da pirâmide e o conhecimento para erguê-la, que constroem a obra de Deus, mas a intenção dos homens ao fazê-la. Deus estava nele...

História 3

Há muito tempo, um Mestre se perguntava a que círculo pertencia. Sentia-se só, embora convivesse com outros Mestres e alunos. Muitas vezes, não entendia o que os outros Mestres falavam. Um dia, sentado sob a frondosa árvore que o protegia do calor, não da angústia do não saber, experimentou o êxtase que acompanha o desprendimento da alma. Lá, encontrou o Espírito de seu avô a sorrir-lhe o sorriso da compreensão. Diante da saudosa figura, o nosso Mestre perguntou: "Velho avô, a que círculo pertencemos?" O Espírito do avô respondeu calmamente:"A nenhum e a todos." O nosso Mestre não entendeu a contradição e insistiu: "Velho avô, não se pode ser e não ser ao mesmo tempo." Diante da questão colocada pelo nosso Mestre, o seu velho avô sorriu o sorriso da compreensão e disse: "Os círculos não têm nome e não existem em si mesmo." De repente, o nosso Mestre voltou de seu êxtase e assustou-se com a visão de onde estava. Sentiu o calor em sua pele e descobriu o que não sabia: O velho avô pareceu dizer: "Não sei o que os outros sabem; e o que sei não existe em si". O nosso Mestre levantou-se lentamente e caminhou em direção aos outros Mestres, que estavam abrigados em outra árvore. Lá, ouviu alguém dizer o que ele não sabia e respondeu o que sabia e o outro não. Ambos ficaram arrepiados naquele encontro com o não saber. Eles estavam sós, não pertenciam a um círculo isolado, não conheciam as coisas do mundo, embora fossem chamados de Mestres. Assim, o nosso Mestre descobriu que o conhecimento habitava cada alma, cada Espírito, sem estar em todos e estando em todos ao mesmo tempo. Não havia um pertencimento isolado; não havia um todo; não havia um círculo; o um era o todo e o todo era o um ao mesmo tempo. Depois daquele dia, o nosso Mestre não mais se perguntou a que círculo pertencia. Ao pertencer a todos e a nenhum, restava-lhe ouvir o que não sabia e dizer o que sabia, sem nunca alcançar o todo, embora sendo um... Algum tempo depois, perguntaram o nome do nosso Mestre. Ele, tal como seu avô com o sorriso da compreensão, respondeu: "Não tenho nome, não sou ninguém sem você".

KARMA, CÉU E INFERNO

“Não seremos nós quem contestará o poder do sonambulismo, cujos prodígios presenciamos, estudando-lhe todas as facetas, durante mais de trinta e cinco anos.” Kardec, LE, Introdução.
Os Irmãos Espirituais tem insistido que as suas palavras se adéquam ao momento histórico de quem as ouve, enquanto o sentido da comunicação perdura no tempo. Assim, é preciso realizar verdadeira “arqueologia” da linguagem, para desvelar o sentido do que foi dito por eles no passado. O século XIX foi o tempo do iluminismo, do despertar do processo científico, da tecnologia da máquina a vapor, do conceito de verdade a partir da objetividade do real. Naquela época, as ciências humanas tropeçavam nos primeiros passos.
A relação causa e efeito era entendida como próxima do “materialismo” da física newtoniana, na qual a intensidade dos efeitos seriam proporcionais às suas causas, e mais afastada das diferentes “verdades” sobre um efeito com diferentes causas, uma causa com diferentes efeitos, ou efeitos com intensidades inversas às causas, próprios do que nos revelam as ciências contemporâneas. Muitas vezes, esquecemos que as condições, sob as quais ocorre a relação percebida como sendo de causa e efeito, escondem fatores desconhecidos a desmontar eventual olhar linear e determinístico direcionado para esta relação. A lógica do século XIX desmoronou diante das “descobertas do final do século XX”, seja nas ciências da natureza, seja nas humanas.
De qualquer forma, a ciência contemporânea vem provando, a cada experiência, a cada descoberta, que vivemos sob a égide de interpretações, de teorias, não de verdades absolutas. Fatores causais não percebidos, ou não considerados, imprimem aura de desconhecido às respostas da ciência para fenômenos aparentemente simples. Mesmo em relação à Lei da Atração Universal, hoje, sabe-se ser apenas uma teoria, não uma lei universal como nome indica. Isto quer dizer que pouco se sabe sobre a realidade, na medida em que as teorias são constantemente substituídas por interpretações com poderes de explicação.
Partindo-se do entendimento contemporâneo acerca da realidade que nos cerca, seja com apoio da ciência material, ou da natureza, seja com o da ciência da alma, ou humana, podemos dizer que o Livro dos Espíritos é atualíssimo, mesmo tendo sido produzido no século XIX com seu discurso linear e determinístico. Além de conter teorias ainda sobreviventes no século XXI, nele, não existem o sempre e o nunca, o tudo e o nada, o certo e o errado a limitar um suposto saber da ciência.
O que descobre em suas páginas é que as existências incorpóreas dão sentido à realidade, não o inverso, como se poderia supor. Não é a Física Quântica que explica o espiritual, mas o inverso, isto é, as considerações espirituais explicam o que não se responde na física da partícula. O século XXI trará o entendimento de que o fator espiritual, não material, portador de inteligência, possui os atributos suficientes, para iluminar o vazio desconhecido pela ciência materialista.
De qualquer forma, estaremos distantes da Verdade. Sabemos que os Espíritos, mesmo aqueles banhados pela Luz, não participam dos desígnios de Deus. Assim sendo, caso se considere suas comunicações no O Livro dos Espíritos como teorias, isto é, conteúdos a serem postos à prova e eventualmente atualizados, o que lá existe vem resistindo ao tempo. É verdade que as analogias e comparações existentes em suas páginas estão nos limites da compreensão filosófico-científica da época. Contudo, o sentido que expressam está em comunhão com a complexidade filosófico-científica do pensamento contemporâneo.
Ciência e Religião estão quase sempre em lados opostos, embora ambos possam eventualmente ser determinísticos, um a excluir o outro. Kardec, em suas sínteses, e os Irmãos Espirituais, em suas respostas, parecem ter desmontado esta percepção da realidade. Do ponto de vista da Religião, ao se ler este livro doutrinário, descobre-se, por exemplo, que cada Espírito, cada alma, está onde deveria estar, segundo o que sentem, pensam e são. Passado, presente e futuro, diferentes dimensões do mesmo, entrelaçam-se no Corpo Mental das almas e dos Espíritos, emprestando-lhes a face do que chamamos Karma.
Assim, Karma não se relacionaria com castigos, com pagamentos de dívidas com terceiros, mas com a rede de intenções e sentimentos a constituir os Corpos Mentais de cada Espírito, de cada alma. As penas, aparentes castigos, são pela intenção do que se faz, não pela conseqüência do que se fez. Intenção sempre relacionada ao sentimento impulsionador da ação e ao conhecimento relativo que a alma, ou Espírito, possuam no tempo da ação. São estas condições que determinam o Karma, isto é, a intensidade das provas e das penas de cada um, não castigos, ou “penas infernais”. Sendo, portanto, condições relativas para o Karma, não se pode julgar uma ação desconhecendo-se a intenção, o nível de conhecimento e a situação daquele que age, seja alma, seja Espírito. Nada mais atual!
Assim sendo, céu, inferno e purgatório são relativos, isto é, não são determinísticos e iguais para todos segundo os mesmos “pecados”. Kardec nos mostrou em sua Codificação que Deus é justo, jamais punitivo. No entanto, ainda encontramos leitores que a entendem de forma determinística e linear, influenciados que estão por cientistas e filósofos do século XIX, que imaginavam ser a relação causa e efeito determinada, a priori, por leis imutáveis. Estes últimos defendem que o Karma seria uma espécie de condenação, sem direito à “liberdade” até que se pague a “dívida” com sofrimento, a ser vivida durante a encarnação, na qual as faltas cometidas em outras vidas seriam purgadas. Talvez não seja assim...
Do ponto de vista da ciência, desde muito tempo, sabe-se que o sentimento e o pensamento influem no funcionamento do Corpo Físico. Ansiedade, stress, culpa, raiva, parecem estar presentes nas mais variadas doenças do organismo, assim como em atitudes e comportamentos belicosos e agressivos. André Luiz já nos dizia que o Corpo Mental influi no Corpo Espiritual, ou Perispírito, e este, no Corpo Físico. Portanto, em todas as situações, mesmo durante a concepção, o Corpo Mental do Espírito a vivenciar o processo encarnatório estará determinando as condições de funcionamento do Corpo Físico em formação. Assim, sentimentos e intenções são muito mais poderosos como causa de doenças e sofrimentos do que eventuais castigos por “pecados” cometidos em vidas anteriores, ou mesmo mais poderosos do que heranças genéticas a explicar evoluções e deformações do organismo.
A questão kármica vista por esse ângulo sugere a possibilidade de se alterar, durante uma encarnação, o que parecia ser um castigo definitivo por faltas cometidas no passado. Castigo imposto por “alguém” muito poderoso e, talvez, cruel, reproduzindo-se, em pequena escala, o conceito medieval de céu e inferno. Como estamos convencidos sobre a bondade de Deus e sobre o livre arbítrio das almas e Espíritos, podemos dizer que este último, o livre arbítrio, determina o Karma, na medida em que sentimentos e intenções governariam nossas escolhas, o que seremos e faremos. Nada mais atual em termos de ciência humana, seja na Psicologia, seja na Biologia, seja na Medicina, seja no Direito, seja na Filosofia, seja na Religião...
Vejamos o que diz O Livro dos Espíritos sobre este assunto.
Na questão 999, Kardec pergunta se o arrependimento durante a vida seria suficiente para extinguir as faltas. Observem que a pergunta está de acordo com o pensamento do século XIX, no qual as penas estariam relacionadas com as faltas, isto é, com as consequências das ações. O Irmão Espiritual responde que o arrependimento auxilia a melhora do Espírito, mas o passado deve ser expiado. É interessante pensar um pouco no que seria entendido por expiação nesta resposta. Para isso, vejamos a questão 1000, na qual Kardec pergunta se, já nesta vida, podemos resgatar nossas faltas. A resposta vem clara e bastante orientadora, quando o Irmão Espiritual diz que sim, reparando-as, isto é, transformando sentimentos e intenções e agindo de forma reparadora. Esta seria, então, a reparação, não os eventuais sofrimentos do encarnado.
Talvez ainda não esteja muito clara a possibilidade de se transformar o Karma numa encarnação, na medida em que danos físicos, doenças e eventuais sofrimentos decorrentes de relações desastrosas não possam ser recuperados numa única vida, na medida em que seriam consequências de escolhas anteriores regidas por sentimentos e intenções ditas impuras. Contudo, a transformação do Espírito passa pela transformação da alma, sentido de qualquer reencarnação. Ao se transformar, o Corpo Mental influirá na saúde e na paz do encarnado, atenuando-lhe o sofrimento. Além disso, influirá decisivamente na constituição do Corpo Físico da encarnação seguinte e na escolha das provas, base do processo de aperfeiçoamento em direção da Luz.
Se, ainda assim, não estamos convencidos de que o inferno não existe, mesmo aquele reduzido a penas a serem sofridas na encarnação, talvez devamos pesquisar um pouco mais esta obra doutrinária. Mais a frente, na questão 1004, Kardec pergunta sobre o que determina a duração do sofrimento do culpado. O Irmão Espiritual, que se chamou de São Luis, responde:
O tempo necessário ao seu melhoramento. O estado de sofrimento e de felicidade sendo proporcionais ao grau de pureza do Espírito, a duração e a natureza dos seus sofrimentos dependem do tempo que ele precisa para se melhorar. À medida que ele progride e que seus sentimentos se depuram, seus sofrimentos diminuem e se modificam.” São Luis
Embora Kardec tenha perguntado sobre o sofrimento do culpado, o Irmão Espiritual preferiu dizer que as “penas” são proporcionais ao grau de pureza do Espírito, não castigos proporcionais à culpa. Diante disto, nada mais nos resta do que reconhecer que o livre arbítrio governa provas e penas, que são proporcionais aos sentimentos e intenções da alma, ou do Espírito, não condenações ordenadas por “entidade” superior.
Mais uma vez, diante da bondade de Deus, distanciamo-nos de “penas infernais”, ou de “beatitudes celestiais”, decorrentes do julgamento de alguém poderoso e cruel a nos impor a eternidade de seus desejos. Afinal, somos nós os senhores de nosso destino, ou não teríamos livre arbítrio.
Se nossa interpretação estiver próxima das palavras dos Irmãos Espirituais que produziram O Livro dos Espíritos junto com Kardec, o trabalho realizado nos Centros Espíritas direcionado aos Espíritos sofredores, bem como o desenvolvido nos consultórios de psicoterapia direcionado aos encarnados sofredores, ou seja, o trabalho de transformação do Corpo Mental de Espíritos e almas, responde ao que disse São Luis sobre a modificação e purificação de sentimentos e a proporcionalidade das “penas” no aqui e no agora.
Como se sabe, embora a Psicologia Transpessoal seja reconhecida nos Estados Unidos e na Europa como teoria em Psicologia, no Brasil, a reencarnação não é admitida como possibilidade interpretativa de sintomas. Sabe-se, também, que os sintomas relacionados às neuroses, psicoses e perversões são manifestações da linguagem, isto é, quem os manifesta quer dizer alguma coisa com eles. Portanto, possuem sentido. Assim sendo, em psicoterapia, trata-se o sintoma como se fosse algo dito pelo paciente, incapaz, naquele momento, de fazê-lo pela boca. Culpas e medos incompreensíveis estão relacionados a questões inconscientes, isto é, a situações e papéis desempenhados e de alguma forma esquecidos, nos quais sentimentos e intenções estiveram presentes, por exemplo.
Existem diferentes técnicas psicoterápicas baseadas em teóricos importantes, que abordam a questão do inconsciente de modo particular. A Psicologia Transpessoal admite que o inconsciente faça parte do Corpo Mental, existindo e produzindo sintomas na alma e no Espírito, tal como nos mostra André Luis e Joana de Angelis em seus livros. No entanto, mesmo no Espiritismo, é possível se encontrar espíritas a discordar de qualquer processo de recordação de questões inconscientes com esta amplitude, alegando ser indesejável a lembrança de vidas passadas, tal como consta no O Livro dos Espíritos, afirmam eles. Alguns argumentos parecem sustentar a imutabilidade do Karma e a existência de “penas infernais” no processo reencarnatório, hipótese existente em tempos medievais do cristianismo.
Acreditamos que O Livro dos Espíritos não poderia ser lido ao pé da letra, nem se desconsiderando questões aparentemente contraditórias. Cada resposta dos Irmãos Espirituais está condicionada às circunstâncias específicas que envolvem os argumentos utilizados. Observemos, por exemplo, a questão 308, na qual Kardec indaga se os Espíritos recordam-se de todas as encarnações passadas. A resposta foi simples e direta:
“O passado se desenrola diante dele, como as etapas de um caminho que um viajante percorreu. Mas, como já dissemos, ele não se lembra de maneira absoluta, de todos os atos, recordando-os apenas na razão da influência que tenham sobre seu estado presente. Quanto às primeiras existências, as que se podem considerar como a infância do Espírito, perdem-se no vazio e na noite do esquecimento”.
Assim, as recordações são bastante terapêuticas, na medida em que influem no estado presente, justificando-o. Afinal, para quê recordar se o processo não servir para a transformação de sentimentos e intenções? A indagação mais razoável seria se a alma, aprisionada na encarnação, não estaria impedida de recordar seu passado. Talvez possamos voltar um pouco e buscar a questão 223, na qual Kardec pergunta se a alma reencarna imediatamente após a separação do corpo. A resposta continua simples e direta;
“Às vezes, imediatamente, mas, na maioria das vezes depois de intervalos mais ou menos longos. Nos mundos superiores, a reencarnação é quase sempre imediata. A matéria corpórea sendo menos grosseira, o Espírito encarnado goza de quase todas as faculdades do Espírito. Seu estado normal é o dos seus sonâmbulos lúcidos.”
O que ressalta nesta questão é a afirmação de que os sonâmbulos lúcidos gozam de quase todas as faculdades do Espírito, podendo recordar-se daquilo que seja importante ao seu crescimento. De qualquer forma, ainda assim, pode-se afirmar que não estaria clara tal analogia. Vejamos um trecho da questão 455, na qual Kardec elabora um resumo teórico sobre o sonambulismo:
“A causa da clarividência do sonambulismo magnético e do sonambulismo natural são a mesma: um atributo da alma, uma faculdade inerente a todas as partes do ser incorpóreo que existe em nós, e que não tem limites além dos que são assinalados à própria alma. O sonâmbulo vê em toda parte a que sua alma possa transportar-se, qualquer que seja a distância.”
Portanto, no sonambulismo, com sua emancipação, a alma recupera alguns atributos inerentes aos Espíritos. Kardec pergunta na questão 434 se as faculdades que o sonâmbulo desfruta são as mesmas do Espírito após a morte. Como sempre, a resposta é simples e direta:
“Até certo ponto, pois é necessário ter em conta a influência da matéria, a que ele ainda se acha ligado.”
Observemos que sonambulismo é sinônimo de transe em hipnose, e que magnetismo também o é do processo hipnose completo. Observemos, ainda, que a Psicologia Transpessoal e a Terapia Regressiva (TR) se valem do transe hipnótico superficial, sonambulismo na linguagem de Kardec, para ajudar na transformação do Corpo Mental do paciente nos termos acima descritos, na medida em que, neste estado, eventuais recordações, inexistentes no estado dito normal, contribuem para esclarecer o sentido de seu Karma. Diante deste sentido a reverberar nos sofrimentos atuais, o paciente eventualmente descobre um atalho para sua transformação. Eventualidade a depender de sua força interior, daquilo que os Irmãos Espirituais chamaram no O Livro dos Espíritos de merecimento.
Ao nivelar almas e Espíritos, O Livro dos Espíritos sugere que os Irmãos Espirituais são conselheiros das almas e Espíritos ainda em desenvolvimento, não entidades poderosas a nos proteger do mal. O mal é escolha livre de cada um, assim como o poder de evitá-lo em seus sentimentos e intenções. As forças da natureza e os acidentes não são um mal, assim como as obsessões; são apenas acontecimentos, provas a serem superadas pelos encarnados. Até mesmo a intuição de tragédias futuras é parte das escolhas e das provas de cada um.
Assim, entendemos que não há qualquer impedimento para se transformar o próprio Karma, a não ser o livre arbítrio a governar caminhos de felicidade e sofrimento. Isto não significa que os Espíritos perderam sua função na arquitetura do Universo, mas, como os encarnados, exercitam a caridade e a compaixão em suas trajetórias em direção à Luz. Como Irmãos mais experientes, sugerem, apontam caminhos, orientam, ajudam nossa tarefa de curar corpos e mentes, alertam-nos sobre eventuais tropeços. Segui-los, aceitar suas orientações, é escolha de cada um. Almas e Espíritos são o mesmo a existir em dimensões diferentes.
Finalmente, talvez seja possível afirmar que o “inferno” é criação do nosso Corpo Mental, deste princípio inteligente que tenta justificar os sofrimentos do Corpo Físico causados por ele mesmo, sugerindo castigos e “penas infernais” impostos, não consequências de si mesmo. Tudo indica que o tratamento psicoterápico com base na hipnose pode ajudar a transformar o Karma de encarnados sofredores, na medida em que a alma emancipada do Corpo Físico recupera alguns atributos dos Espíritos, dentre os quais está a capacidade de recordar-se do passado, nos limites esclarecidos no O Livro dos Espíritos.
Felizmente, mesmo que aconselhados pelos Irmãos Espirituais, para o bem ou para o mal, estamos sós em nossas escolhas. É o que nos garante a liberdade para amar, vivenciar a compaixão e a caridade e, finalmente, encontrar a felicidade.
Não há esperança sem fé!
 

PSICOTERAPIA DA ALMA

Para o Espiritismo, o sonambulismo é mais que um fenômeno fisiológico, é uma luz lançada sobre a psicologia; é aí que se pode estudar a alma, porque ela se mostra descoberta. (Kardec, L.E., q 455)
Em artigos anteriores, sinalizamos para o fato de Kardec ter tido muita experiência com hipnose, que, na época, chamava de magnetismo. Como se sabe, a hipnose é um processo, no qual algumas técnicas são empregadas, a fim de facilitar o transe hipnótico, no qual ocorre o que se convencionou chamar de Estado Ampliado de Consciência. Ampliado na medida em que possui algumas características peculiares à consciência dos Espíritos. Kardec chamava a este Estado de sonambulismo, no qual a alma se emanciparia do corpo físico.
Kardec dividia o sonambulismo em natural e magnético. O primeiro aconteceria de forma espontânea, enquanto, o segundo, seria provocado por um magnetizador, hoje, chamado de hipnólogo.
Nada disso teria importância para a psicoterapia não fora os fenômenos que acontecem no transe hipnótico, ou como dizia o codificador, no sonambulismo. Neste Estado, a alma se emancipa do corpo físico, adquirindo alguns atributos do Espírito, dentre os quais estão a clarividência e a recordação de vidas passadas.
Kardec assim se expressou sobre a clarividência:
A causa da clarividência tanto no sonambulismo magnético quanto no natural é a mesma: é um atributo da alma, uma faculdade inerente a todas as partes do ser incorpóreo que está em nós e cujos limites são os mesmos da própria alma. O sonâmbulo vê todos os lugares aonde sua alma possa se transportar, seja qual for a distância. (Kardec, L.E., q 455)
Nesta citação, o importante parece ser a relação estabelecida entre os atributos do Espírito, ser incorpóreo, e os da alma, Espírito encarnado, como a definiu Kardec. Tais atributos permitem-nos dizer que as recordações de vidas anteriores da alma ocorrem tal como nos Espíritos, isto é, segundo as necessidades para o seu próprio desenvolvimento, guardando-se os limites e impedimentos causados pela ligação da alma com o corpo físico.
De qualquer forma, tomando-se O Livro dos Espíritos como referência, em especial o capítulo sete do Livro Segundo – A emancipação da alma - as recordações ocorrem na medida em que a alma se emancipa do corpo físico, não em função de algum estado alterado e referido ao corpo físico. Contudo, cabe esclarecer, como a alma está ligada ao corpo físico, este sinaliza em seu funcionamento, tal como no batimento cardíaco, na cor da pele, na sudorese, nas ondas cerebrais e alguns outros sinais, que a alma estaria em processo de emancipação deste corpo físico.
Assim sendo, presumimos que seja adequado chamarmos ao processo psicoterapêutico que ocorre com o paciente em transe hipnótico, ou em estado sonambúlico, como diria Kardec, de Psicoterapia da Alma.
Diante de tais fatos, parece claro que, nem o paciente, nem o psicoterapeuta, teriam domínio sobre o processo terapêutico de recordação de vidas passadas. Este processo obedeceria a diferentes fatores relacionados ao funcionamento da memória, bem como a sua relação direta com as dores, rancores e amores do paciente, bem como o peso de sua culpa inconsciente.
O curioso é que a culpa inconsciente está sempre encoberta pelos episódios traumáticos desta e de outras vidas. Como as dores, o abandono e o desamparo parecem justificar todo sofrimento atual, suas intensidades como que silenciam as situações, nas quais o paciente foi o agente do sofrimento alheio. Estas últimas são mais difíceis de serem lembradas, fazendo com que a culpa se enraíze no inconsciente, causando, com seu quase silêncio, mais sofrimento do que o alarido das situações traumáticas.
É verdade que alguns sintomas estão diretamente relacionados com situações traumáticas. Livros e mais livros sobre Terapia de Vidas Passadas relatam inúmeros casos de ocorrência de cura de sintomas físicos depois de significativas lembranças de traumas vivenciados nesta, ou em outras vidas. Contudo, curiosamente, o desaparecimento do sintoma físico não resolve o sofrimento, que a alma carrega de forma crônica e contínua. Depois de um alívio momentâneo com o desaparecimento do sintoma físico, um mal estar indefinido quase sempre reocupa seu lugar na alma do paciente.
Do ponto de vista ético, não se pode contrariar o desejo de um paciente, que procura a psicoterapia para se livrar de algum mal físico. Embora se saiba que a transformação interna a iluminar o caminho da felicidade não está no sofrimento do corpo físico, mas nos sentimentos que a alma carrega, é preciso atender, primeiro, à demanda do paciente. Em alguns casos, o próprio paciente solicita um aprofundamento do processo psicoterápico; em outros, aceitam as sugestões do psicoterapeuta, no sentido de libertar a alma da insistência da culpa, a fim recuperar o livre fluxo do desenvolvimento.
Quando sentimentos aprisionam a alma, as encarnações se repetem plenas do mesmo sofrimento, mudando apenas de corpos e de situações. O caracteriza o Karma é o sentimento que a alma carrega, não sendo diretamente decorrente das situações eventualmente vividas em diferentes corpos. O que move a ação é o sentimento, não o inverso, como faz parecer supor as situações traumáticas, nas quais se sofre a ação.
A alma é movida por sentimentos e intenções, dentre os quais estão a culpa e o desejo de fazer sofrer, a si e ao outro. Culpa pelo que já se fez de mal a alguém e pelo desejo de fazê-lo novamente, ai está o nó a ser desatado para livrar a alma do sofrimento e para recuperar o fluxo reencarnatório em direção à felicidade.
Ao acompanharmos o trabalho com Espíritos obsessores nos Centros Espíritas, evidencia-se, em tais Espíritos, o desejo de fazer o mal, bem como a dificuldade em fazê-los descobrir que são estes sentimentos que o fazem sofrer, não mais o que se passou em épocas anteriores quando encarnado. Por seu lado, estando encarnada, a alma passa primeiro por lembrar-se do sofrimento dos seus diferentes corpos físico, para, depois, descobrir que provocou traumas e sofrimentos em outros corpos físicos, hoje Espíritos obsessores a dificultar-lhe a existência.
Tanto no trauma, quanto na culpa, o sentimento predominante talvez tenha sido o desejo de fazer o outro sofrer. No primeiro caso, como reação ao sofrimento imposto pelo outro e, no segundo, como sentimento sem causa definida além do preconceito. Não estamos afirmando que todos os pacientes sofrem por tais razões, embora o fato de estarmos num planeta de provas e penas possa sugerir que tal aconteça no ciclo das reencarnações.
Superar este circuito parece ser a chave que liberta almas e Espíritos de seus sentimentos destruidores, permitindo que retornem ao fluxo do desenvolvimento em busca da felicidade. É preciso redescobrir o amor e a compaixão, sem o quê, não é possível perdoar e praticar a caridade. Esta seria a função da Psicoterapia da Alma, que, transformando sentimentos aqui e agora, modifica o Karma. Isto é, a mudança de perspectiva sobre o passado, permite que se espere um novo futuro, diria Chico.
Não há esperança sem fé.

PSICOLOGIA E EMANCIPAÇÃO DA ALMA

“Enquanto o homem se extravia nas sutilezas de uma metafísica abstrata e ininteligível, na busca das causas de nossa existência moral, Deus põe diariamente sob seus olhos e sob suas mãos os meios mais simples e mais patentes para o estudo da psicologia experimental.” Kardec, q 455, LE.
Neste texto, procuramos iluminar a real aproximação entre o pensamento de Kardec sobre Psicologia e o que se pratica em muitos consultórios nos dias de hoje pelo mundo afora. Kardec sinaliza para o fato da alma emancipada recuperar alguns atributos dos espíritos, dentre os quais se encontra a possibilidade de recordação de outras existências físicas, na justa medida em que tal recordação sirva para a evolução desta alma. Como veremos a seguir, ao falarmos de Psicologia, há enorme aproximação entre o hoje e o ontem de Kardec.
Nos últimos trinta anos, vem se disseminando a prática da Psicologia Transpessoal, além de outras como Terapia Regressiva, que admitem a pré-existência da alma. Durante a sua prática, algumas técnicas ajudam o paciente a alcançar uma condição chamada de Estado Ampliado de Consciência, cujo efeito direto está na possibilidade de se lembrar o que a memória normal não permite. Este estado em nada difere do que, em hipnose, é conhecido como Estado de Transe.
No Estado de Transe, o paciente amplia sua percepção e aviva sua memória para fatos do seu passado, criando condições favoráveis para superação de seu sofrimento atual de origem inconsciente. Quando as lembranças são avivadas, muitas vezes, são relatados episódios possivelmente ocorridos em outras vidas. São episódios que, de alguma forma, estão correlacionados com as queixas atuais, na medida em que estão em cadeias associativas carregadas pelo mesmo sentimento.
Ao lembrar-se de outros tempos, o paciente pode estar apenas devaneando sob influências diversas, como histórias contadas, lidas, ou assistidas no cinema e televisão. Contudo, considerando o aspecto simbólico dessas recordações, sendo verdade do passado ou fantasia, o sentido latente sempre terá relação com os fatos atuais, que estimularam esta recordação. Assim funciona na mente o processo associativo, seja no dia-a-dia, seja durante a psicoterapia.
Assim sendo, do ponto de vista psicoterápico, numa sessão conduzida com o paciente sob hipnose, não importa se a história contada é fantasia, devaneio, ou verdade do passado, na medida em que estará falando da verdade daquele sujeito em sua essência mais íntima, revelando aquilo que não consegue dizer no estado natural. Todos os personagens de sua história, além do texto desta história, nasceram de sua criação. Se, de fato, os personagens existiram no passado, no relato aparecem do modo como o paciente os vê, não como verdadeiramente são, ou foram.
De qualquer forma, não seria prudente eliminar a hipótese de recordação de uma pré-existência da alma em outros corpos físicos do passado, já que diferentes psicoterapeutas europeus e americanos a consideram em suas práticas clínicas, sem que haja restrição objetivada pelos órgãos reguladores da profissão em seus países.
A American Psycological Association, em sua Divisão 30 dedicada à Hipnose Clínica (www.apa.org/divisions/div30/), comenta, em sua apresentação (www.apa.org/divisions/div30/powerpoint.html), que o transe hipnótico teria diferentes interpretações, segundo a perspectiva científica do psicoterapeuta. Além da Cognitivo-comportamental e da Psicanálise, dentre outras, esta Associação destaca a Psicologia Transpessoal como linha interpretadora dos fenômenos associados ao transe hipnótico. Argumenta que há milhões de pessoas no mundo, que admitem a pré-existência da alma e não se poderia abandonar tais perspectivas sobre a realidade psíquica do sujeito.
Curiosamente, aqui no Brasil, os órgãos oficiais que regulamentam a Psicologia não admitem a possibilidade da pré-existência da alma, embora, como já dissemos, as demais Instituições reguladoras existentes em importantes países do ponto de vista científico, como os Estado Unidos, a França, a Holanda, a Inglaterra e outros, não estimulem, mas admitem a possibilidade de se considerar a hipótese científica da pré-existência da alma.
Como se sabe, uma hipótese científica passa pelo processo de negação durante as pesquisas direcionadas a sua eventual comprovação. Ao se poder negá-la, durante o processo científico, a hipótese é descartada. Até onde se pode entender, a hipótese da pré-existência da alma, isto é, da reencarnação, ainda não foi cientificamente negada nas pesquisas universitárias, nem nos diferentes laboratórios de psicologia independentes espalhados pelo mundo. Portanto, aqui no Brasil, estaríamos diante de uma negação da realidade científica ao desconsiderar a hipótese da reencarnação, mesmo antes da ciência fazê-lo.
O interessante é que as ciências humanas, diferentemente das ciências da natureza, sustentam-se em inúmeras interpretações da realidade que, muitas vezes, excluem-se mutuamente, por reducionismo científico ou preconceito. As ciências da natureza, por seu lado, apóiam-se em explicações, as quais dificilmente podem ser contrariadas com os recursos científicos ora existentes. São universos bastante diferentes no que se refere aos paradigmas adotados durante o processo científico.
Portanto, a reencarnação poderia ser uma hipótese a ser estudada em Psicologia, a qual, com os conhecimentos e instrumentos científicos atuais, provavelmente, não poderia ser peremptoriamente negada. Assim sendo, falar em pré-existência da alma não seria um absurdo científico, embora o seja proibido pelos órgãos reguladores da Psicologia, que a entendem como dogma religioso, não estando sua discussão, portanto, no campo da ciência, isto é, nos limites da percepção científica da realidade.
Situando-se a reencarnação na mesma perspectiva dos dogmas religiosos, a hipótese da reencarnação deixa de ser algo a ser oficialmente estudado em nossas Universidades. A causa provável seria o materialismo científico, ou o positivismo, que ainda dominam a mente científica dos brasileiros, mesmo diante do talvez sim, talvez não, da física quântica. Ou, quem sabe, seja um receio relacionado aos charlatães de plantão, que se aproveitariam da abertura, para seduzir seus pacientes.
Ao se impedir o estudo científico de diferentes possibilidades, ou de hipóteses, penetra-se em universos alheios à ciência e muito próximos de decisões políticas restritivas. O reducionismo da visão linear entre o fenômeno e sua causa, tende a excluir inúmeras possibilidades, as quais estariam presentes na mente arejada pela dúvida. Se houvesse a certeza, não haveria ciência; se soubéssemos os desígnios de Deus, perderíamos a fé.
Não se poderia afirmar que, ao admitir a pré-existência da alma, a Psicologia estaria se transformando numa Psicologia Espírita, ou que seria eventualmente absorvida por alguma outra religião. No contexto religioso, a reencarnação pode ser uma crença; no contexto científico, pode ser uma hipótese. De qualquer forma, não poderia ser explicada, na medida em que podem existir diferentes significados para sua realidade fenomênica, isto é, diferentes interpretações.
Em Psicologia, considerar-se a hipótese da reencarnação não significa a adoção imediata das interpretações espíritas, ou das budistas, ou do hinduísmo, ou as de outra religião, para justificar o fenômeno observado. Nas observações clínicas, inicialmente, constata-se a possibilidade e avalia-se consequências. Em algum momento, elabora-se uma teoria, a fim de produzir um sentido, que permita a contextualização do fenômeno observado. Em psicanálise, por exemplo, Freud chegou a dizer que a teoria das pulsões seria sua mitologia, na medida em que servia para dar sentido à origem dos fenômenos psicológicos por ele observados.
Do mesmo modo, diante das peculiares recordações do paciente, a Psicologia Transpessoal sustenta a possibilidade de alguns sintomas se originarem em vidas passadas, sem excluir o devaneio, a mistificação, ou a psicose, como alternativas reais para o observado.
Comparando-se o Espiritismo de Kardec com as religiões cristãs tradicionais, percebe-se que ele se supera ao sustentar o viés científico de suas colocações. De fato, as religiões tradicionais fundam-se em dogmas e afirmações, que estão além da possibilidade de investigação e discussão científica. Em oposição, a fé raciocinada do Espiritismo incentiva a pesquisa científica, estimulando o aprofundamento da dúvida e do debate, sem temer se a possibilidade da negação da reencarnação possa vir, um dia, a desestabilizar a arquitetura do Livro dos Espíritos. A verdadeira fé não teme a palavra do homem.
Diante disto, o Espiritismo estruturou-se na articulação entre a religião, a ciência e a filosofia, sem deixar-se dominar pela exclusividade de uma delas.
Com a tranqüilidade proporcionada pela fé raciocinada, talvez mais intuída, é possível encontrar em Kardec a antevisão dos tempos atuais. Lá, ele não estaria adivinhando o nosso presente, mas encontrando, no seu tempo, o germem que iria florescer 150 anos depois na Psicologia Transpessoal. Outras abordagens psicológicas seguiram o mesmo caminho desta, disseminando a hipótese da reencarnação pelos corredores da Psicologia. Mesmo tendo superado o preconceito no resto do mundo ocidental, a teoria da reencarnação permanece “exilada” do contexto científico brasileiro.
Diante do exposto até aqui, proponho não se pensar em Kardec como codificador de uma Doutrina Religiosa, mas como pesquisador da mente, ou do Corpo Mental, como se referia André Luiz. Naquele distante meado do século XIX, ele deu início ao que seria considerado como novidade no final do século XX, isto é, a finalidade terapêutica das recordações de vidas passadas.
Proponho, também, deixar um pouco de lado as eventuais impossibilidades de se recordar vidas passadas, todas elas bastante conhecidas e exploradas no O Livro dos Espíritos. Assim, poder-se-ia transitar pelas palavras de Kardec, sem temer a contradição entre as recordações terapêuticas e àquelas indesejadas e reveladas pelo Espírito da Verdade.
Estabelecendo um paralelo entre a moderna Psicologia e aquela descrita por Kardec, é preciso esclarecer que magnetismo, no texto de Kardec, é sinônimo de hipnose, enquanto que, sonambulismo, o é de estado de transe. Assim posto, ao ler a parte XVI de sua Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita, é possível se identificar o quanto Kardec conhecia sobre o processo da hipnose. Lá, argumentando acerca das objeções ao Espiritismo, fala da teoria magnética (hipnose) como abordagem racional, embora esta desconsidere a existência dos espíritos, isto é, da reencarnação.
Neste mesmo texto, Kardec descreve o sonambulismo tal como hoje se faz com o estado de transe, isto é, “neste estado, as faculdades intelectuais adquirem um desenvolvimento anormal, os círculos da percepção se ampliam além dos limites de nossa percepção ordinária” (Kardec, LE, pag 55). Mais a frente, sinaliza para o fato de ter estudado o sonambulismo (estado de transe) por mais de trinta e cinco anos, não podendo negar seus prodígios.
Com sua mente realmente científica, Kardec pode explorar diferentes possibilidades para o fenômeno observado, isto é, o sonambulismo, ou estado de transe. Curiosamente, a Psicologia Transpessoal nomeia este estado como Estado Ampliado de Consciência, praticamente repetindo Kardec.
Em cada possibilidade, Kardec estudou seu contexto, suas causas e consequências, desenvolvendo questões a serem respondidas pelo Espírito da Verdade. Assim parece ter surgido o Capítulo VIII do Livro Segundo de O Livro dos Espíritos, A Emancipação da Alma.
Em artigo anterior, sugeri que Kardec havia demonstrado a diferença entre mediunidade e emancipação da alma, não obstante os dois fenômenos dependessem, em certa medida, do que chamou de sonambulismo acordado, ou estado de transe superficial. Kardec disse ainda que a psicografia aconteceria com o médium no seu estado natural, permitindo, assim, identificar-se, com certa confiança, o que seria do médium e o que seria transmissão dos espíritos. Já no sonambulismo (estado de transe), poderia haver dificuldades em se identificar se houve comunicação espiritual, ou se foi manifestação da alma de quem estivesse neste estado.
De qualquer forma, em Psicologia, interessaria o que Kardec sintetizou no capítulo sobre a Emancipação da Alma, deixando-se a mediunidade para ser estudada no lugar apropriado. Aqui, serão apenas sinalizados os pontos de contato entre a comunicação espiritual e a emancipação da alma.
Ao sintetizar as respostas do Espírito da Verdade, Kardec elabora um texto extraordinário (questão 455), no qual se descobre sua vasta experiência e conhecimento sobre magnetismo (hipnose) e sonambulismo (estado de transe, ou estado ampliado de consciência). Ali, Kardec revela o porquê, o como e em que limites a alma emancipada recorda suas vidas passadas.
Se admitirmos que a Psicologia Transpessoal, bem como todas aquelas que consideram a hipótese de vidas passadas, trabalha com hipnose e estado de transe em diferentes profundidades, aplicando técnicas específicas para cada caso, entende-se a razão de sugerirmos ser Kardec, com sua emancipação da alma, um desbravador deste desconhecido.
Lendo o referido texto, percebe-se que a alma emancipada adquire certas características dos Espíritos, penetrando em seu mundo, tanto mais profundamente, quanto mais profundo for o transe, ou êxtase, como chamou Kardec. Do ponto de vista terapêutico, é preciso evitar-se um transe profundo, no qual a apatia física e a dificuldade de recordação a posteriori estarão presentes.
Embora cada sujeito tenha o seu próprio contexto de recordação, genericamente, busca-se mantê-lo num estado, no qual vivencie suas recordações, isto é, que possa manifestar os sentimentos vividos na ocasião do fato recordado. O fato, nem sempre, é recordado com clareza, podendo haver a mistura de várias situações semelhantes numa espécie de condensação. Esta limitação não impede que se faça uma ponte entre passado e presente, a fim de resignificar o aqui e o agora, superando-se sofrimentos desnecessários.
Alguns clínicos, dentre os quais me situo, chamam a essa resignificação de Transformação do Carma. Como se sabe, o Carma pode ser lido de diferentes maneiras, todas sugerindo razões para o sofrimento do sujeito. Mesmo em Kardec, algumas vezes o entendemos como pagamento de uma dívida, uma espécie de castigo, outras vezes, o entendemos como o resultado de como o sujeito verdadeiramente é e sente. Tudo indica que esta última seja a versão mais aproximada se a compararmos com os efeitos do tratamento em Psicologia.
Na medida em que o sujeito se transforma, o sofrimento escoa de sua mente e ele se aproxima mais um pouco da felicidade. Se for assim, o sofrimento não é pelo que se fez, mas pelo que se é. Ou seja, sofre-se pelas consequências dos atos impulsionados pelos sentimentos dominantes na alma desde sempre. Portanto, o carma não seria um castigo, mas a conseqüência do que verdadeiramente somos. A dívida não seria com o passado, mas com o futuro, na medida em que não se escaparia do mesmo.
Como Kardec sintetizou, com a sua emancipação do corpo físico, a alma pode entrar em contato com o mundo espiritual que, na maioria das vezes, encontra-se no mesmo nível, ou abaixo, do desenvolvimento desta alma. Quase sempre, são espíritos ligados, de alguma forma, a alma emancipada, diria Kardec. Faz parte do tratamento da alma descobrir as razões da aproximação espiritual e superar, pela transformação, a causa do sofrimento de ambos.
Naqueles primórdios, Kardec resumiu a evolução espiritual no desenvolvimento do conhecimento e da moralidade. Hoje, em Psicologia, poderíamos dizer que a evolução está na transformação dos sentimentos, a partir da qual se alargam a moralidade e o conhecimento. No lugar do arrependimento, descobre-se o amor e a compaixão, lugar onde está a real libertação do carma.
Finalizando, esperamos que o texto tenha sido suficientemente interessante, para estimular a leitura do capítulo sobre a Emancipação da Alma e tenha evidenciado a possibilidade de transformação do carma durante a psicoterapia, isto é, pelo encontro do sujeito alma com os sentimentos guardados no interior da mente e pela revelação da dimensão do amor e da compaixão ali escondidos.
Quanto aos aspectos científicos a serem estudados sobre a emancipação da alma, falta à Pátria do Evangelho seguir o posicionamento das nações “irreverentes” e pesquisadoras. Se soubessem, para quê pesquisar?
Não há esperança sem fé!